Paulo Macedo: “Ninguém peça à Caixa para ter balcões em zonas que nenhum banco quer”

Segunda-feira será o primeiro dia da vida da CGD. Começa a ser implementada a segunda-fase do Plano de Recapitalização, o Plano de Reestruturação e o Plano Estratégico. Veja tudo o que disse Paulo Macedo na conferência de imprensa.

Cristina Bernardo

O banco do Estado recebe 2,5 mil milhões de euros do Estado mas em troca tem de se tornar um banco rentável. A rentabilidade está inevitavelmente ligada ao corte de custos. Por isso o Plano Estratégico 2020 da CGD tem previsto reduzir em 25% o número de balcões.

Paulo Macedo questionado quanto facto de a CGD ter de assegurar a “função social” de ter balcões em zonas pouco lucrativas, uma vez que é um banco do Estado. Respondeu que “procurará mitigar e agir em localidades que não estejam servidas por outros bancos. Mas ninguém peça à Caixa para ficar em todas as zonas em que nenhum banco quer ficar. Porque um dos pressupostos desta recapitalização é a rentabilidade”, disse o presidente da Caixa.

O banco prevê chegar a 2020 com 470 a 490 balcões face aos 651 no fim de 2016.

Isto é uma mudança de paradigma em relação à tradição da CGD que durante anos levou a sério o papel de banco do Estado, deu crédito a empresas quando estas tinham dificuldade de acesso a outros bancos, a juros mais competitivos, entrou no capital de empresas que precisavam de acionistas para se manterem nacionais e isso teve um preço na conta de exploração e no capital. A CGD de Paulo Macedo divorcia-se desse papel de banco do Estado (já António Domingues tinha hasteado essa bandeira), isto é, de banco com funções sociais e patrióticas.

Sobre o corte de pessoal, também no âmbito da reestruturação com vista à rentabilidade, Paulo Macedo estima que isso tenha custos de 150 milhões de euros, para uma saída de 2.218 pessoas.

A rentabilidade é a palavra de ordem do Plano da CGD. O banco quer atingir uma rentabilidade dos capitais próprios (hoje negativa) de 9% ou mais em 2020.

“A CGD tem o maior numero de clientes, o maior volume de depósitos, maior volume de crédito e umas comissões não correspondentes. Para a rentabilidade existir, que é um compromisso, tem de haver o aumento das comissões, da margem financeira e a redução de custos é essencial”, diz.

O que disse ainda ontem Paulo Macedo?

“Sobre 2016 temos um conjunto de imparidades de mais de 3 mil milhões de euros que deram origem a um resultado negativo de 1.859 milhões de euros e que deve ser caracterizado como resultado que é extraordinário. Porque em termos estruturais aquilo que é a margem financeira, aquilo que são as comissões revela-se positivo”.

O presidente executivo do banco salienta que “isto significa que os clientes quiseram continuar com a CGD. Mais do que isso, os colaboradores da CGD conseguiram que isso fosse uma realidade apesar de toda a turbulência em termos de governance”, numa clara alusão à curta presidência de António Domingues.

“Com este Plano de Recapitalização a Caixa tem um melhor balanço e uma melhor cobertura por imparidades, diminuiu o seu crédito vencido e tem um ponto de partida para o ano de 2017 mais sólido. Por outro lado este ano de 2016, este fecho de contas é também um ponto fundamental para materializar aquilo que é a recapitalização da Caixa”, refere o banqueiro.

“O ponto de partida da CGD tem vários aspetos positivos, o banco está mais sólido depois da recapitalização e da redução do seu crédito vencido e aumento de cobertura por imparidades. O que é positivo em termos de risco da CGD”, reforça.

Portanto o facto de a Direcção Geral da Concorrência ter finalmente dado ontem autorização para a recapitalização da Caixa por parte do Estado Português e através da emissão de dívida junto de privados, é um aspeto essencial em termos desta solidez, considera Paulo Macedo.

“Estamos preparados para pedir a aprovação desta emissão de dívida (destinada a colocar exclusivamente em institucionais) para fazer o roadshow nas próximas semanas”, avisou o CEO na conferência de imprensa de apresentação dos resultados.

