“Os Truques da Imprensa Portuguesa” dão a cara: “Não defendemos nem atacamos o Governo”

Foi desvendado o mistério: os criadores da página "Os Truques da Imprensa Portugal" são Pedro Bragança (arquitecto) e João Marecos (advogado). Em entrevista conjunta (e por escrito) ao "Jornal Económico" recusam assumir a função de "provedores do leitor 'online'", dizendo que apenas formam uma "comunidade de leitores". E prometem manter "vigilância" sobre a comunicação social.

O que é que vos motivou a criarem a página “Os Truques da Imprensa Portuguesa”?
Os “Truques” começaram por ser mais uma pequena página de Facebook. Propunha-se a reagir à forma como alguma imprensa intervinha intencionalmente na agenda mediática em Portugal. Não tínhamos um plano. Todas as páginas nascem com o tamanho dos seus autores. Assim foi com os “Truques”: não éramos nada mais do que nós, anónimos sob qualquer perspetiva, a escrever o que queríamos para um pequeno grupo de pessoas, como qualquer pessoa que nos lê o pode fazer. Com a evolução da página, esta tornou-se muito maior do que nós: passámos a ter seguidores, os nossos alertas sobre notícias passaram a ter impacto e um alcance tremendo. Com esse processo de evolução, fomos pensando e expondo na página os princípios a que aderíamos, o propósito que assumíamos, enfim, fomos criando as normas que guiam o nosso, agora sim, projeto. Um projeto público na sua propriedade e comunitário na sua orgânica. O que a página será, no futuro, é incerto. O que é hoje, é claro: o maior agregador de crítica de imprensa em Portugal. Como toda a crítica, há quem concorde ou quem discorde. Mas não vendemos factos, que são ou não são. Construímos e oferecemos pontos de vista, que são os nossos, necessariamente enquadrados pela nossa realidade, necessariamente subjetivos, e que podem ser aceites ou rejeitados por quem os lê.

 

Nesse momento inicial esperavam vir a ter mais de 150 mil seguidores e o reconhecimento público que ficou patente nestes últimos dias, para o bem (os vossos admiradores) e para o mal (os vossos detratores)?
Não esperávamos. O sucesso da página confirma a nossa intuição inicial de que havia um desconforto generalizado com abordagens de alguma imprensa em relação a alguns temas. Também não tínhamos noção de toda a extensão de truques, erros ou malabarismos que se fazem. Fomos ganhando essa consciência à medida que nos foram chegando mais e mais denúncias. No total serão muitos milhares de denúncias. O reconhecimento da página, para o bem e para o mal, tem a grande virtude de proporcionar um debate sobre várias coisas, desde a legitimidade do anonimato ao papel da imprensa e dos jornalistas no jogo da democracia.

 

A intenção era criar uma página humorística, ou já levavam a sério a iniciativa e queriam assumir o papel que agora parecem desempenhar de “provedores do leitor ‘online’”?

Como dissemos, não havia um projeto. Isto que vêem hoje é algo muito depurado, é um produto que resulta de diversas fases de reorganização e revisão, daquilo que nós achámos que devia ser o objeto da página, à medida que fomos ganhando muitos seguidores e com eles muita responsabilidade. A página dos “Truques” é um processo e não um facto consumado. Inicialmente fazíamos as brincadeiras que queríamos, publicávamos coisas para nós. Não se esqueçam que não começámos a fazer a página para 150 mil pessoas, mas literalmente para duas. Foi um caminho que se fez e será um caminho que se fará.

 

Até há alguns anos, os jornais tinham “provedores do leitor” que faziam mais ou menos o vosso papel, mas de uma forma mais especializada, na medida em que costumava ser desempenhado por jornalistas veteranos, com grande experiência e conhecimento da profissão. Acham que os jornais deveriam voltar a ter “provedores do leitor”? A vossa página está de algum modo a preencher esse vazio de auto-crítica e auto-escrutínio do jornalismo?

