Síria, um cocktail de terrorismo e interesses

A retaliação aliada não irá desencadear um conflito à escala mundial, embora se venha a verificar uma deterioração no relacionamento entre os EUA e a Rússia. Só que o mundo já não pertence por inteiro a um e outro. O pragmatismo chinês soube criar a oportunidade.

Na atualidade, a Síria é palco de uma quase revisitação do clima que o mundo viveu na sequência da Segunda Guerra Mundial. Nessa conjuntura de guerra fria, traduzida pelas palavras de Aron – guerra improvável, paz impossível –, as guerras foram por procuração. Algo que, na circunstância atual, se volta a verificar, malgrado um maior envolvimento dos EUA e da Rússia, como ficou patente no bombardeamento de três alvos precisos levado a cabo pelos EUA, Reino Unido e França na madrugada de 14 de abril de 2018.

Um ataque altamente previsível. Os tweets de Trump não permitiam outra saída, apesar da posição russa que, à ameaça norte-americana de que não demorariam a chegar à Síria mísseis bonitos, novos e inteligentes, respondeu acusando os EUA de montagem do ataque químico em Douma e ameaçando retaliar em caso de agressão ao seu aliado Bashar al-Assad.

Uma reação inevitável, uma vez que a Rússia se tinha responsabilizado pela remoção de todas as armas químicas na Síria. Por isso, apesar de os EUA referirem, na reunião do Conselho de Segurança de 13 de abril de 2018, que Assad usou pelo menos 50 vezes armas químicas e mencionarem estimativas que apontam para 200 vezes, a Rússia não aceitou esses dados. Tal como não aceitou o bombardeamento. Por isso foi lesta a deixar o aviso de que o ato unilateral terá consequências. Afirmou-se ameaçada. Um mau presságio. Ao contrário da crise dos mísseis de Cuba, desta vez a linha vermelha foi ultrapassada. Só que a Rússia não é a URSS. Por isso, talvez a contextualização permita um acréscimo de realismo que afaste a tão propalada hipótese da Terceira Guerra Mundial.

Contextualização da temática

O bombardeamento aliado faz parte de um processo que está para durar na escalada de violência que se abateu sobre a Síria. Um processo cuja origem remonta ao surgimento de movimentos revoltosos rápida e abusivamente designados como Primavera Árabe. Uma convulsão que, para além das consequências internas, teve reflexos a nível mundial e abalou a parte da Europa que, durante décadas, conviveu bem com ditaduras instaladas na outra margem do Mediterrâneo. Uma vizinhança sem direito a perguntas incómodas. Uma situação que, hoje em dia, é bem aceite pela Rússia e pela China.

Nessa conjuntura, no meio da turbulência dos levantamentos populares, Assad prometeu reformas internas visando uma maior abertura do regime. Porém, depois de uma fase inicial em que o Ocidente depositou esperanças na secularização preconizada, o novo líder, apesar de ter a especialidade de oftalmologista, revelaria vistas curtas no que concerne ao relacionamento com a oposição interna.

A forma como perseguiu os opositores virou contra si grande parte da comunidade internacional, inclusivamente da Liga Árabe que o baniu. A guerra civil tornou-se inevitável e os elementos religioso e económico funcionaram como fatores determinantes na escolha da parte a apoiar, ainda que habilmente disfarçados por uma capa altruísta e humanitária.

Uma guerra que, na visão oficial, não justifica a designação, uma vez que Assad não reconhece legitimidade aos revoltosos e, por isso, considera que tudo não passa de terrorismo contra o Estado. Uma leitura que o Exército Livre da Síria não subscreve. Para a oposição, o terrorismo só pode ser da parte do Estado, embora, como decorre da História, o Estado nunca assuma a autoria de atos terroristas, malgrado não revelar pejo em atribuir essa acusação a outros Estados. Basta ler a definição de terrorismo dada por diferentes organismos oficiais dos EUA. O eixo do mal como constante.

A reação da Rússia ao bombardeamento e às anteriores ameaças e as diferentes visões sobre as medidas a tomar no âmbito do CS da ONU para solucionar o imbróglio – a Rússia já usou o veto 12 vezes para proteger o regime de Assad e seis vezes para impedir a condenação do uso de armas químicas pelo exército sírio – evidenciam que o conflito na Síria está longe de poder ser reduzido a uma luta contra o Estado Islâmico (EI).

