Steven Bell: “Portugal sofreu muito, mas está a emergir da crise de forma muito forte”

O economista-chefe da BMO Global Asset Manangement, Steven Bell, explica ao Jornal Económico que Portugal deverá beneficiar de novas subidas na notação, talvez até quatro aumentos nos próximos três anos. Quanto aos estímulos do BCE, diz que já produziram os efeitos necessários e é altura de normalizar a política monetária.

Cristina Bernardo

Numa conversa extensa, mas com tese clara, os elogios e o otimismo sobre Portugal surgem como parte de um discurso alargado sobre como a economia europeia ultrapassou um estado de emergência. Para Steven Bell, economista-chefe da BMO Global Asset Manangement (do grupo Bank of Montreal), as receitas do Banco Central Europeu (BCE) funcionaram de forma brilhante, mas já chegou o momento de deixar de tomar os remédios, pois o paciente já está curado.

“Portugal já teve uma subida na notação e vai ter mais. Nem tudo está perfeito, que fique claro, mas o estado de emergência quando a estrutura do prédio estava a desabar e que tornou necessário os estímulos monetários já desapareceu”, refere o economista.

“A Europa é a maior surpresa em termos de crescimento económico no mundo nesta altura, os PMI [Índices de Gestores de Compras, que medem a atividade económica] são os maiores no mundo, a procura interna está a recuperar e o desemprego está em queda rápida”, diz.

Steven Bell acredita que o BCE não deve prolongar o programa de compra de ativos além do prazo estipulado para setembro deste ano e também deixar de dar forward guidance, ou seja, indicações aos mercados sobre os próximos passos.

“Quando a economia estava a sofrer, quando Portugal estava a sofrer, quando a fraqueza dos indicadores económicos e a subida das yields tornaram a crise num círculo de destruição, essas coisas eram necessárias, mas já não são”, refere Bell.

Inundar o prédio

“Ben Bernanke [antigo presidente da Reserva Federal dos EUA] usou uma excelente metáfora: quando um prédio está a arder não se discute alterações ao código de emergência para incêndios, tenta-se apagar o fogo. Se estendermos a metáfora, neste momento as mangueiras ainda estão ativas no prédio, o incêndio já foi apagado e o que se está a fazer é simplesmente a inundar o edifício”, sublinha.

Em relação ao forward guidance, Bell explica que se já é difícil para os bancos centrais prever a política monetária para os três meses seguintes, tentar fazê-lo para o ano seguinte é impossível e irrealista. Adianta ainda que há um grupo de pessoas dentro do próprio Conselho de Governadores do BCE que considera que as medidas de estímulos foram um erro e que a descida das taxas de juro para terreno negativo distorce a economia.

Bell frisa, no entanto, que apoia as medidas tomadas pelo banco central liderado por Mario Draghi, pois permitiram a países como Portugal, Espanha ou Itália, emergir desse ‘circulo de destruição’.

“[Draghi] fez um trabalho fantástico, foram medidas brilhantes, e quem mais teria conseguido liderar uma política monetária para quase 20 países? Tem sido um autêntico herói. Mas neste momento já ficou sem argumentos para prolongar as medidas e o perigo agora é deixar a viragem para tarde demais e ter de fazer uma mudança abrupta”.

Portugal: três ou quatro subidas

Voltando ao caso de Portugal, Bell vinca que o país “sofreu muito, mas está a emergir da crise de forma forte”.

Em relação a eventuais novas subidas no rating, o economista relata os contactos que a BMO teve com uma das agências de notação. Essa agência usou um novo modelo criado pelo BCE para analisar e prever as alterações nos ratings e obteve um resultado interessante.

“O que eles fizeram foi olhar para o modelo, inseriram as suas estimativas e concluíram que Portugal  poderá beneficiar de três ou quatro subidas substanciais nas notações, de forma gradual até 2020”, explica Steven Bell.






Mais notícias