“A colocação de dívida em privados será efectuada após a autorização para a emissão do prospeto, depois de ter feito roadshow, o que nós esperamos é ter a autorização este mês de modo a possibilitar fazer o roadshow este mês”, diz.

Os juros da emissão subordinada são elevados? “A dívida subordina pesa no balanço dos bancos, pelo que só emite quem tem mesmo de emitir. Mas acreditamos que a emissão será feita com êxito”.

Confrontado com o facto de essa dívida ter um custo tradicional que ronda os 10% ao ano, responde que “a taxa de juro da emissão de dívida altamente subordinada AT1 (additional tier 1) é a que o mercado quiser. Existe um intervalo estimado que tem um limite superior a 10% e um limite inferior a 10%”, mas revela que os bancos intervenientes na emissão estão optimistas.

E em termos do futuro?

Os objectivos que estão inerentes ao plano (2020), em quatro vetores: Uma redução dos custos operacionais em menos 20% até 2020; um custo do risco inferior a 0,6%; uma maior resiliência a nível de capital, passar do capital de 12% em março de 2017 para 14% em 2020; e uma rentabilidade positiva (RoE) superior a 9% que contrasta com os últimos seis anos de prejuízo.

“É um plano bastante ambicioso. Tem um bom ponto de partida (recapitalização) mas representa uma mudança radical daquilo que é a estrutura de proveitos e custos da Caixa. Eu aliás já tive oportunidade de vos dizer que a recapitalização é uma condição necessária mas não suficiente para a rentabilidade da Caixa. No dia a seguir ao aumento de capital a Caixa não passará a gerar resultados positivos, a CGD só passará a gerar resultados positivos quando toda a transformação necessária for materializada”.

A CGD tem um conjunto de prioridades que tem de desenvolver a partir de 2017 e até 2020, que passam pelo reforço da atividade comercial, de ajustamento da sua infraestrutura de balcões  e ajustamento do quadro de recursos humanos, mas também um maior foco no país, maior foco no triângulo, Portugal-Ásia-África e um modelo de reforço da gestão do risco e da cobertura de risco.

“Temos um objectivo de rentabilidade nas operações do exterior superior àquilo que será a operação em Portugal e temos objectivos de ter rácios de capital superior aos exigidos pelo BCE”, avança Paulo Macedo.

Recapitalização inferior à esperada

Sobre o elevado valor da recapitalização (ainda assim inferior ao anteriormente anunciado) Paulo Macedo diz que há vários aspectos que devem ser ponderados. “Desde logo uma recapitalização deve poder fazer com que a CGD cumpra os rácios mínimos para poder operar, e nesse sentido a CGD tem a possibilidade de atingir os rácios para poder operar”. Mas, adverte, “a CGD ao contrário de uma entidade privada, não pode estar sistematicamente a recorrer ao seu acionista. É muito mais complexo e difícil fazer aumentos de capital em dinheiro na Caixa. Nesse sentido este aumento de capital não é maior do que o necessário”.

Paulo Macedo sabe que este aumento de capital não tem a almofada de segurança que devia ter para estar preparado para conjunturas adversas.

Porque é que Bruxelas só autorizou um aumento de capital de 2,5 mil milhões? “Porque se não tenho tanto prejuízo, não baixo tanto a situação líquida, se não baixo tanto a situação líquida tenho menor quebra de capital, logo preciso menos de capital, é o raciocínio da DG Comp, o que não quer dizer que eu concorde. Porque a CGD não pode facilmente aumentar o capital como os outros bancos e, portanto, quando o faz deve ter um buffer maior. Vivemos épocas de incertezas, e de volatilidade, devíamos ser consequentes. Mas de qualquer maneira achamos que é extremamente positivo para a CGD fazer esta recapitalização que vai ser concretizada brevemente”, explicou o CEO da CGD.

Estava previsto que o aumento de capital em dinheiro fosse até 2,7 mil milhões. O aumento de capital é 2,5 mil milhões em dinheiro e 930 milhões em emissão de dívida subordinada, o que reflete uma melhoria do resultado da CGD face aquilo que estava previsto na primeira interação com a DG Comp.