Nós não somos provedores do leitor. Esse papel, nos casos em que não está ocupado, permanece por ocupar e mal, pois é da maior importância que cada jornal indique um interlocutor com o qual os leitores podem interagir. Nós somos leitores, tão somente. Somos uma comunidade de leitores. O anonimato do João e do Pedro acabou, mas a página continua a ser uma comunidade, com artigos a surgirem de denúncias que nos chegam à caixa de mensagens, com correções que nos sugerem nos comentários, enfim, com a colaboração de muita gente. A tentação de personalizar o conteúdo de página em nós os dois vai existir e estamos inteiramente tranquilos com isso, porque temos orgulho no trabalho que a página desenvolve. Quem quiser criticar, ofender, atacar, já tem os seus alvos. Mas se for para atribuir louros, méritos à página, então esses não nos pertencem nem os queremos. “Os Truques da Imprensa Portuguesa” não são o João e o Pedro, são as milhares de pessoas que contribuem diariamente para uma pressão vigilante de leitores à sua imprensa.

 

Porque é que ocultaram as vossas identidades até serem forçados a revelá-las? O que temiam mais: poderem vir a ser prejudicados nas respetivas vidas profissionais, ou que colocassem em causa a imagem de isenção e independência da página através da divulgação de ligações a partidos políticos?

A imagem de isenção e independência da página foi colocada em causa, desde logo, a partir do momento em que começámos a ter um número elevado de seguidores. E éramos anónimos. Não temíamos porque essas acusações sempre se fizeram. Felizmente, para nós, já nos ligaram a quase tudo, seja em política, desporto… É importante distinguir os dois conceitos. Nós nunca prometemos uma falsa ou pretensa isenção. Quem está numa posição de crítica tem de tomar parte e é isso que está escrito desde os primeiros dias na nossa declaração de princípios, várias vezes republicada: “Esta página não é nem pretende ser um instrumento de informação. Não somos um órgão de comunicação social, não possuímos estatuto editorial, nem respondemos perante a lei da imprensa. Exigimos isenção, imparcialidade e equilíbrio. Para isso, temos de tomar posições e tomar posição obriga-nos, necessariamente, a assumir uma parte. Não nos fazemos passar por aquilo que não somos nem nos substituímos a quem não nos podemos substituir. Se procura imprensa, compre. Aqui não a encontrará porque também não a vendemos.”

 

Não receiam, portanto, que surjam dúvidas em torno dessa imagem de isenção e independência.

A nossa independência nunca esteve sequer em causa. Somos independentes no plano crítico, financeiro, e levamos muito a sério essa ausência de dependências ou obrigações. Cremos que o fim do anonimato não alterou uma vírgula na relação de cada seguidor (ou não seguidor) com a página. Quem seguia e confiava, continua a seguir e confiar. Quem não seguia e não confiava, continua a não seguir e não confiar. A questão é mais profunda: porque é que alguém precisa de saber quem é a pessoa por trás da crítica para saber se deve ou não concordar com ela? Nós, se não sabemos quem é o autor, não assumimos que ele é isento e imparcial. Pelo contrário. Lemos tudo sob o pressuposto de que a pessoa que escreve é altamente parcial. E julgamos o que lemos através do nosso próprio julgamento. E concluímos: esta crítica é altamente parcial, não concordo; ou, pelo contrário, não sei quem é o autor, mas a crítica faz todo o sentido, quer ele seja altamente parcial, quer ele seja completamente alheio a isto tudo.

