Petróleo de xisto ganha lugar central nas contas da OPEP

A subida do preço do crude este ano tornou o petróleo de xisto nos EUA rentável, uma realidade que a OPEP já foi obrigada a incorporar. A geopolítica poderá, no entanto, trazer instabilidade ao mercado.

Jessica Rinaldi/Reuters

“Todos compreendemos que somos parte de um mercado petrolífero dinâmico, global e interligado, em que partilhamos desafios comuns e responsabilidades”, disse o secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Mohammad Sanusi Barkindo, na apresentação do Oil Market Outlook 2017, na terça-feira.

Um dos desafios do mercado petrolífero nos últimos meses tem sido o reavivar do petróleo de xisto, especialmente nos Estados Unidos. A exploração deste género da matéria-prima tem sido apontada ao longo do ano pelos analistas como um dos impedimentos para a redução do excedente entre oferta e procura no mercado.

A OPEP está a incorporar essa realidade e as novas estimativas da organização é que os Estados Unidos aumentem o petróleo que injetam no mercado até atingirem 3,8 milhões de barris por dia em 2022, o que representará 75% da produção dos países de fora do cartel. Grande parte dessa produção será de petróleo de xisto, que irá, segundo a OPEP, atingir um pico em 2025.

“O desenvolvimento tecnológico continuará a proporcionar uma exploração menos onerosa, permitindo que as explorações de petróleo de xisto sejam viáveis a preços cada vez mais baixos, o que levará a um aumento da oferta a nível mundial, não nos podemos esquecer que os EUA são o principal produtor mundial não OPEP”, explicou o head of research da Orey iTrade, José Lagarto.

No entanto, a organização vê exploração a cair a partir de 2025, não só nos EUA, mas também no Canadá, Rússia e Argentina.

A OPEP ajustou, assim, as estimativas de oferta a médio prazo. O cartel reviu em alta as projeções de produção dos países de fora da OPEP para 62 milhões de barris por dia em 2022, face aos 57 milhões em 2016. Os países da organização deverão manter a produção em 33 milhões de barris por dia até à duração do atual acordo de cortes firmado há doze meses. O valor poderá subir para 41,4 milhões em 2040, o que dará ao cartel um aumento da quota de mercado de 40% para 46%.

Há, no entanto, fatores de incerteza no mercado global, a começar pelos planos da própria organização. Em janeiro, os países da OPEP e 10 outros produtores fizeram o acordo histórico de cortes de produção para diminuir o excedente e causar uma subida gradual dos preços. Era suposto ter terminado em junho, mas foi prolongado até março do próximo ano.

No final do mês, a OPEP reúne-se e deverá prolongar os cortes, até porque vários países já sinalizaram apoio. “Tanto a Arábia Saudita como a Rússia, que tem estado ao lado da OPEP nos cortes de produção fixados pela organização, têm vindo a público suportar a continuação dos cortes de produção além do atual limite”, lembra Lagarto, que prevê que o acordo seja alargado até final de 2018.

A equipa de research do BiG – Banco de Investimento Global destaca a OPEP e a Rússia – terceiro maior produtor do mundo – como “os principais e mais influentes players no mercado”, acrescentando que “foi o acordo de corte de produção que permitiu um maior ajuste entre a procura e oferta de crude no mercado”.

Apesar disso, têm sido episódios geopolíticos a ter maior impacto nos preços, desde os testes nucleares da Coreia do Norte, às críticas dos EUA ao acordo nuclear com o Irão, passando pelo referendo no Curdistão iraquiano. O último foi a “purga real” na Arábia Saudita. Onze príncipes e dezenas de oficiais e empresários foram presos apenas horas depois de o rei Salman ter criado uma nova comissão anti-corrupção, liderada pelo Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman. O aeroporto privado de Riade foi fechado para impedir que jatos privatos fossem usados na fuga. O resultado foi um disparo dos preços esta segunda-feira, com o Brent a superar nos 64 dólares, o valor mais alto desde julho de 2015.

“As mudanças na estrutura e hierarquia da família real da Arábia Saudita (o maior produtor de crude), que podem originar mudanças na estratégia do país relativamente ao mercado do crude e a ocorrência de conflitos no Médio Oriente que tenham impacto na produção são os principais factores de risco a curto prazo”, refere a equipa de research do BiG.

Lagarto, da Orey iTrade, fala de uma situação de “instabilidade latente continuada” no Médio Oriente e Península Arábica, uma das principais áreas de produção de petróleo. “Qualquer conflito aberto nesta zona poderá levar mesmo a uma forte disrupção entre oferta e procura. A tensão crescente entre a Arábia Saudita e o Irão está também a gerar instabilidade geopolítica. O agudizar da atual situação irá dar ainda mais suporte ao atual aumento do preço do petróleo”, explicou. “Um eventual conflito nesta área poderá levar a uma disrupção no fornecimento de crude, o que poderá elevar fortemente o preço”.



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