O plano de Recapitalização passou assim de 5.160 milhões de euros para 4.874,1 milhões de euros, sendo que a segunda fase do plano totaliza 3.430 milhões. A primeira fase do plano, concluída a 4 de janeiro, consistiu num aumento de capital em espécie (945,1 milhões de euros e CoCos convertidos em capital e 499 milhões de euros da participação que faltava da ParCaixa) e uma redução de capital de 6.000 milhões de euros que criou itens distribuíveis (reservas).

Relativamente aos resultados da CGD em 2017, o Plano que foi entregue junto da DG Comp prevê um resultado recorrente positivo e um resultado líquido negativo.

Os resultados líquidos positivos só em 2018, assegura Paulo Macedo que prevê que nesse anos sejam “marginalmente positivos”.

O efeito fiscal de 826 milhões de euros que influenciou o resultado em 2016, revelou na conferência de imprensa ao mesmo tempo que explicou que o efeito fiscal que é apresentado diz respeito a impostos diferidos. Portanto este valor mais significativo resulta do registo das imparidades.

“A dedutibilidade não é imediata no ano e é diferida no tempo há este reconhecimento de impostos que tem de ser recuperados no futuro. Paga menos impostos no futuro quando tiver lucro, fazendo o reporte de prejuízos como em qualquer outra empresa”.

Operações internacionais

“Sobre a alienação de operações internacionais mantém-se o previsto, mas vai ser dada prioridade à venda da operação na África do Sul e em Espanha”, assegurou Paulo Macedo.

O contributo da área internacional para o Resultado Líquido consolidado em 2016 alcançou 55,7 milhões de euros (-60,1% que em 2015), também aqui afetado pelo reforço de provisões e imparidades (294,6 milhões).

Ao longo da conferência de imprensa vários temas foram questionados. Por exemplo se estes prejuízos elevados vão ter impacto nas contas públicas. “Relativamente à contabilização dos prejuízos da CGD no défice uma vez que justificam o aumento de capital. A CGD não opinará”, disse o presidente da Caixa.

Sobre a proposta do Governo de criar um regulador acima do Banco de Portugal e da CMVM? Disse apenas que “a estabilidade dos órgãos de supervisão é bastante importante. E que a autonomização do Fundo da Resolução face ao Banco de Portugal é aliás uma proposta deste supervisor”.

Imparidades ficam por aqui?

“Seria totalmente impossível registar imparidades a este ritmo, e o compromisso que existe com a DG Comp é o ritmo de imparidades futuras ser muitíssimo mais baixo”, explicou Paulo Macedo que lembrou que o custo do risco do crédito para o futuro estará nos 60 pontos base a partir deste ano.

Mas nem todas as imparidades são extraordinárias. Há imparidades a registar todos os anos.

E qual será o impacto das novas regras de contabilidade (IFRS9) e dos requisitos do Basel III para 2018? As imparidades vão subir e vão haver mais requisitos de capital? O presidente da CGD respondeu: “As imparidades a terem que ser registadas sê-lo-ão em 2018. O plano de recapitalização já tem em conta essas eventuais imparidades”.

Já no célebre caso dos dois ex-administradores da equipa de António Domingues que não foram convidados a integrar a equipa de Paulo Macedo (Tiago Ravara Marques e Pedro Leitão), e perante a pergunta sobre se um deles já teria aceite o cargo de presidente da Caixa Gestão de Ativos e se já havia um entendimento quanto à indemnização a pagar a Pedro Leitão, Paulo Macedo disse que num dos casos “o processo tem a evolução que foi referida”, já sobre “compensações monetárias o Conselho de Administração não tem intervenção, mas de qualquer maneira foi disponibilizado pela Caixa a possibilidade de desempenharem funções noutras actividades. Isso foi feito. Temos de ver o desenrolar desse processo”, respondeu.

Já em relação ao banco de investimento, segundo o Jornal Económico soube vai manter-se autónomo, havendo apenas uma integração geográfica das instalações.

 

 

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