A falácia genética, que consiste em aprovar ou desaprovar algo com base apenas na sua origem, chama-se falácia por alguma razão e não deixa de o ser por se gritar “Cobarde!” a altos berros. É nessa falácia que laboram todos, mesmo os que têm boas intenções, todos os que pretendem que sem a identidade dos autores, a origem da crítica, não se pode avaliar o valor dessa crítica. A falácia “ad hominem”, por seu lado, consiste em negar uma proposição com uma crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo. E esta falácia não morre por sermos anónimos, claro: recebemos muitas destas quando, saltando por cima da crítica, nos vinham criticar o anonimato. Mas perde força quando não se baseia em coisas concretas, como agora passará a acontecer. Por exemplo: eu, João, sou do Benfica; faço uma publicação em que denuncio um truque contra o Benfica; estou sujeito a que me digam: “este post foi o lampião a fazer, que falta de isenção…” Mas, na verdade, o facto de o João ser benfiquista não retira em nada legitimidade à sua crítica a uma notícia sobre o Benfica. Se essa crítica for, de facto, falaciosa, tanto faz o João ser benfiquista ou portista, porque a crítica em si será sempre inválida. E essa crítica tem autonomia por si e um valor próprio. Sobre o direito ao anonimato escreveremos um dia por extenso. Será necessário lançar um debate amplo sobre a questão, em que cada um entre com a disponibilidade de ouvir os argumentos dos outros. Quem tem certezas absolutas, e nós nunca as tivemos, não é útil. Sobre o direito à privacidade, não precisamos de dizer muita coisa. Não somos figuras públicas nem quisemos tornar-nos com esta página. Também não somos uns eremitas que se recusam a aparecer. Simplesmente, queremos aparecer nos nossos termos. Esta página tornou-se, para nós, uma espécie de voluntariado, o nosso contributo fora daquelas que são as nossas carreiras próprias, através da qual podemos oferecer alguma coisa à melhoria da democracia, porque não há democracia sem imprensa. Não ganhamos um cêntimo com “Os Truques”. Gastamos horas e horas sem ficar com louros de nada, que dispensamos perfeitamente. O facto de não aparecermos para navegar o sucesso da página incomodou muita gente.

 

Além do Pedro Bragança e do João Marecos, quem são os outros administradores ou editores da página?

Não há outros administradores. Fundámos os dois a página em 2015 e somos atualmente os únicos administradores. Com o tempo, fomos desafiando malta mais nova e lançámos até uma espécie de concurso público para novos colaboradores. Um “Call for Editors”. A nossa defesa do anonimato mantém-se e estende-se a todos os que colaboram ou colaboraram com a página. Quem quiser assumir a sua participação é inteiramente livre de o fazer. Quem não quiser, não precisa de o fazer.

 

Que jornais é que lêem regularmente? E refiro-me a conteúdos pagos, na edição em papel ou “online” mas pagos. Esta pergunta resulta do facto de a maior parte das vossas publicações estarem relacionadas com conteúdos gratuitos, disponibilizados nos “sites” de órgãos de comunicação social, ou conteúdos de estações de televisão, e não propriamente com publicações da imprensa escrita. Nunca vi um recorte de jornal na vossa página, por exemplo, ou um conteúdo pago, restrito a assinantes.

Subscrevemos o “Público” e o “Expresso”. Compramos esporadicamente outros jornais, portugueses e estrangeiros. Subscrevemos a “The Atlantic” e, por períodos e para temas específicos, o “The New York Times” e o “Libération”. Não temos por hábito comprar imprensa desportiva, à exceção da “Panenka”, uma revista espanhola muito recomendável. Não é verdade que só publiquemos conteúdos gratuitos. São inúmeros os exemplos de conteúdos pagos partilhados pela página. Apenas em casos muito excepcionais e justificados colocamos recortes de jornais. Primeiro, porque consideramos um desrespeito fornecer publicamente, no próprio dia, um conteúdo integral que custou dinheiro a produzir. Depois, porque as nossas subscrições são “online” e só quando nos enviam para a caixa de mensagens denúncias com recortes digitalizados é que os vemos. Diríamos que os nossos recortes são, fundamentalmente, “screenshots”, os recortes dos tempos modernos.

 

Uma das grandes fontes de “truques” que denunciam na página é o denominado “clickbait”. Mas julgo que há dois tipos de “clickbait”: o que sugere falsidades ou induz em erro, prática inaceitável; e o benigno que recorre a títulos mais enigmáticos, parcelares, com o intuito de cativar o leitor do Facebook no sentido de visitar o “site” do órgão de comunicação social que produziu (com custos) aquele conteúdo. Porque é que não distinguem entre os dois tipos de “clickbait” e tratam tudo por igual?

