PIB, desemprego e défice: por quanto falharam as previsões?

Ao longo do ano passado houve previsões económicas para todos os gostos. Os resultados finais ficaram abaixo ou acima do que se esperava? Tudo depende do termo de comparação.

O físico Nils Boh terá dito um dia, numa daquelas citações apócrifas nunca confirmadas, que fazer previsões é difícil – sobretudo para o futuro. Esta é uma dificuldade que os economistas conhecem bem. Por muito trabalho e rigor que se coloque na construção de cenários, no momento em que a previsão final vê a luz do dia há apenas uma certeza: o tiro vai sair mais ou menos ao lado.

Apesar desta limitação, as previsões são tão importantes quanto incontornáveis. E uma das funções que cumprem – mesmo que só indiretamente – é a de fornecerem um ponto de referência relativamente aos quais os resultados finais são comparados. Um crescimento económico de 3%? É muito, se a economia em causa for Portugal, onde ninguém espera nada acima dos 2%. Mas é pouco para a Irlanda, que se habituou a previsões de crescimento bem mais altas. Tudo é relativo: depende do termos de comparação.

Em economia, os termos de comparação para julgar a performance de um país costumam ser as previsões mais recentes: são as que estão mais frescas na memória e, também, as mais fáceis de consultar. Mas não há razão para perder o rasto às primeiras projeções. E, com os dados divulgados esta semana pelo INE, já é possível comparar o que aconteceu em 2016 com o que constava das previsões – não apenas as últimas, mas todas as que foram sendo publicadas desde o final de 2015.

1. Crescimento: um ano menos mau depois do susto inicial
Segundo o INE, o PIB cresceu 1,4% em 2016. É um resultado agridoce. Sabe bem se for comparado com o que eram as expectativas mais recentes, que apontavam para valores em torno dos 1,2 – 1,3%. Mas deixa um travo amargo na boca se for comparado com as primeiras previsões, elaboradas no final de 2015. Apesar de ninguém ter ‘comprado’ a previsão do Governo (1,8%), tanto a Comissão Europeia como o FMI ou Banco de Portugal estavam a contar com algo entre 1,5 e 1,7%.

A evolução das expectativas ao longo do ano acabou, de resto, por andar lado a lado com o comportamento do PIB ‘em tempo real’. Primeiro deu-se uma travagem brusca da actividade no primeiro semestre, a que todos reagiram com uma revisão em baixa das previsões. Mas a partir do segundo semestre a situação inverteu-se: a economia ganhou força e todos, ou quase todos, tiveram de ajustar os números para cima. No final, o PIB ficou algures entre os 1,5-1,7% que se esperava no início do ano, e os 1-1,3% eram a norma entre outubro e dezembro.

2. Desemprego: expectativas superadas
A história do mercado laboral é mais fácil de contar, embora também tenha tido os seus altos e baixos. Desde o início que todos esperavam um desemprego entre 1,3% (Governo) e 11,7% (Comissão Europeia e FMI), com a OCDE a arriscar uns pouco plausíveis 12,1%. Na altura em que estas previsões viam a luz do dia, o mercado de trabalho parecia estar a perder fulgor: há vários meses que o desemprego tinha deixado de cair, e ao mesmo tempo a actividade económica estava a abrandar, o que não augurava nada de bom. Porém, a taxa de desemprego acabou mesmo por descer, ficando o valor final nos 11,1%. Manteve-se assim a tendência dos últimos anos: forte descida do desemprego, mesmo sem correspondente expansão do PIB.

3. Contas públicas: a maior surpresa
Apesar de a Direção-Geral do Orçamento já ter fechado as contas de 2016, o INE ainda não as converteu na óptica contabilística relevante para Bruxelas. O que há, para já, é a garantia do ministro Mário Centeno de que o défice não ficará acima dos 2,1%. A confirmar-se esta indicação, esta seria a maior surpresa: no final de 2015, as previsões apontavam para um défice entre 2,7 e… 3,4% do PIB.

Porém, é preciso ter algum cuidado ao interpretar estas previsões. FMI e Comissão Europeia projectam valores com base em medidas orçamentais aprovadas ou em via de ser aprovadas. E, não havendo nessa altura um Orçamento do Estado aprovado, o pacote de consolidação que acabaria por ser legislado não podia ainda ser levado em conta. Tal como não era possível incorporar nas previsões algumas medidas one off com impacto substancial – como o programa de regularização de dívidas fiscais (PERES). Em retrospectiva, pode dizer-se que alguns dos alertas implícitos nas previsões do FMI e Comissão Europeia se materializaram: as receitas fiscais deverão ter ficado bem abaixo do esperado, devido à revisão do crescimento. Mas ambos terão também subestimado a capacidade do Governo se adaptar às circunstâncias e compensar os desvios na receita fiscal com cortes de despesa adicionais (investimento público, por exemplo).

Já os números da dívida pública (que não são apresentados no gráfico) deverão ficar nos 130% do PIB, acima do previsto no início do ano (125-128% do PIB). Como, se o défice vai ser inferior ao esperado? A explicação está na acumulação de depósitos por parte do Estado. O objectivo original era o Estado reduzir a sua almofada financeira, mantendo a estratégia dos anos anteriores, mas as ideias foram mudando ao longo do ano. E isso leva-nos ao quarto ponto.

4. Mercados financeiros: o elo mais fraco
Não é difícil imaginar porque é que a almofada financeira foi reforçada: a subida quase ininterrupta dos juros da dívida pública. Apesar de não haver uma previsão oficial para as yields das obrigações do Tesouro, parece claro que este foi um dos factores com que poucos contavam: se em Janeiro de 2016 as yields estavam em 2,71%, um ano depois tinham saltado para 3,95%. Ao longo desse período, os juros da Alemanha e do resto da periferia caíram, o que significa que o spread – o prémio de risco exigido pelos investidores para deterem dívida nacional – aumentou (cerca de 1,4 pontos percentuais face à Alemanha e 1,5 p.p. face à Espanha).

Tudo somado, que retrato fazer? O crescimento de 1,4% não enche o olho, mas não está longe da média histórica portuguesa. Pode surpreender pela negativa quem acreditou nos 2,4% prometidos no cenário macroeconómico de Mário Centeno, ou deixar estupefacto quem esperava que um Governo apoiado por BE e PCP seria o caminho mais rápido para a recessão. Mas os que estão algures entre estas duas posições extremas deviam ver o resultado de 2016 como o prolongar de uma tendência antiga economia portuguesa: crescimento positivo… mas baixo.

Mais inesperado é o valor do défice. Não tanto o resultado final – passar de 3% para 2,4% (sem medidas extraordinárias), num contexto de recuperação económica é normal –, mas sim a forma como o nível de despesa pública foi sendo ajustada às derrapagens na receita. Este jogo de cintura de um Governo apoiado pelos partidos mais à Esquerda, e que pode culminar com um défice de 2,1%, foi provavelmente a maior surpresa de 2016. Veremos se os valores servem para descansar os mercados e aliviar um pouco os custos de financiamento, que hoje são provavelmente o maior risco para a economia portuguesa.

[Notícia publicada na edição impressa de 16 de fevereiro]



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