Há estudos científicos que, estatisticamente, confirmam que as pessoas de natureza gentil e bondosa são mais vulneráveis e atreitas às doenças oncológicas.

Esta semana, excepcionalmente, tenho de escrever sobre e para uma pessoa, o meu amigo Vasco. Amigos desde crianças, vizinhos de bairro, companheiros de liceu, parceiros de muitas aventuras, mais tarde, já adultos, compadres pelos nosso filhos primogénitos. Somos daquele tempo em que no pátio do ainda Liceu Normal Pedro Nunes, putos de 14 anos, depois de uma boa futebolada, uma série de RGAs e as habituais sessões de pedrada entre os MRPPs e os betos do CDS, aproveitavam as inúmeras faltas dos professores para discutir fervorosamente política nacional, internacional, filosofia e religião, Lobsang Rampa e o terceiro olho, Pink Floyd e os Yes, o triângulo das Bermudas e os misteriosos desenhos no planalto de Nazca…

Os nosso caminhos divergiram profissionalmente. Enquanto eu seguia meio perdido para engenharia, o meu amigo Vasco, excelente aluno e com nota para entrar em Medicina, ja na altura o curso mais ambicionado, avançou decididamente para Biologia, a sua paixão desde que em criança montou em casa um gigantesco e fabuloso aquário repleto de peixes exóticos.

Na maturidade das nossa vidas, o Vasco já casado e com três filhos por criar, foi surpreendido por um linfoma não Hodgkin. Entregou-se à luta pela vida com a coragem do bravo do pelotão, confiando nos médicos e na ciência, sempre com a sua inabalável Fé em Deus. Depois de um ano de luta e tortura, digna de um campo de concentração, o Vasco venceu o mal e regressou ao mundo. Passaram-se, entretanto, dez anos, uma década repleta de vida, alegrias e tristezas e, de repente, sem avisar e pela calada da noite o mal regressou e atirou o Vasco de volta ao hospital, agora com uma leucemia.

Os leitores não conhecem o Vasco, mas deixem-me explicar-vos que se trata de um ser humano invulgar, porque isento de maldade no coração, nunca o vi pensar mal ou prejudicar quem quer que fosse. A sua posição no mundo sempre foi servir e partilhar, a que devemos somar uma alegria natural, gigante e contagiante. Tudo isto para chegar ao ponto em que nos perguntamos porquê? Porquê o Vasco ? Porquê outra vez ? Nada faz sentido. No nosso grupo íntimo de amigos, o Rui, na sua qualidade de psiquiatra, comentava-nos que existem estudos científicos que, estatisticamente, confirmam que as pessoas de natureza gentil e bondosa são mais vulneráveis e atreitas às doenças oncológicas do que aqueles outros que, diariamente, como predadores, se alimentam do mal que provocam… tanto velhaco e bandido por aí à solta sem justiça terrena nem divina, triste ironia!

Alicerces  da nossa amizade, para além dos livros e da música, o gosto pelos filmes era um quotidiano das nossas vidas, desde o famoso Jardim Cinema com as suas cadeiras de palhinha até ao Quarteto, sem esquecer o Monumental! Um dos nossos filmes predilectos chama-se “Forrest Gump”, um débil mental interpretado magistralmente pelo Tom Hanks, numa espécie de analogia da vida, talvez a procura da felicidade pelo caminho da simplicidade. Uma das cenas mais marcantes mostra-nos um Forrest, já na maturidade da idade, que escutando uma voz interior, começa uma corrida de lés a lés pelos EUA, do Atlântico ao Pacífico e vice-versa, sem nunca parar e sem nunca poder explicar porque corre, para onde corre. Para nós, meu amigo Vasco, em que o passado já é bem maior que o futuro, simplesmente deixou de fazer sentido perguntar porque carga de água é que corremos… simplesmente, temos de continuar a correr.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.



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