Portugal, um país indesejado por refugiados

Boas intenções por si só não bastam e ainda temos muito a aprender com outros países acostumados a lidar com comunidades étnicas de grande dimensão.

Em maio deste ano, o Governo partilhou uma avaliação “muito positiva” do seu programa de acolhimento de refugiados revelando no entanto que, até àquela data, dos 1306 refugiados recebidos em Portugal, 505 abandonaram o programa rumo a outros países. Como explicar que cerca de 40% dos que chegaram à nossa costa decidiram partir de novo? Assumo que possa causar perplexidade o facto de Portugal ser indesejado como país de destino, mas há razões que importa clarificar. Razões essas que o portal de notícias do Médio Oriente, Middle East Eye, divulgou na semana passada numa reportagem sobre refugiados a viverem em Portugal, clarificadora a todos os níveis.

Embora ninguém ponha em causa a solidariedade exemplar de Portugal prestada durante a crise dos refugiados – palavras famosas as de António Costa quando anunciou que Portugal poderia acolher até dez mil refugiados —, o artigo aponta para o reduzido número de comunidades étnicas em Portugal oriundas de países de língua árabe, em comparação com países como Alemanha, França ou a Inglaterra. A vida de um refugiado é muito solitária e para estes é importante reconectar laços familiares e de amizade que possam ajudá-los a enfrentar os desafios num país em que desconhecem a língua e a cultura.

Além disso, a gestão ineficiente e morosa por parte dos serviços públicos de acolhimento, em particular o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (a sua morosidade é lendária desde que me lembro de chegar a este país nos anos 80), pouco tem contribuído para reconhecer as qualificações dos refugiados e dar-lhes autorização de residência de modo a incentivar a sua permanência no país. O Estado está inteiramente dependente dos serviços de sociedade civil que providenciam uma resposta variada e descoordenada aos refugiados. É particularmente chocante o caso relatado no artigo sobre um casal, a viver em Marvila, forçado a deslocar-se a pé três horas por dia para ter aulas de português com um voluntário.

E, para finalizar, os refugiados são dispersos por meios rurais onde o choque cultural e o isolamento são ainda maiores, assim como as dificuldades em encontrar um emprego que não envolva o domínio da língua local.

Boas intenções por si só não bastam e ainda temos muito a aprender com outros países acostumados a lidar com comunidades étnicas de grande dimensão. Tem faltado vontade e empenho político de ir à raiz do problema e de providenciar um serviço mais eficaz a todos aqueles que abandonam os seus países de origem em condições extremas. E quando finalmente compreendermos o que motiva a debandada de refugiados, quero acreditar que tudo faremos para que a nossa solidariedade não seja apenas fogo de vista.



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