Relatório anual da CMVM diz que EDP, EDPR, Galp e Jerónimo Martins foram as mais recomendadas pelos analistas

A CMVM diz que o impacto das recomendações de investimento na formação de preços faz com que, em termos agregados, as recomendações de compra tenham menor impacto do que as de venda. Esse impacto varia de acordo com o intermediário financeiro que emite a recomendação e com o título alvo de recomendação de investimento.

Cristina Bernardo

Já saiu o Relatório Anual da Atividade de Supervisão da Análise Financeira da CMVM de 2016 . Nele a CMVM diz que realiza a monitorização constante das recomendações de investimento emitidas pelos intermediários financeiros, “com especial enfoque na qualidade técnica dos conteúdos, no risco de instrumentalização de recomendações de investimento e na existência de potenciais conflitos de interesses”. Uma parte do relatório incide sobre a atividade de elaboração e divulgação de recomendações de investimento.

Os resultados indicam que alguns intermediários financeiros ainda não respeitam na íntegra aquelas recomendações. Foram analisadas 211 notícias relacionadas com os relatórios de análise financeira, tendo-se concluído que, em matéria de adoção das recomendações dirigidas a jornalistas, a maioria das recomendações avaliadas registaram um rácio de cumprimento superior a 50%, em linha com anos anteriores. Quanto às recomendações direcionadas às entidades emitentes, apenas quatro (oito no ano anterior) sociedades admitidas à negociação da Euronext Lisbon adotam as cinco recomendações da CMVM analisadas no relatório.

A CMVM conclui ainda no seu relatório de supervisão de 2016 que a atividade de análise financeira tem vindo a ter um papel mais reduzido no mercado de capitais português, “visível quer na diminuição de recomendações, quer no número de títulos cobertos”. Este ano foram identificados 482 relatórios de research, o que corresponde a uma diminuição de 21,8% face ao período homólogo, conclui a CMVM no relatório de supervisão relativo a 2016.

“A CMVM tem desenvolvido a supervisão desta atividade em três vertentes distintas: análise formal, análise sumária e análise aprofundada”. Sendo que “a primeira visa aferir a conformidade da atividade de análise financeira com a regulamentação em vigor, nomeadamente a informação obrigatória a publicar nos relatórios de análise financeira”. Já a análise sumária “avalia o conteúdo das recomendações de investimento, nomeadamente no que se refere ao modelo de avaliação utilizado e aos pressupostos subjacentes, de modo a conferir a sua coerência com o preço-alvo apresentado”, explica o regulador.

“Na análise aprofundada investiga-se com maior detalhe o contexto em que foi emitida a recomendação de investimento, solicitando-se, sempre que necessário, elementos adicionais e esclarecimentos aos intermediários financeiros de modo a validar o conteúdo e o sentido das recomendações de investimento”, acrescenta a CMVM.

Na esteira de anos anteriores, os analistas financeiros privilegiaram as recomendações de compra. Cerca de 49,9% dos relatórios apresentaram essa menção (48,0% no período homólogo). Também ao nível da alteração do teor das recomendações foram escassas as situações em que duas recomendações sucessivas do mesmo analista sobre o mesmo emitente eram de sinal contrário, não havendo mesmo qualquer caso de uma recomendação de venda sobre um título a ser sucedida por uma de compra.

Os 36 intermediários financeiros que produziram relatórios de análise financeira sobre empresas admitidas à negociação na Euronext Lisbon circunscreveram as suas recomendações de investimento a 23 emitentes (menos dois – Luz Saúde e Sonae Indústria – que no período homólogo anterior). Desse universo, a EDP, a EDP Renováveis, a Galp Energia e a Jerónimo Martins foram as empresas que mereceram maior atenção das casas de investimento (em conjunto, 48,8% do total de recomendações identificadas).

Relativamente ao impacto das recomendações de investimento na formação de preços verifica-se que em termos agregados as recomendações de compra têm menor impacto do que as de venda. Esse impacto varia de acordo com o intermediário financeiro que emite a recomendação e com o título alvo de recomendação de investimento.

Foi ainda simulado o desempenho a médio prazo de carteiras cuja composição assenta nas recomendações de investimento dos analistas financeiros. “Essa simulação foi iniciada com uma carteira que replicava a composição do índice PSI20 em 1 de outubro de 2015 e que tinha um valor inicial de 100.000 euros. Os pesos dos títulos dessa carteira são aumentados ou diminuídos consoante o sentido das recomendações emitidas. Os resultados indicam que, em 30 de setembro de 2016, todos os intermediários financeiros tinham um desempenho superior ao desempenho do índice PSI20 do ano anterior.

Foram igualmente analisados os preços-alvo emitidos pelos analistas financeiros. Os preços-alvo permitem definir o “potencial de valorização” e a “variação do preço-alvo” do título (face ao preço-alvo anterior emitido pelo mesmo analista). “Cerca de 10% dos preços-alvo apresentavam um potencial de valorização negativo [desvalorização] e mais de 40% dos preços-alvo emitidos refletiam uma variação negativa face ao último preço-alvo”, diz a CMVM.

No que respeita aos desvios entre os preços-alvo e os preços de mercado verificados no fim do horizonte temporal a que esses preço-alvo respeitavam, conclui-se que cerca de três em cada dez projeções de preço-alvo foram atingidas ou superadas (uma percentagem ligeiramente inferior à verificada no ano transato).

Foi nas recomendações de vender e de manter que o preço-alvo foi mais atingido, em particular nas recomendações de vender com horizonte temporal para o final de 2016.

Os analistas voltaram a ter menor grau de acerto no alcance dos preços-alvo das ações que integram o PSI20, situação que foi fundamentalmente motivada pela maior precisão nas recomendações de comprar relativas a empresas que não integram o índice. Em termos setoriais, e contrariamente ao ocorrido no período homólogo, foi nas empresas de outros setores que não o financeiro ou de utilities que os analistas denotaram menor acerto nas suas previsões.

Ao nível dos drivers que são utilizados para fundamentar as avaliações dos analistas financeiros “continuaram a observar-se divergências significativas, particularmente no caso da rentabilidade do ativo sem risco”, considera a CMVM. “Tal como em anos anteriores calculou-se o valor atual das oportunidades de crescimento implícito nos relatórios de análise financeira, tendo-se concluído que esse valor é positivo para todas as empresas, exceto para uma do setor financeiro”, conclui o regulador.

 





Mais notícias