Pedrógão: a tragédia evitável

Das 411 ações de formação, que abrangeram 6.822 formandos, nem uma é referente à incorporação ou utilização das novas tecnologias na prevenção e deteção precoce de fogos florestais.

A dimensão da tragédia de Pedrógão Grande tem menos de imprevisível e mais de incompetência, nomeadamente na Gestão do Risco, a pedra basilar na prevenção e ataque a qualquer situação de risco. Para se poder discernir o que correu mal é fundamental analisar o documento que está na base da prevenção e combate aos incêndios florestais.

Refiro-me à Diretiva Operacional Nacional nº 2 – DECIF, Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais 2017, produzido pela Autoridade Nacional de Protecção Civil, organismo do Ministério da Administração Interna.

Resumidamente, o documento é uma prova de que a Gestão de Risco em Portugal, tal como demonstrado recentemente noutros sectores, como o financeiro, é feito com navegação à vista, reactiva, pouco preditiva, pouco flexível e com ferramentas desactualizadas. A começar pela rigidez de datas de maior alocação de meios, como se o tempo hoje respeitasse o calendário. Mas não só. Embora existam várias referências à monitorização permanente e à detecção precoce, não há uma única alusão à utilização das novas tecnologias para as atingir.

Das 411 acções de formação, que abrangeram 6.822 formandos, nem uma é referente à incorporação ou utilização das novas tecnologias na prevenção e detecção precoce. Que não fique qualquer tipo de dubiedade: os fogos florestais não são de todo imprevisíveis, nem tão-pouco a sua dimensão, e não é a existência de um documento arcaico e ineficiente que valida a aleatoriedade dos eventos.

A ciência de previsão dos fogos florestais é  hoje um tema consolidado e em constante melhoramento, nomeadamente na análise das condições do solo, que originam diferentes zonas de risco. Nos Estados Unidos é norma a utilização de novas tecnológicas, com vantagens inequívocas e custos irrisórios.

A base do sistema é simples: recolha massiva de dados, que são trabalhados em tempo real por modelos computacionais, progressivamente com recurso à inteligência artificial, para identificar com elevada fiabilidade as zonas de risco e o progresso dos fogos. Como o ROMAN (Realtime Observation Monitor and Analysis Network), suportado pelo U.S. Forest Service, que é utilizado por agências de todo o país com um custo de apenas 700.000 dólares nos últimos 12 anos.

Ou o FARSITE (Fire Area Simulator), criado pelo U.S. Department of Agriculture, com um custo anual de 50.000 dólares e que simula as condições de alastramento de um fogo através da inclusão de variáveis como o tempo, o vento e a quantidade de “combustível” existente na zona. Ou o FireFamilyPlus, o Santa Ana Wildfire Threat Index (SAWTI) e o WIFIRE. Outro instrumento de prevenção é o SMAP, um satélite lançado em 2015 pela NASA, que recolhe informações sobre as condições do solo que podem, ou não, propiciar condições favoráveis a um incêndio. Tudo ferramentas tecnológicas que têm feito uma diferença significativa na prevenção e combate dos fogos florestais nos EUA.

Mas, no caso concreto de Pedrógão, as novas tecnologias vão mais longe. Um vigia, quando detecta um fogo, retém uma quantidade muito limitada de informação e fica-se por aí a sua acção. Já um drone, que não tem grandes limites de operacionalidade, pode, ao vigiar constantemente uma área, detectar através de câmaras de infravermelhos, um foco de incêndio de forma mais atempada, tal como pode registar e dissuadir casos de fogo posto e transmitir em tempo real a situação do terreno, para que o comando central possa, por exemplo, definir melhor e mais rapidamente os meios a utilizar e onde.

Mais ainda, um conjunto de drones automatizados poderia perfeitamente incorporar sirenes de alarmes para aviso das populações rurais próximas do incêndio, ou através de luzes específicas, o aviso/fecho de estradas secundárias que possam colocar em risco os que por lá venham a passar, algo que os meios humanos demoram horas a executar.

O tempo não pode ser só de dor, mas sim de aprendizagem. Há que aproveitar os benefícios da inovação e, acima de tudo, é essencial, de uma vez por todas, tratar a gestão de risco com o respeito que ela merece, porque é dela que surgirá a quantificação das tragédias do futuro.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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