Não há “clickbait” benigno. Aquilo a que chama “clickbait” benigno não deve ser, para nós, considerado “clickbait”. No atual modelo de negócio, os jornais não podem sobreviver sem visualizações nos seus espaços próprios, porque, como sabemos, o “buzz” nas redes sociais não dá qualquer retorno financeiro. Do nosso ponto de vista – que, insistimos, não é o ponto de vista de especialistas, mas sim de leitores –, este facto obriga a toda uma reorganização das bases do jornalismo e do seu sistema produtivo. Isso inclui, naturalmente, a forma de fazer títulos. Para nós, um título que suscite curiosidade, que contenha um enigma, que, sendo esclarecedor, convide o autor a ler o resto do texto é um bom título. Não é “clickbait”. O “clickbait” é um título que engana intencionalmente o leitor e o leva a concluir, antes do “click”, algo que depois não se confirma. Por exemplo, a 29 de janeiro, o suplemento económico do “Jornal de Notícias” e “Diário de Notícias” escreveu: “Trump em Portugal” e, depois, a notícia era sobre a forma como alguns portugueses viam Donald Trump. Não é sério, é “clickbait” e é um título terrível. Aliás, basta-nos ir à etimologia da palavra: “click”+”bait” = isco de cliques. Tal como os iscos de pesca são um logro para os peixes e representam o seu fim, o “clickbait” é um logro para os leitores e, neste caso, representa o fim para o jornalismo. Está mais do que provado que não é esse o caminho, porque, mesmo que resolva temporariamente alguns problemas e ajude a enfrentar um cenário financeiro aflitivo, cria um processo de erosão irreversível e que vai acabar por destruir o mais importante e mais original no jornalismo: a confiança dos leitores. Essa confiança é minada por notícias erradas, notícias manipuladoras, notícias fraudulentas ou “clickbaits”. Notícias lêem-se em qualquer lado. É pela confiança que se paga.

 

Assistimos a uma contínua perda de leitores de jornais, desde há mais de uma década. O jornalismo português atravessa uma crise profunda: desemprego generalizado, redações com cada vez menos trabalhadores, condições laborais a degradarem-se. Em grande parte por causa da quebra das receitas de publicidade. A aposta no “online” visa captar uma parte dessas receitas e mesmo assim não tem sido suficiente, ou ainda não é suficiente para consubstanciar um modelo de negócio minimamente rentável. Ou pelo menos sustentável. Têm em consideração esta realidade quando fazem apelos diretos a que não se comprem jornais? Ou quando reparam que a maior parte dos vossos seguidores se vangloria de não ler jornais? Refiro-me mais uma vez a conteúdos pagos, na edição em papel ou “online”.

Nunca, em momento algum, apelámos a que não se comprassem jornais. Nunca. Pelo contrário, sempre que nos perguntam “que jornal recomendam” a nossa resposta é invariavelmente “vários, porque diversificar as fontes é a melhor maneira de encontrar a verdade”. É, portanto, absolutamente falso que façamos ou tenhamos alguma vez feito esse apelo ou que façamos uma apologia da desinformação. Só por má-fé ou não acompanhamento da página se pode dizer uma coisa dessas. Qualquer seguidor da nossa página sabe isto perfeitamente. É essencial que se perceba que nós não somos contra o jornalismo nem odiamos o jornalismo. Antes pelo contrário. É por considerarmos o jornalismo vital que promovemos a exigência em relação a ele.

 

Apesar da crise do modelo de negócio da imprensa escrita, no Reino Unido ou nos EUA há vários jornais que mantêm vendas superiores a um, dois, três milhões de exemplares. Em Portugal, os mais vendidos estão na ordem dos 100 mil exemplares. E os números das assinaturas “online” ainda são muito reduzidos e não compensam a perda de leitores dos últimos anos. Se as pessoas em Portugal não estão dispostas a pagar pela informação que consomem, mesmo quando se trata de valores quase irrisórios como as assinaturas “online”, na vossa perspetiva, de que forma é que se poderá dar a volta a esta situação?

