Quem é André Ventura, o polémico candidato do PSD à Câmara Municipal de Loures

É doutorado em Direito Público e co-autor de um livro com a "taróloga" Maya. É professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e declara que as pessoas de etnia cigana "vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado" e "acham que estão acima das regras do Estado de Direito." As duas faces do candidato autárquico que José Pinto Coelho, líder do PNR, considera ser um dos "seus".

PSD Loures

André Ventura é licenciado em Direito pela Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, e doutorado em Direito Público pela University College Cork, na Irlanda. Atualmente é professor auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde aliás exerce as funções de subdiretor do mestrado em Direito e Segurança. Vários artigos científicos publicados. Fluente em inglês, espanhol, árabe, francês e hebraico. Entre outros pontos de destaque do respetivo currículo profissional.

O mesmo André Ventura é comentador televisivo, dedicado a temas de futebol, política e justiça. No que respeita ao futebol, assume a defesa do Sport Lisboa e Benfica (SLB), tendo sido um dos nomes apontados como destinatários de uma “cartilha” (as diretrizes da estratégia comunicacional do clube) proveniente da direção do SLB. Também publicou um livro intitulado “50 razões para mudar para o Sport Lisboa e Benfica” (Chiado Editora, 2016), em co-autoria com a “taróloga” Maya. E é o candidato do PSD e CDS-PP à presidência da Câmara Municipal de Loures, nas eleições autárquicas de 2017.

Foi nessa qualidade de candidato autárquico que Ventura deu uma entrevista ao jornal “i”, publicada ontem, na qual proferiu declarações controversas sobre as pessoas de etnia cigana que residem em Loures. Nomeadamente no excerto que passamos a transcrever: “Recentemente disse que somos demasiado ‘tolerantes com algumas minorias’. De que minorias falava? Vou-lhe ser muito direto: eu acho, e Loures tem sentido esse problema, que estamos aqui a falar particularmente da etnia cigana. É verdade que em Loures há mais, com uma multiculturalidade grande, mas em Portugal temos uma cultura com dois tipos de coisas preocupantes: uma é haver grupos que, em termos de composição de rendimento, vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado, outra é acharem que estão acima das regras do Estado de Direito.”

Poderia tratar-se de uma “gaffe” involuntária, mas Ventura já tinha dito praticamente a mesma coisa alguns dias antes, em entrevista à página “Notícias ao Minuto”. Atente no seguinte excerto: “A videovigilância vai resolver o problema dos bairros sociais? Não digo que vá resolver tudo, mas vai ajudar. Isto que vou dizer pode não ser muito popular, mas é a verdade: temos tido uma excessiva tolerância com alguns grupos e minorias étnicas. Não compreendo que haja pessoas à espera de reabilitação nas suas habitações, quando algumas famílias, por serem de etnia cigana, têm sempre a casa arranjada. Já para não falar que ocupam espaços ilegalmente e ninguém faz nada. Quem tem de trabalhar todos os dias para pagar as contas no final do mês olha para isto com enorme perplexidade. Isto não é racismo nem xenofobia, é resolver um problema que existe porque há minorias no nosso país que acham que estão acima da lei.”

Ou seja, esta é uma das mensagens centrais da campanha eleitoral de Ventura em Loures. Após a segunda entrevista, as críticas tornaram-se mais audíveis, incluindo alguns elementos do PSD e CDS-PP. Por seu lado, o candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Loures, Fabian Figueiredo, apresentou queixa de Ventura ao Ministério Público e à Ordem dos Advogados, por incitar ao ódio contra as pessoas de etnia cigana. Enquanto José Pinto Coelho, líder do Partido Nacional Renovador (PNR), de extrema-direita e assumidamente racista e xenófobo, aproveitou a oportunidade para ironizar: “Infelizmente, ao que parece, alguns dos ‘meus’ ainda andam pelos partidos do sistema.”

Acossado, Ventura emitiu um comunicado no final da tarde de ontem, garantindo que não é racista mas reiterando o que dissera nas entrevistas. “Ao longo da minha vida sempre convivi bem com pessoas de várias raças e etnias e diferentes credos. Quando digo que somos tolerantes com algumas minorias, refiro-me a certos casos em que manifestamente a lei não é cumprida. A verdadeira discriminação é permitir que alguns não cumpram a lei, em detrimento daqueles que vivem com as regras do Estado de Direito. Compreendo todas as especificidades, costumes e padrões civilizacionais de todas as raças, mas eles não podem esbarrar com os princípios do Estado de Direito constitucionalmente consagrados,” sustentou. E ao princípio da noite publicou a seguinte mensagem na sua página do Facebook: “Nunca me senti tão só. E tão apoiado por milhões!”

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