Os principais vencedores e derrotados das eleições autárquicas

Foi uma noite quase perfeita para António Costa, primeiro-ministro e líder do PS, com apenas dois espinhos: a perda da maioria absoluta em Lisboa e a transferência de nove presidências de câmaras municipais do PCP para o PS. Em contraste com o pesadelo vivido por Pedro Passos Coelho que, perante resultados catastróficos, admite não se recandidatar à liderança do PSD. No Porto, o independente Rui Moreira ganhou contra tudo e todos.

Os principais vencedores

 

Rui Moreira: Contra as sondagens, contra os ex-aliados do PS, contra os demais partidos políticos, tudo e todos, Moreira venceu com maioria absoluta e foi reeleito presidente da Câmara Municipal do Porto. O movimento independente encabeçado por Moreira (com o apoio do CDS-PP e do MPT) obteve 44,46% dos votos e sete mandatos (de um total de 13), conseguindo melhorar o resultado de 2013 (39,25% dos votos e seis mandatos) que já tinha sido histórico. Seguiram-se Manuel Pizarro (PS) com 28,55% dos votos e quatro mandatos, Álvaro Almeida (PSD/PPM) com 10,39% dos votos e um mandato, Ilda Figueiredo (CDU) com 5,89% dos votos e um mandato e João Teixeira Lopes (BE) com 5,34% dos votos e nenhum mandato. Depois de ter rompido o acordo com o PS, através do qual governou a CMP (assegurando uma maioria absoluta pós-eleitoral) desde 2013, Moreira ficou isolado, sem hipóteses de firmar acordos com outros partidos (tanto o PSD como a CDU e o BE não estariam dispostos a preencher esse vazio político). Sem maioria absoluta, Moreira poderia ficar à mercê da oposição. Mas a vitória expressiva permite-lhe enfrentar o segundo mandato com redobrada confiança.

 

Fernando Medina: Apesar de ter perdido a maioria absoluta, não deixa de ser um dos principais vencedores da noite eleitoral. Ao proferir o seu discurso de vitória, às 0h40m, Medina baseou-se na provável obtenção de uma maioria absoluta do PS (as projeções das sondagens à boca das urnas apontavam nesse sentido). “Qualquer que seja o resultado, nós procuraremos alargar a base política no sentido de termos mais apoio para as políticas que vamos concretizar,” declarou Medina, abrindo o caminho para entendimentos com outros partidos, independentemente da efetiva correlação de forças na Câmara Municipal de Lisboa. No entanto, o apuramento do resultado final, por volta das 4h50m, reservou uma surpresa: Medina venceu a eleição, com 42,02% dos votos, mas perdeu a maioria absoluta. De um total de 17 mandatos, o PS ficou com oito, seguido pelo CDS-PP (quatro), PSD (dois), CDU (dois) e BE (um). Em 2013, António Costa tinha conquistado 50,91% dos votos e 11 mandatos. Posto isto, Medina deverá tentar formar uma “geringonça” na capital. Basta-lhe garantir o apoio de mais um vereador, pelo que um acordo com o BE seria suficiente. Recorde-se que, durante a campanha eleitoral, Ricardo Robles (BE) manifestou a sua disponibilidade para negociar com Medina. Embora de uma forma mais dúbia, João Ferreira (CDU) também admitiu essa hipótese, em entrevista ao Jornal Económico.

 

Assunção Cristas: Embora não tenha ganho a eleição, Cristas merece crédito por um resultado histórico em Lisboa. Pela primeira vez desde as eleições autárquicas de 1976, o CDS-PP superou a votação do PSD na capital. Tal como em 1976, ficou em segundo lugar, mas conseguiu até um melhor resultado (18,95% dos votos e três mandatos em 1976; 20,57% dos votos e quatro mandatos em 2017). A comparação direta com o resultado obtido por Teresa Leal Coelho (PSD) é impressionante: quase o dobro dos votos (Leal Coelho teve apenas 11,23%) e o dobro dos mandatos. Mais, Cristas também pulverizou (ou quase triplicou) o resultado obtido pelo ex-líder do CDS-PP, Paulo Portas, em 2001, quando se candidatou à CML e prometeu que ficava (mas não ficou). Além de consolidar a sua posição na liderança do CDS-PP e de se libertar do espectro de Portas (remetido para o passado), este feito acima de todas as expectativas permite-lhe ganhar ascendente em relação ao PSD, antigo parceiro de coligação governamental. Em Lisboa houve uma notória transferência de eleitores entre o PSD e o CDS-PP. No plano nacional, o CDS-PP manteve as cinco presidências de câmaras municipais que detinha desde 2013 e conquistou uma ao PSD (Oliveira do Bairro), totalizando seis. Ao que acrescem 18 presidências ganhas por coligações PSD/CDS-PP (em 2013 foram 19). Resta saber o que fará Cristas com tamanho capital político.