Temos opiniões pessoais sobre isso, mas não falamos por ninguém. Pagamos para ler bons conteúdos, boas reportagens, boas entrevistas, boas crónicas. Achamos que é preferível que sejam os leitores a financiar um jornal, ao optarem por pagar bons conteúdos, do que um grupo económico ou um mecenas. Achamos que é preferível que sejam os leitores do que o Estado, como acontece em diversos países, como em França. Mas também sabemos que, em Portugal, há uma esmagadora maioria da população que não vê vantagem em pagar por informação. E que parte dessa esmagadora maioria nem tem, sequer, condições económicas para equacionar a opção. A informação é um privilégio que precisa de ser democratizado. Não há fórmulas mágicas, mas a preservação do contrato de confiança entre os jornais e os leitores é um bom princípio. Talvez a entrada dos jornais no “online” tenha sido mal programada, embora esse seja um tema que preferimos deixar para aprofundamento dos especialistas. Mas, enquanto meros leitores, temos algumas questões. Como é possível quererem que as pessoas paguem por um jornal se no separador ao lado têm outro que é inteiramente grátis? Sim, até pode ser pior. Sim, é financiado por um grupo económico ou por um grupo de empresários cujo interesse em manter uma estrutura altamente deficitária não é, à partida, compreensível. Mas, obviamente, este factor é um factor de desvalorização global de todo o “online”.

 

Além da crise do modelo de negócio, consideram que estamos perante uma crise de credibilidade do jornalismo? O que é que deveria ser feito, com maior urgência, para suster essa outra crise que poderá estar a agravar a primeira?

Claro. Dizemos mais: é a crise de credibilidade uma das principais razões para a crise económica. O erro faz parte do trabalho humano. O erro transparente não é condenável. Nunca o condenámos. Muitas vezes elogiámos até a correção de erros. Fizemo-lo com orgulho, claro, mas nunca com um sentido revanchista. Não é uma vergonha. Não são “jornalistas amedrontados com fascistas”, como disse Ricardo Costa, a 28 de fevereiro. Não estamos a pedir uma imprensa sem erros. Estamos a pedir uma imprensa que não nos engane. Os jornais têm de criar mecanismos de responsabilização do seu próprio conteúdo pelos leitores. Um leitor que sabe que o “Jornal Económico” corrige, com transparência e sem esconder o erro, confia no “Jornal Económico”. Isso não aconteceu, por exemplo, quando a 24 de fevereiro fizeram uma notícia sobre palavras do Papa Francisco – “É melhor ser ateu do que católico hipócrita” – que o Papa Francisco nunca proferiu. Aliás, teria sido revolucionário, no sentido literal, se o tivesse dito, porque vai contra a doutrina da Igreja. Sabemos, e lastimamos, que o jornalismo esteja a ser devorado por uma cultura “fast food” que prefere o rápido ao bom. Mas o jornalismo nunca conseguirá competir com uma mera “timeline” do Twitter. Não é na rapidez que estará, algum dia, a sua originalidade. Precisamos de notícias que demorem o tempo que demorarem. Mas precisamos, sobretudo, de notícias confiáveis. Dar a notícia primeiro é bom para os cliques. Dar a notícia bem é bom para os subscritores. O dinheiro dos primeiros vem da publicidade. O dinheiro dos segundos vem do jornalismo. Perguntamos: em que negócio estão os jornais, no da publicidade, ou no do jornalismo? É plausível, em 2017 e em Portugal, um jornal maioritariamente financiado pelo seu jornalismo?

 

O Pedro Bragança esteve ligado à campanha presidencial de António Sampaio da Nóvoa, o qual terá sido inicialmente subestimado, isto é, teve “má imprensa”, embora depois tenha acabado por conquistar um maior reconhecimento na fase final da campanha e sobretudo ao obter um resultado eleitoral superior ao previsto. Mais recentemente aconteceram fenómenos parecidos no Reino Unido, com Jeremy Corbyn, e nos EUA, com Bernie Sanders. Essa experiência terá, de algum modo, alterado a perspetiva do Pedro Bragança em relação à imparcialidade e isenção do jornalismo português?

