No século XIX, o país permaneceu pobre e escassamente industrializado, forçando milhares a seguir os passos dos seus antepassados, em busca de subsistência.

Nos últimos anos, as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas têm sido assinaladas em comunhão com os emigrantes e luso-descendentes espalhados pelo mundo. É de elementar justiça que assim seja, pois o dia lhes é também dedicado.

Porém, o aspeto festivo destas celebrações não nos deve fazer esquecer que a emigração portuguesa é uma história dramática com um final, as mais das vezes, feliz. Com efeito, Portugal foi sempre um país escasso e os seus naturais foram ao longo dos séculos forçados a procurar melhor vida fora de portas. A expansão foi a primeira válvula de escape, a que recorreram não apenas os desvalidos, mas também os filhos segundos de uma aristocracia que, tal como o país, era relativamente pobre, e que encontraram no além-mar a possibilidade de servir a Coroa ora nos feitos guerreiros, ora na administração ultramarina.

No século XIX, o país permaneceu pobre e escassamente industrializado, forçando milhares a seguir os passos dos seus antepassados, em busca de subsistência. O Brasil seria então o país de eleição para muitos portugueses e, mais uma vez, não apenas para os mais desafortunados, mas igualmente para as classes médias rurais que, evitando dividir a propriedade – habitualmente pequena – pela prole, o que empobreceria todos, mas também para evitar o recrutamento militar, pois a tropa tinha fama de escola de vícios, mandava os filhos mais novos para o lado de lá do Atlântico. Como referia Eça de Queiroz, a emigração, em Portugal, não era, “como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”. De facto, assim era, pois o problema português não era a população a mais, antes o país a menos.

Na centúria seguinte, o fenómeno da emigração acentua-se. A sangria de população foi imensa, e o destino procurado, desta feita, sobretudo na segunda metade do século, foi a Europa em reconstrução. A saída massiva não foi travada pelo Estado Novo por revelar-se útil para a estabilidade do regime, pois a emigração fora sempre um regulador social, na medida em que os portugueses, em face da miséria, preferiam sair pacificamente e a salto a permanecer, revoltando-se.

Com a democracia e a integração europeia, nasceu a expectativa de que, enfim, os benefícios do desenvolvimento chegariam para todos. Assim não foi infelizmente e a emigração continuou a ser um frequente recurso. A Europa, que se esperava trouxesse o bem estar geral, foi muitas vezes, para muitos, propiciadora, mercê da livre circulação de pessoas, de deslocação para outros países.

Eis porque o tom alegre e optimista dos discursos oficiais, habitualmente proferidos nesta ocasião, acompanhados de patuscadas e foguetório, por vezes soa a postiço. Tal é ainda mais evidente quando se celebram os portugueses que se destacam lá fora, apresentados como triunfos pátrios, numa espécie de apropriação nacional dos feitos de quem, para se tornar notável, teve que abandonar o país. De facto, a longa história da emigração é um somatório de sucessos individuais que resultam de um fracasso colectivo.

Homenageemos, pois, os portugueses e seus descendentes que vivem para lá das fronteiras nacionais, mas recordemo-nos sempre dos motivos, nada festivos, antes lamentáveis, que os forçaram a deixar Portugal.




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