Para trás é que é o caminho

Nos EUA, depois dos instrumentos monetários terem sido usados em força para evitar a todo o custo uma potencial deflação, vão ser recentrados em evitar uma também potencial (e forte) inflação.

A taxa de desemprego nos Estados Unidos aumentou para 4,4%, dos 4,3% de há um mês. Mas não só o valor é invejável, como foram criados 222 mil novos postos de trabalho em junho, mais do que era esperado. A taxa aumentou porque muita gente que tinha desistido de procurar emprego voltou ao mercado de trabalho, mais um sinal de que a retoma está aí.

Sai reforçada a opção de política monetária da Reserva Federal, que quer paulatinamente secar a liquidez que foi injetada na pouco mais de meia dúzia de anos que durou a crise, e que deixou a FED com 4,5 mil milhões de ativos. Aliás, voltámos a uma controvérsia velha de 30 anos, entre os defensores de uma política monetária assente em regras, mantidas independentemente da conjuntura, e os que perfilham a discrição, o adaptar da política à situação. Este está a tornar-se também mais um foco de batalha política nos Estados Unidos, quando está em causa a recondução, no próximo ano, de Yellen, próxima dos democratas.

Efetivamente, a política monetária tem sido sui generis durante a segunda metade da crise, não só nos Estados Unidos – relembre-se o famoso “whatever it takes” (o de Super Mário, que fará o seu quinto aniversário dia 26, não o dos Imagine Dragons). Nestes últimos tempos, quando se faz muito dinheiro a adivinhar o ponto de mudança da conjuntura, os operadores dos mercados de capitais estão mais interessados em adivinhar o comportamento da FED (nunca as atas do open market committee foram tão lidas) do que em seguir o mercado.

Com efeito, depois dos instrumentos monetários terem sido usados em força para evitar a todo o custo uma potencial deflação, vão ser recentrados em evitar uma também potencial (e forte) inflação. Isto é, a política monetária “do contra” está para ficar, desta vez a contrariar o crescimento. Não que isto seja negativo: como o demonstra a experiência americana, usada com moderação tem permitido criar condições de sustentação da retoma, evitando o stop-and-go. E também é superior à alternativa de recurso à política fiscal, por uma razão principal: é reversível, o que não é o caso desta última – quando a despesa pública se eleva a um novo patamar, não volta para trás.

As “regras versus discrição” podem custar-nos a senhora Yellen, porventura mais por razões de política estrita do que de teoria da política económica, o que é pena. Mas não me parece que se teria salvo o euro, como o conhecemos, se naquele dia 26 o senhor Draghi tivesse dito “faremos tudo o que for necessário para manter um crescimento da massa monetária a 2% ao ano.”



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