Riscos Trump e Putin ameaçam mercado petrolífero, apesar de cortes na produção

Os países da OPEP continuam a cortar na produção, mas poderá não ser suficiente. O petróleo de xisto nos EUA e uma inversão da posição da Rússia são as principais ameaças, numa altura em que a instabilidade política está a suportar o aumento dos preços.

A produção de petróleo pelo conjunto da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) caiu em 152,7 mil barris por dia, em março, em linha com o acordo feito pelo cartel, segundo o relatório divulgado esta quarta-feira. No entanto, mantém-se a dúvida sobre se será suficiente para aumentar os preços da matéria-prima, sendo que é praticamente certo que a OPEP prolongue o acordo já em maio.

Os membros da OPEP cortaram a produção para 31,93 mil milhões por dia com os Emirados Árabes Unidos, a Venezuela e a Líbia a contribuírem de forma mais significativa. No entanto, o maior produtor do cartel, a Arábia Saudita, voltou a aumentar a produção mensal em 42 mil barris diários, um valor abaixo da cota de produção. A Argélia, o Gabão e o Qatar seguiram o exemplo e também produziram mais em março.

Desde o anúncio do corte de produção, acordado entre a OPEP e outros países produtores de fora do cartel, a 30 de novembro, os preços do petróleo já escalaram cerca de 20%. No entanto, a tentativa de estabilizar a oferta e aumentar gradualmente os preços está a ser influenciada por outros fatores e a ficar aquém do objetivo.

“Os membros da OPEP vão reunir-se a 25 de maio e espera-se a manutenção do atual acordo por mais seis meses”, afirma o gestor de ativos da Orey iTrade, José Lagarto. “As notícias em torno desta reunião, tal como sucedeu em finais de novembro, poderão levar a um aumento na volatilidade no preço”. A extensão do acordo já foi apoiada por vários países, incluindo a Arábia Saudita.

Rússia e EUA ameaçam prolongamento

Um dos travões ao ajustamento da oferta vem dos EUA, onde a política energética de Donald Trump incentiva a exploração do petróleo de xisto. “A subida registada nos preços do petróleo devolveu viabilidade económica a algumas explorações de petróleo de xisto entretanto abandonadas nos EUA, o que acaba por elevar novamente a oferta do produto norte-americano, o que pressiona os preços do crude”, explica Lagarto.

A posição da Rússia também gera dúvidas. O país acordou, e tem cumprido um corte na produção. Em março, o país liderado por Vladimir Putin reduziu a produção em 60 mil barris por dia, abaixo do acordado, no entanto a OPEP prevê um aumento da produção da Rússia, face à anterior previsão de contracção.

A geopolítica, que tem influenciado os mercados nas últimas semanas, está também a enviesar o resultado real do corte de produção. A instabilidade política e as relações difíceis entre os EUA e a Rússia, a Coreia da Norte e a Síria estão a resultar num aumento dos preços. Esta semana, o preço do crude WTI ultrapassou a barreira dos 53 dólares por barril, enquanto o Brent passou os 56 dólares.

Segundo o gestor de ativos, “o preço do petróleo nos próximos dias poderá continuar a estar suportado principalmente por acontecimentos geoestratégicos e pela expectativa de disrupções que possam eventualmente existir na oferta do produto, nomeadamente, no Estreito Ormuz e/ou de um aumento da procura em caso de alguma escalada beligerante”.

O relatório da OPEP aponta para uma revisão em baixa da procura mundial em seis mil barris para uma média diária de 32,2 milhões de barris, o que poderá ajudar ao ajustamento este ano. “Sem nenhum novo acontecimento inesperado, o preço do petróleo poderá continuar contido dentro do intervalo registado durante este ano”, refere Lagarto.





Mais notícias