Quando Donald Trump ameaça, no meio da sua insanidade, iniciar uma guerra nuclear contra a Coreia do Norte, está a lançar as bases para a concretização de todas as distopias que já lemos e vimos.

Ao colocar os espectadores em confronto direto com questões primordiais sobre o ser humano, Blade Runner 2049 expõe as mesmas interrogações que assombraram o seu predecessor, o filme de culto de 1982, baseado na obra de Philip K. Dick. As implicações morais e éticas subjacentes à criação dos replicantes (androides mais humanos do que os humanos) tornaram-se terreno fértil para advertências contra o rumo da inteligência artificial e o que significaria para os humanos a evolução das máquinas.

Independentemente das opiniões dos críticos sobre o sucesso ou não do argumento ambicioso de Blade Runner 2049, são as paisagens desoladoras de antigas cidades americanas caídas em desgraça que nos perseguem (em conjunto com a banda sonora) muito depois de o filme terminar.

Como em muitas distopias merecedoras desse nome, a arquitetura urbana pós-apocalíptica reflete as sucessivas devastações causadas por guerra nuclear. Na nova Los Angeles recriada no filme, imperam os tons sombrios, a claustrofobia de um espaço sobrelotado, a chuva ácida e as luzes néon à mistura com hologramas a seduzir os incautos. Em San Diego sobressaem montanhas de sucata e vagueiam as classes mais indesejadas da população, abandonadas à sua sorte. Las Vegas está dominada por uma permanente tonalidade laranja surreal que lembra as tempestades no deserto. O protagonista caminha por entre estátuas arruinadas numa cidade contaminada onde já ninguém se atreve a entrar.

Nesta recriação assombrada de cidades que sofreram as consequências extremas de uma guerra nuclear, restam poucas alternativas a não ser escapar do inferno em direção a novas colónias no espaço, indicando que a Humanidade desistiu do seu berço e luta pela sobrevivência.

E é precisamente devido a essa desistência que Blade Runner 2049 nos lembra de como os humanos deixaram de dar valor ao milagre da existência. Na ânsia de se tornarem mais humanos do que humanos, serão os replicantes escravizados a ter de recordar ao Homem o milagre da existência humana, milagre esse que irá derrubar a última fronteira entre a Humanidade e a Inteligência Artificial.

Os paralelos com a nossa realidade são inevitáveis. Quando Donald Trump ameaça, no meio da sua insanidade, iniciar uma guerra nuclear contra a Coreia do Norte, está a lançar as bases para a concretização de todas as distopias que já lemos e vimos.

E se é verdade que, nas distopias, o planeta Terra é sempre retratado como um planeta já arruinado pela irresponsabilidade humana, também é verdade que a distopia é apenas um futuro alternativo possível – um de entre muitos ainda por concretizar – e cabe-nos a nós recuar a tempo e recuperar o paraíso perdido.



Mais notícias