Aliás, se assim fosse, as forças estrangeiras na Síria já poderiam estar de malas aviadas para regressar a penates, pois Putin anunciou a vitória russa e síria, e a Secretária de Imprensa dos Estados Unidos sobre a Síria afirmou que a missão militar para erradicar o EI estava a chegar a um final rápido. Só que, apesar de Trump dizer que quer as suas tropas de voltas,  o general responsável pelas operações do Comando Central e a embaixadora dos EUA na ONU desautorizaram-no.

Uma situação complexa e na qual nem a identificação dos terroristas é consensual e não devido à inexistência de uma definição universal de terrorismo. Afinal, a leitura das diferentes definições permite identificar, segundo Stern (2011), três caraterísticas comuns e uma delas aponta para que seja motivada por um fator político, religioso ou ideológico. Fatores que, como se verá de seguida, podem funcionar de forma concertada.

As várias dimensões do conflito

A classificação terminológica do conflito varia consoante o critério considerado. Assim, no que concerne ao elemento religioso, basta perceber o apoio que o Irão xiita concede a um muçulmano de origem alauita, Assad, para perceber que Teerão pretende lutar contra a preponderância na zona da sunita Arábia Saudita. Aquela potência regional com quem Trump assinou um contrato de 110 mil milhões de dólares para venda de armas, mesmo sabendo do apoio que personalidades do reino concedem ao terrorismo religioso. Registe-se que também a Rússia teme a ameaça sunita devido aos terroristas chechenos.

A religião também é chamada à colação quando se constata a existência na Síria de grupos com ligações às maiores organizações terroristas religiosas. Por isso, o enfraquecimento momentâneo da Al-Qaeda central levou Abu Bakr al-Baghdadi a aproveitar-se da solidariedade sunita e a sonhar com um califado que proclamaria em 2014. Um califado em que estariam incluídos territórios da atual Síria. Daí que o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, mais tarde apenas Estado Islâmico ou Daesh, se tivesse concentrado no Leste do país, designadamente nas províncias de Raqqa, Idib e Alepo.

Como o EI, tal como os seus antecessores, foi considerado terrorista pelo Ocidente e por países de outras latitudes, como a Rússia, as suas intenções e os sucessos militares iniciais foram vistos como uma ameaça e, como tal, as solidariedades – e os interesses – entraram em jogo.

A Rússia de Putin, um aliado tradicional da Síria, em 2015 entrou na luta contra o EI ao lado de Assad, a exemplo do Irão e do Hezbollah, movimento xiita sediado no Líbano.

Quanto aos EUA lideraram uma coligação que englobava os seus aliados tradicionais.

No entanto, apesar de o terrorismo religioso ter sido o fator invocado, a Rússia e os EUA acumulavam outras motivações.

Putin queria garantir a continuação da venda de material bélico ao regime sírio, a manutenção do porto de Tartus, a única base naval russa no Mediterrâneo, e a base aérea de Khmeimim. Trump, como os tweets mostraram, pretendia acabar com o regime sírio. Era preciso encerrar o ciclo governativo do animal que sentia prazer nos ataques químicos contra os seus cidadãos.

Esses ataques governamentais voltam a apontar no sentido de estarmos perante uma guerra civil, tanto mais que a oposição chegou a dominar uma parte considerável do país. Porém, como os curdos sírios, em 2014, declararam autónomas três regiões – Afrin, Jazira e Eufrates – o Curdistão Ocidental –, é lícito dizer que o conflito sírio também envolve a componente nacionalista/separatista.

Uma situação que levaria à invasão do Norte da Síria pelas forças turcas, uma vez que Erdogan receia que a solidariedade curda se estenda à Turquia e aumente o desejo separatista. Mais uma acha para a fogueira, pois os curdos das Unidades de Proteção Popular (YPG), o braço armado do PYG, são aliados dos EUA no conflito.

As consequências do conflito na (des)ordem mundial

A contextualização feita deixou evidente que a Síria se viu envolvida num conflito que extravasa as fronteiras do país. A regra habitual. Basta recordar, como Adriano Moreira, que as guerras de 1914-18 e 1939-1945 foram europeias pelas motivações e mundiais pelas consequências e que, de acordo com François Furet, as consequências foram maiores do que as causas.

