Projetos megalómanos: das 20 estações de Cristas às 38 de Costa

José Sócrates prometeu construir novo aeroporto, terceira ponte sobre o rio Tejo e três linhas de TGV, menos de dois anos antes do pedido de assistência financeira. Durão Barroso planeou cinco linhas de TGV quando o país estava “de tanga”. Na versão de autarca de Lisboa, António Costa defendeu um projeto para o Metro ainda mais ambicioso do que o apresentado agora pela líder do CDS-PP. Para os políticos em campanha eleitoral, por vezes nem o céu é o limite.

Rafael Marchante/Reuters

“Ou há rasgo, horizonte e ambição para o Metro de Lisboa, ou os problemas da área metropolitana não se vão resolver”, declarou Assunção Cristas, a 10 de maio, em plena Assembleia da República. “A nossa proposta são 20 novas estações para o Metro de Lisboa e espero que possam ser estudadas, planeadas, financiadas e tratadas”, anunciou a líder do CDS-PP e candidata à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. O contexto era o debate quinzenal com o primeiro-ministro António Costa, até então focado em questões de âmbito nacional como a taxa de desemprego ou a dívida pública. Daí as expressões de surpresa e o burburinho generalizado no hemiciclo.

Nada que demovesse Cristas de empunhar um cartaz com o desenho da sua proposta de alargamento da rede do Metro de Lisboa que prevê a construção de 20 novas estações (Sacavém, Loures, Frielas, Santo António dos Cavaleiros, Benfica, Campo de Ourique, Campolide, Alvito, Prazeres, Alcântara, Santo Amaro, Ajuda, Belém, Algés, etc.) até 2030. “É ambicioso mas é realista, haja vontade”, sublinhou Cristas, escusando-se a indicar quanto custaria tamanha empreitada.

Poucos dias antes, o Governo tinha apresentado um plano mais modesto, com apenas duas novas estações (Santos e Estrela) até 2022 e orçamentado em 684 milhões de euros. Ao que acrescem outras duas estações (Amoreiras e Campo de Ourique) em fase de estudo, aguardando por uma decisão política. “Insuficiente”, aponta Cristas. De acordo com vários especialistas em obras públicas contactados pelo “Jornal Económico”, o projeto alternativo de Cristas representaria um encargo superior a 3,5 mil milhões de euros.

 

“É ambicioso mas é realista, haja vontade”, sublinhou Cristas.

 

“Não achei muito leal aproveitar a ausência da deputada Teresa Leal Coelho [candidata do PSD à presidência da Câmara Municipal de Lisboa] para este momento de campanha eleitoral,“ ironizou Costa, na resposta a Cristas. E lembrou que os transportes urbanos de Lisboa perderam 100 milhões de passageiros durante a vigência do Governo PSD/CDS-PP (do qual Cristas fez parte integrante), por causa da “deterioração” do serviço. “100 milhões é o número de passageiros que o Metro e a Carris perderam na cidade de Lisboa enquanto foi ministra. E como bem se recorda não era só ministra da Agricultura e do Mar, em grande parte do seu mandato foi também ministra das Cidades,“ frisou.

A proposta de Cristas é uma adaptação comedida do plano de expansão do Metro de Lisboa apresentado pelo Governo de José Sócrates em 2009, na véspera da realização de eleições legislativas e autárquicas. O plano de Sócrates contemplava 30 novas estações até 2020, estimando-se um custo total de 2,5 mil milhões de euros. Apenas quatro das estações propostas agora por Cristas (Santo Amaro, Ajuda, Belém e Algés) não estavam já incluídas no plano original de Sócrates. Importa salientar que Sócrates foi reeleito em 2009 (embora tendo perdido a maioria absoluta), mas acabou por não cumprir essa promessa (a par de outras grandes obras públicas inscritas no respetivo programa eleitoral). Cerca de oito anos mais tarde, a rede do Metro de Lisboa permanece igual. Novas estações? Zero.