Estivemos os dois envolvidos e empenhados nessa campanha presidencial, ambos com muito orgulho. Foi uma campanha de um candidato independente, ao qual depois se juntaram alguns militantes de partidos, nomeadamente do PS, do Livre, do PCP, do BE, mas não só. A nossa presença nessa campanha começou antes da apresentação pública, antes sequer de se falar em apoios de partidos. Era uma candidatura aberta, com bases na academia, mas que acabou por mobilizar pessoas de todos os setores. A última campanha presidencial portuguesa foi coberta pela imprensa de forma enviesada. Não somos nós que o dizemos, são alguns estudos que entretanto foram feitos sobre o assunto, ou que tomaram o caso como exemplo. Relembramos alguns momentos marcantes: a festa de despedida do já candidato Marcelo Rebelo de Sousa em horário nobre, na TVI; o editorial do “Público” após o anúncio de candidatura do mesmo candidato, louvando-o como um predestinado que vinha cumprir um desígnio divino; as entrevistas da SIC, com três dias de diferença, que deram 43 minutos a Marcelo Rebelo de Sousa e um cenário especial (o salão nobre da faculdade) e 23 minutos a Sampaio da Nóvoa, nos estúdios da SIC; um debate em que a TVI desligou o contador e Marcelo Rebelo de Sousa terminou com o dobro do tempo de um dos seus adversários.

 

A partir daí tornaram-se mais cépticos e críticos? Ficaram mais atentos aos “truques”?

E certamente que a atenção que depositámos nessas eleições por conta da nossa participação nos tornou mais atentos a esses “truques”. Não afirmamos que o atual Presidente da República não ganharia as eleições, nem lhe retiramos qualquer mérito pessoal ou político nessa vitória. Mas a imprensa não se portou com seriedade: primeiro, ao assumir por diversas vezes a vitória antecipada; depois, ao repetir até à exaustão que não havia concorrentes sérios; por fim, ao não confrontar todos os candidatos da mesma maneira; as sucessivas primeiras páginas do “Expresso” e do “Público”. No dia 20 de dezembro, um artigo de Luís de Sousa, cientista político, publicado no “Público”, surgia acompanhado de uma tabela muito interessante. Realizada a partir da “Wholeads.com” e da Universidade de Aveiro, essa tabela ordenava os candidatos presidenciais de acordo com a cobertura mediática. Resultado: 1. Marcelo Rebelo de Sousa; 2. Marisa Matias; 3. Maria de Belém; 4. Edgar Silva; 5. Henrique Neto; 6. António Sampaio da Nóvoa; 7. Paulo Teixeira de Morais. Basta revisitar os resultados para perceber como o “establishment político-mediático” estava, pelo menos, ligeiramente equivocado. A página surgiu na altura das eleições presidenciais mas não por causa das eleições presidenciais, e a prova disso é a sua existência em julho de 2017. É uma página alimentada pela circunstância. Na altura das presidenciais, a imprensa fala das presidenciais e a página fala da imprensa a falar das presidenciais. Assim é com o resto, seja legislativas, autárquicas, Euro 2016, Sebastião Pereira, “Panama Papers”, Maria Barros…

 

Há uma tendência latente na vossa página para privilegiar a defesa do atual Governo em funções. Embora isso não retire validade a algumas das denúncias que fazem, não acaba por colocar em dúvida a imparcialidade e isenção da página?

Não há. É falso. Não defendemos o atual Governo, não atacamos o atual Governo, não defendemos a oposição ao atual Governo, não atacamos a oposição ao atual governo. Não defendemos o Porto, o Benfica ou o Sporting. Se o quisermos fazer, fazemos nos nossos espaços próprios. “Os Truques” é uma página sobre imprensa e só sobre imprensa. Procuramos sustentar cada crítica em argumentos sólidos e, para nós, é absolutamente indiferente se a vítima ou o beneficiário desse “truque” é um partido ou um grupo. A nossa missão é desmontá-lo, independentemente de tudo. Entre os gestores da página há, sim, pessoas de vários quadrantes políticos, uns mais à esquerda, outros mais à direita, que já votaram em todos os partidos com representação parlamentar. Essa diversidade é um valor que a página tem, não em busca de um horizonte abstrato de imparcialidade, que recusa liminarmente, mas porque lhe oferece uma pluralidade de pontos de vistas muito valiosa na discussão interna de todos os assuntos. Essa acusação tem como proveniência alguns setores políticos que, eventualmente, gostariam de se ver defendidos pela página. Mas a página não existe para defender setores políticos, antes para produzir uma crítica sistemática e organizada à imprensa.

