Redes sociais, enredos políticos

A tecnologia nunca foi neutra, mas o facto de ter passado a ser universalmente acessível levanta questões há pouco impensáveis, como a proliferação de movimentos populistas de base digital.

A maior parte das opiniões sobre o contributo das redes sociais para a participação política têm sido historicamente favoráveis, dada a possibilidade de intervenção direta e de desintermediação partidária. Nos processos eleitorais mais recentes e, particularmente na eleição do presidente Trump, passámos todos a comprovar a capacidade de manipulação que é possível atingir através da difusão instantânea e permanente de mensagens simplistas e tendenciosas que, em muitos casos, servem para acomodar mentiras plausíveis. Mas só na recente crise política da Catalunha me apercebi plenamente da capacidade destas plataformas para mudar mentalidades e mobilizar pessoas muito próximas que, no passado, nunca teria pensado que acabariam por adotar posições tão extremas.

É inegável que as redes sociais são úteis em muitos âmbitos da nossa atividade, mas parece-me também evidente que certas características destes meios podem pôr em risco aspetos fundamentais do nosso sistema político, como a confiança, o diálogo, o realismo e a participação. A superficialidade, universalidade e instantaneidade das redes sociais servem para exacerbar diferenças, polarizar a audiência e fomentar o “hiper-partidarismo” em relação a temas objetivamente complexos e com enorme carga emocional. No caso da Catalunha, tenho sido testemunha direta do impacto determinante das redes sociais na amplificação de sentimentos históricos em ações e condutas impensáveis sem esta disponibilidade tecnológica.

A tecnologia nunca foi neutra, mas o facto de ter passado a ser universalmente acessível levanta questões há pouco impensáveis, como a proliferação de movimentos populistas de base digital que se transformam rapidamente em hegemónicos; a descredibilização das imagens, hoje facilmente manipuláveis, como provas de veracidade e a substituição pelo vídeo; ou a necessidade da Alphabet (empresa mãe da Google) de criar aceleradamente comités de ética para pôr limites às atividades facilitadas pelas suas plataformas. É fácil imaginar a potenciação destas situações quando, como a YouTube antecipa, cada objeto dispuser de um écran.

Toda a tecnologia chega a nós com o yin e o yang incorporados. A Internet, onde a mentira coabita com igualdade de crédito que a verdade, acumula misérias informativas e cria falsas realidades. E, por isso, no futuro, ou ainda mais cedo, o improvável passará a ser habitual e poderá pôr em risco o nosso modelo social.




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