Produtores e cooperativa de artistas criam bolsa de emprego

Dotada de 90 mil eurs, a bolsa destina-se a incentivar a contratação no cinema e na televisão de atores seniores em situação de precariedade. Arranca em janeiro 2018.

Cristina Bernardo

É ator profissional. Tem mais de 65 anos de idade. Aufere um rendimento mensal inferior a 1,5 salários mínimos ou, em contrapartida, não recebeu qualquer rendimento do cinema ou da televisão nos últimos 12 meses. Se reúne três destas condições, poderá voltar a ouvir o som da claquete ou ver de novo o pano a subir.

À medida que envelhecem, muitos atores deixam de ter trabalho. “Queremos responder ao envelhecimento ativo e garantir condições de trabalho e financeiras que assegurem a sobrevivência dos atores”, explica ao Jornal Económico Mário Carneiro, diretor-geral da Fundação GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas), cooperativa sem fins lucrativos, criada por e para os artistas – intérpretes ou executantes, onde se incluem atores, bailarinos e músicos, que, em conjunto, com a GEDIPE – Associação para a Gestão Coletiva de Direitos de Autor e de Produtores Cinematográficos e Audiovisuais, que representa os produtores cinematográficos, videográficos e televisivos portugueses, vai lançar um programa de Bolsas de Integração Profissional para Artistas Seniores no Setor Audiovisual.

Pretende-se com estas bolsas complementar rendimentos de artistas que estão na precariedade ou que não tiveram rendimentos na sua área profissional. É também uma forma de trazer para a ribalta atores e atrizes que, muitas vezes, ficaram esquecidos no tempo. “Queremos contribuir para que os produtores e os realizadores portugueses possam incluir mais artistas seniores nas suas obras”, sublinha.

Apesar do crescimento da produção nacional, que, nos últimos anos, sobretudo na televisão, fez disparar o número de oportunidades para os artistas, a realidade do setor está longe de ser homogénea. “Há muitos atores que têm uma carreira muito ativa, pública, reconhecida e que a partir de uma determinada idade começam a ser menos convidados, menos chamados para trabalhos…”, realça Mário Carneiro. A esta realidade acresce um outro aspeto: “Poucos são os artistas que tiveram uma carreira contributiva plena, poucos descontaram ao longo da vida para ter uma reforma digna… muitas vezes não tiveram a possibilidade ou a capacidade de irem descontando”.

Não há muitas semanas, Portugal ficou a conhecer mais um destes casos. O popular ator Carlos Areia confessou a Daniel Oliveira, no programa da SIC Alta Definição, viver “com 342 euros por mês… o complemento solidário para idosos. Sorte a minha ter uma família que me apoia”. O veterano artista, de 73 anos de idade, foi mais longe ao pôr a nu o que alguns tentam tapar com a peneira. “Eu podia pintar aqui um cenário muito bonito, mas esta é uma realidade e eu vou esconder o quê…?!”

Na prática, a bolsa representa um benefício para os atores, mas também para as empresas produtoras de audiovisual que os contratem. A bolsa financia até 70% do montante da remuneração proposta até ao valor máximo de 3 mil euros. Por outras palavras, para as empresas contratantes isto poderá significar até 70% de poupança dos custos com os honorários dos contratados. De referir também que a bolsa financiará no máximo 9 mil euros por projeto.

As candidaturas são efetuadas nos sites das duas instituições promotoras, numa área reservada para o efeito. Todo o processo será online, iniciando-se com o fornecimento dos dados pessoais, contactos e o resumo da atividade profissional para que a Comissão de Acompanhamento e Análise do Programa possa avaliar e validar a inscrição definitiva de cada ator.

Candidatar-se obriga ao cumprimento de um determinado número de requisitos, tanto para os candidatos a um emprego como para as empresas que os possam vir a contratar. Mário Carneiro diz que todas as regras morais da gestão serão seguidas, existindo a preocupação expressa de contribuir para a regulação das relações entre empregador e empregado. É, por exemplo, “obrigatório, para receber o apoio, que os produtores façam um contrato com o ator”, avança.

O programa de Bolsas de Integração Profissional para Artistas Seniores no Setor Audiovisual arranca no primeiro dia útil do novo ano: 2 de janeiro de 2018 e dispõe de uma dotação orçamental de 90 mil euros, saídos em partes iguais dos cofres da GDA e da GEDIPE.

Mário Carneiro estima que ao fim de três meses de estar operacional, o programa possa ter já uma base de dados “interessante” para ser consultada pelas partes. A grande prova de fogo será o final do primeiro ano. Nessa altura, todo o programa será avaliado para se aferir da sua aceitação, tanto da parte dos artistas com dos produtores. “Vamos perceber se se revela efetivamente um verdadeiro benefício, se há suficientes artistas e se os produtores recorrem e aproveitam a plataforma para os contratar”, avança Mário Carneiro. O futuro dependerá, assim, dos resultados que apresentar.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.




Mais notícias
PUB
PUB
PUB