 

Inês de Medeiros: Foi a maior surpresa da noite eleitoral. A ex-deputada do PS (renunciou ao mandato em 2016, para assumir a vice-presidência da Fundação INATEL) conquistou a Câmara Municipal de Almada (CMA), em poder dos comunistas desde 1976, quando se realizaram as primeiras eleições autárquicas após a Revolução de 25 de Abril. Por uma escassa diferença de 213 votos, Medeiros destronou Joaquim Judas, da CDU, que em 2013 tinha alcançado uma maioria absoluta de seis vereadores (de um total de 11), com 38,73% dos votos. Desta vez, Medeiros fez aumentar consideravelmente a votação do PS em Almada (passou de 25,72% para 31,25%), acrescentando um vereador aos três que elegera em 2013. Enquanto a CDU tombou para 30,93% dos votos, perdendo dois vereadores. Ou seja, Medeiros ganhou a eleição, mas terá o mesmo número de vereadores do que a CDU. Seguiram-se o PSD com 14,13% dos votos (e dois mandatos, tal como em 2013) e o BE com 9,67% dos votos (quase o dobro em relação a 2013 e elegendo uma vereadora, Joana Mortágua). Resta saber como é que a antiga atriz e realizadora de cinema vai governar a CMA com uma maioria relativa. A solução passará por Mortágua?

 

António Costa: Ainda faltam apurar os resultados finais de cinco municípios, mas o PS já conseguiu superar a melhor prestação de sempre em eleições autárquicas que obtivera em 2013, quando ainda era liderado por António José Seguro. Com 158 presidências de câmaras municipais asseguradas (em 2013 totalizou 150), Costa ganha um novo fôlego para a segunda metade da legislatura que desembocará nas eleições legislativas de 2019. Além de comprovar a popularidade do atual Governo em funções, este resultado poderá até derrubar o líder da oposição, Pedro Passos Coelho, que perante a dureza dos resultados admitiu ponderar se vai ou não recandidatar-se à presidência do PSD. Há apenas dois espinhos a destacar na noite eleitoral quase perfeita para o líder do PS e primeiro-ministro: a perda da maioria absoluta de Medina em Lisboa e, talvez mais problemático, a hecatombe eleitoral do PCP. Os comunistas perderam 10 das 34 presidências de câmaras municipais que tinham desde 2013 (nove das quais para o PS e uma para um movimento independente). Entre as perdas sobressaem bastiões históricos do PCP como Almada, Barreiro e Beja. Pelo que deverá seguir-se uma reflexão interna no PCP sobre as vantagens/desvantagens de apoiar o Governo do PS através da “geringonça”. Em suma, a vitória do PS poderá ter sido demasiado expressiva, afetando os delicados equilíbrios políticos à esquerda.

 

 

Os principais derrotados

 

Pedro Passos Coelho: O líder do PSD foi derrotado em toda a linha, ao ponto de admitir a possibilidade de não se recandidatar à presidência do partido que obteve o seu pior resultado de sempre em eleições autárquicas. A base de partida não era fácil, tendo em conta a derrota pesada que o PSD já tinha sofrido nas eleições autárquicas de 2013 (caiu então de 139 para 106 presidências de câmaras municipais, perdendo a presidência da ANMP que mantinha desde 2001), mas a hecatombe de 2017 superou as piores expectativas: caiu ainda mais para 96 presidências (18 através de coligações com o CDS-PP) e foi humilhado em Lisboa e Porto, com resultados historicamente baixos (11,23% e 10,39% dos votos, respetivamente). No caso de Lisboa, com a agravante de ter ficado com cerca de metade dos votos do CDS-PP. Ficou comprovado o erro político de Passos Coelho, ao ter recusado uma candidatura conjunta PSD/CDS-PP (encabeçada por Cristas) em Lisboa. Segue-se a disputa pela liderança do PSD, contra Rui Rio, mas os estragos são tão profundos que Passos Coelho poderá desistir nos próximos dias. Caso contrário, “a vida dele será um inferno completo”, já avisou Luís Marques Mendes.

 

Jerónimo de Sousa: O resultado do PCP em Lisboa foi agridoce, tendo acumulado mais votos (de 22.519 em 2013 para 24.138 em 2017) que se traduziram numa menor percentagem (de 9,85% para 9,56%) e no mesmo número de mandatos (dois). Serviu para impedir a maioria absoluta do PS, por um triz, embora Medina possa firmar um acordo somente com o vereador eleito pelo BE. De resto, o PCP sofreu uma pesada derrota, ao perder 10 presidências de câmaras municipais (nove para o PS e uma para um movimento independente). Mais grave: algumas dessas perdas ocorreram em bastiões históricos dos comunistas, com destaque para Almada, Barreiro, Alcochete, Beja e Moura. No caso de Almada, desde as primeiras eleições autárquicas de 1976 que o PCP ganhava sempre. Até ontem. “Serão muitos aqueles que no plano local vão ter saudades da CDU,” advertiu Jerónimo de Sousa, não deixando contudo de garantir: “Sabem que não desertaremos da vida local durante quatro anos para regressar uns meses antes das próximas eleições, quando os holofotes mediáticos passarem a justificar que se esteja presente.” A hecatombe eleitoral do PCP poderá entretanto dar início a uma reflexão interna sobre as vantagens/desvantagens de apoiar o Governo do PS em funções. Estará a coesão da “geringonça” em risco?





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