 

Não é uma acusação de “alguns setores políticos”, é uma pergunta da minha parte.

Mas vamos ser absolutamente claros: e se fossem? E se fossem de direita? Nós escrevemos a crítica, o leitor lê-a, lê a notícia e tira a sua conclusão. Se a quiser partilhar, a caixa de comentários é livre e nós defenderemos a nossa posição. Ser de esquerda, ou de direita, ou de nada, não mancha ninguém, desde que as ideias, a fundamentação e abertura para a contradita estejam presentes. Do nosso ponto de vista, os “truques” praticados pela imprensa não são contra a esquerda nem contra a direita. São sempre, em primeiro lugar, contra os leitores, os principais visados e as principais vítimas. Se a página propõe ser um reflexo do que se passa na imprensa e se a imprensa não é uma massa homogénea, é perfeitamente natural que a crítica penda mais para o lado que a imprensa também pende. Pretender que publiquemos tantos “truques” para um lado como para o outro – à luz de um falso equilíbrio que não existe na realidade – é solicitar à página que viole o compromisso que assumiu, pois tal exercício só seria possível caso fossem manipulados os dados. Se a imprensa é parcial, nós somos a imagem da sua própria parcialidade. Muito mais importante do que se publicamos tantos “truques” para a esquerda como para a direita é a questão da abordagem que fazemos a cada publicação, independentemente de o objeto da notícia ser de esquerda, de direita, do Sporting, do Porto ou do Benfica. E quem diz destes também pode dizer de tecnologia, do “Nokia 3310”, de canábis, de medicina alternativa, de marcas de automóveis, de imobiliárias, de tudo aquilo sobre o que temos vindo a publicar, independentemente do conteúdo da notícia. O que nos interessa é a abordagem e é pela abordagem, sempre através de casos concretos, que aceitamos ser criticados.

 

Já receberam ameaças concretas e que levassem a sério? Por causa de que publicações, especificamente?

Quando os nossos nomes não eram publicados, recebemos várias ameaças através da página. Contudo, o anonimato protegia-nos. Desde o último domingo, passámos a receber ameaças diretamente nas nossas caixas de mensagens pessoais. É uma mudança refrescante, podermos ser diretamente confrontados pelos lunáticos que não aceitam opiniões diferentes. Há pessoas verdadeiramente doentes e isso assusta-nos. As publicações que levantam mais ondas são, sem dúvidas, as desportivas. Contudo, basta mexer com a empresa de alguém, com o partido de alguém, com a religião de alguém, para sentirmos logo o afeto belicoso de certas pessoas. Quando há ameaças concretas ou utilização de linguagem imprópria, como insultos e calúnias, bloqueamos. Se nos estiverem a ler: lembrem-se que bater em nós não vai resolver os problemas da vossa vida, antes pelo contrário.

 

Agora que revelaram as vossas identidades, o que é que mudou? Tencionam continuar a denunciar o que entendem ser os “truques” da imprensa portuguesa”?

Para nós, não mudou grande coisa. Assumimos tudo o que dissemos até hoje e assumiremos tudo o que viermos a dizer a partir de hoje. A forma de escrever será a mesma. Apenar passaremos a receber elogios e ameaças diretamente, nas nossas contas pessoais. Mudou, essencialmente, para quem se definiu como nosso adversário e agarrou-se excessivamente ao argumento do anonimato para nos rejeitar. Para esses, terá de haver uma revisão da tese. “Os Truques da Imprensa Portuguesa” vão continuar enquanto houver “truques” na imprensa portuguesa. São um colectivo em crescimento e possibilitam a uma grande comunidade de leitores de imprensa em Portugal lutar por uma imprensa mais rigorosa, mais séria e mais capaz. Isto implica, por um lado, lutar para que nos dêem melhor jornalismo e, por outro, aceitar remunerar esse bom jornalismo. Neste caso, ao contrário do ovo e da galinha, é claro para nós qual vem primeiro.



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