Sofremos de “presentismo laboral” mas nem por isso produzimos mais

A bem da produtividade “é preciso acabar com ‘presentismo’ laboral”, defendeu o psiquiatra Pedro Afonso no debate promovido pela ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, dedicado ao “Impacto do excesso de carga horária laboral na saúde psíquica e na vida familiar”.

Pedro Afonso, que é também professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina de Lisboa e na AESE – Business School, partilhou os mais recentes estudos e números que ajudam a fazer um ponto de situação quanto à evolução do mercado laboral português, sob este ângulo específico. Em Portugal, reforça, não se trata de alterar a legislação, pois esta salvaguarda devidamente o número de horas de trabalho diárias e semanais. É, inclusivamente, apoiada por diretrizes europeias. Por cá, a questão é mesmo cultural, defende o psiquiatra. Tudo se resume a um cenário de “presentismo laboral”. Ou seja, as pessoas ficam na empresa muito para além do seu horário, fazem muitas horas a mais mas nem por isso se traduz em produtividade. “Quantidade não significa qualidade”, frisou mesmo.

Em seu entender, depois de termos a assistido a uma revolução tecnológica, que prometia mais tempo de lazer e maior facilidade para realizar as mais diversas tarefas diárias, e aquilo a que assistimos atualmente é ao desvanecer da fronteira que separa a vida profissional da pessoal, potenciado por inúmeros fatores, nomeadamente pelos dispositivos móveis que, em qualquer situação, facilitam o quebrar dessa linha.

E deste contexto emergem algumas novas realidades, camufladas com alguma ligeireza. Entre elas, está o “trabalho sombra”. Aquele que foi transferido dos funcionários das empresas, das mais diversas atividades, para o consumidor. “E sem que nos tenhamos apercebido”, garante o especialista. Os exemplos sucedem-se: nas bombas da gasolina; nas caixas registadoras para clientes dos hipermercados; no levantar e arrumar dos tabuleiros em zonas de restauração; mas marcações online de hotéis; e até nos embrulhos dos presentes de Natal, para os quais passaram a ser fornecidos papel e fitas para que os consumidores os façam em suas casas. Para Pedro Afonso, este é um conjunto de situações que aparentemente nos levariam a facilitar a vida mas que se traduz num enorme desgaste e perda de tempo para as pessoas (os consumidores).

A realidade que descreve Pedro Afonso passa ainda por cenários muito difíceis para quem quer conciliar a vida pessoal com a profissional. Convicto de que “casas vazias, crianças desequilibradas”, defende que as empresas devem assumir um compromisso ético de responsabilidade familiar; que devem permitir uma maior flexibilização de horários (permitindo também trabalhar em part-time); ou que criem protocolos com creches localizadas perto das empresas (à semelhança do que muitas já fazem com ginásios, visando salvaguardar a saúde física dos colaboradores).



Mais notícias