Ferrari contra Metro
Um dos mais entusiastas apoiantes do plano de Sócrates foi António Costa, então nas funções de presidente da Câmara Municipal de Lisboa e prestes a disputar eleições autárquicas (seria reeleito, com maioria absoluta). Na mesma semana em que o Governo de Sócrates apresentou o plano de expansão do Metro de Lisboa com 30 novas estações, a Câmara Municipal de Lisboa deu um parecer favorável ao projeto e reivindicou uma linha adicional de metro ligeiro de superfície com mais oito estações, para servir uma área não definida (ainda em fase de estudo) entre a Alta de Lisboa, Ameixoeira, São Francisco de Assis e Quinta das Mouras. Ou seja, a proposta de alargamento de Costa previa a construção de 38 novas estações, quase o dobro em relação ao projeto hodierno de Cristas.

“Vou organizar uma corrida entre um Ferrari e o Metro, para entendermos que o grande meio de transporte na cidade é o Metro e não o carro”, afirmou Costa, a 2 de setembro de 2009, na reunião pública do executivo municipal lisboeta em que se debateu o parecer favorável ao plano de expansão de Sócrates. Recorde-se que, em 1993, quando se candidatou à presidência da Câmara Municipal de Loures, Costa promoveu uma corrida entre um Ferrari e um burro (de Lisboa a Loures), durante a campanha eleitoral, reivindicando o alargamento do Metro de Lisboa até ao concelho de Loures.

Chegado a 2017, já no cargo de primeiro-ministro, Costa planeia apenas duas novas estações (e outras duas em estudo), muito distantes de Loures que continua a não ter acesso à rede do Metro.

Programa “keynesiano”
A expansão do Metro de Lisboa era apenas um dos trunfos eleitorais de Sócrates em 2009, integrado num vasto programa “keynesiano” de investimento em obras públicas. A caminho da reeleição como primeiro-ministro, Sócrates prometia construir o novo Aeroporto de Lisboa no Campo de Tiro de Alcochete, iniciar a exploração e promover o desenvolvimento da atividade do Aeroporto de Beja, concretizar a Rede Ferroviária de Alta Velocidade (vulgo TGV) com três linhas (Porto-Vigo e Lisboa-Madrid até 2013 e Lisboa-Porto até 2015) e, entre outros projetos, erguer a Terceira Travessia do Tejo, no eixo Chelas-Barreiro, permitindo uma ligação ferroviária Norte-Sul para mercadorias e longo curso de passageiros e o fecho do anel ferroviário da Área Metropolitana de Lisboa.

Mas acabou quase tudo na gaveta dos “inconseguimentos” políticos. Em maio de 2010, cerca de oito meses após ter sido reeleito, Sócrates anunciou os primeiros cortes, inscritos no denominado PEC 1 (Programa de Estabilidade e Crescimento). O novo aeroporto e a terceira ponte foram adiados. Cerca de um ano depois seria a vez do projeto do TGV, anulado pelo Governo PSD/CDS-PP na sequência da recusa de visto prévio do Tribunal de Contas para a construção do primeiro troço da linha Lisboa-Madrid, entre Caia e Poceirão. O Estado português foi entretanto condenado (por um tribunal arbitral) a pagar uma indemnização de 150 milhões de euros ao consórcio Elos que tinha ganho a adjudicação dessa obra pública.

“Portugal de tanga”
“Os senhores [do PS] deixaram Portugal de tanga”, acusou o primeiro-ministro Durão Barroso, em abril de 2002, culpando o anterior Governo do PS (liderado por António Guterres) pelo desequilíbrio das contas públicas. Contudo, em novembro de 2003, no âmbito da cimeira luso-espanhola que se realizou na Figueira da Foz, o Governo de Barroso comprometeu-se com um projeto de construção de quatro linhas de TGV: Lisboa-Madrid e Porto-Vigo até 2010, Lisboa-Porto até 2013 e Aveiro-Salamanca até 2015 (estava ainda programada uma quinta linha, Faro-Huelva, ainda em fase de estudo). Tratava-se de um investimento de nove mil milhões de euros. Nunca chegou a avançar.

Por sua vez, Pedro Santana Lopes conquistou a presidência da Câmara Municipal de Lisboa, no final de 2001, com um ambicioso projeto de reabilitação do Parque Mayer (da autoria do arquiteto norte-americano Frank Gehry) que envolvia a deslocalização da Feira Popular e a instalação de um novo Casino na zona ribeirinha. Tantos anos depois, esse processo ainda não está concluído, por entre diversos imbróglios jurídicos, indemnizações a privados e suspeitas de ilegalidades.



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