Em cima da mesa, mais do que no campo de batalha onde, como decorre da norma, se morre sem perceber as reais causas da guerra, está uma luta pela supremacia regional disputada pela Turquia, Arábia Saudita e Irão, que pretende criar um corredor de resistência xiita até ao Líbano, a afirmação do direito à existência por parte de Israel e o marcar de terreno de um oligarca que governa a Rússia expansionista e de um populista que comanda os EUA como se de uma empresa se tratasse.

Putin, respaldado pelas altas patentes russas, não se coibiu de afirmar publicamente que a fronteira geográfica da Rússia não coincide com a sua fronteira de interesses. A anexação da Crimeia e a instabilidade criada na Ucrânia serviram de exemplos. Só que as sanções impostas pelos EUA e UE debilitaram a economia russa. O apoio militar ao regime de Assad constituiu a oportunidade para recuperar o prestígio no Médio Oriente. Prestígio que poderá voltar a ser abalado devido a novas sanções económicas impostas pelos EUA na sequência do ataque a Douma.

Quanto a Trump que, em 2013, temia que o seu país se envolvesse demasiado na Síria, alteraria substancialmente a sua posição quando, há alguns dias, responsabilizou Obama pelo estado a que a situação chegou, uma vez que a sua ação não tinha sido suficientemente vigorosa para destruir o animal Assad.

Trump que também se vê confrontado com problemas económicos decorrentes das medidas protecionistas impostas à União Europeia e à China. Daí a intenção de voltar a pertencer à Parceria Transpacífico (TPP), da qual os EUA se afastaram em 2017 por iniciativa própria. Mais uma das flutuações da vontade presidencial. Uma tentativa de pressionar a China.

Afinal, o paradigma da Nova Ordem Mundial não será unilateral nem bilateral, mas um multilateralismo de centros decisórios. Daí o recrudescimento da espionagem. A informação privilegiada como fator determinante. Por isso, o regresso de nacionalismos e populismos que não deixaram boas recordações.

Não será por acaso que na Rússia se voltou a lembrar que, quando os turcos estiveram às portas de Viena, o patriarca da Igreja Ortodoxa russa afirmou que a primeira Roma tinha caído, a segunda Roma – Constantinopla – também tinha caído, mas a terceira Roma – a Rússia – não cairia.

Um prognóstico reservado

Traçar cenários de futuro representa uma ousadia tão imprudente como necessária. Neste jogo de xadrez em que dois mestres – Putin e Trump – movem as peças próprias e aliadas, sob o aparente desinteresse de Xi Jinping, é possível que apenas os peões e, ocasionalmente, algum cavalo ou torre sejam sacrificados.

Dito de uma forma mais direta: a retaliação aliada não irá desencadear um conflito à escala mundial, embora se venha a verificar uma deterioração no relacionamento entre os EUA e a Rússia. Só que o mundo já não pertence por inteiro à casa no alto da colina e à potência que cobriu o Leste da Europa com uma cortina de ferro. O pragmatismo chinês soube criar a oportunidade. Ao contrário de outras áreas do globo.

Seguro é que a derrota do EI na Síria não representará o fim daquela que Rapoport designa como a quarta vaga de terrorismo global. O terrorismo religioso muda de cenário, altera a configuração dos grupos, assume novas estratégias, mas permanecerá enquanto houver regimes onde o Estado e a religião se confundem.

Uma palavra final para a ONU. Durante décadas, a ordem dos pactos – NATO e Varsóvia – encarregou-se de manter o legado humanista – cada país um voto – na Assembleia-Geral e o legado maquiavélico – o direito de veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.

O ataque liderado pelos EUA contra o Iraque de Saddam Hussein, assente no pressuposto, que se revelaria falso, da existência de armas de destruição maciça, encarregou-se de provar que o modelo onusiano estava esgotado. Já não conseguia cumprir o que está estipulado na Carta.

Na Síria, só a luta contra o EI obedeceu ao imperativo do bem comum. Deixar de contar os mortos e pedir contenção não chega.

A Casa Comum da Humanidade necessita de obras profundas e urgentes. Só que não vai ser fácil à Diplomacia convencer três dos senhorios.




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