Os papas em Fátima: entre a crença e a diplomacia

Manifestação de fé popular, mas também momento de encontro político entre Estados, as visitas de papas a Portugal estiveram sempre rodeadas de fortes expetativas, não só pelo interesse profundo que despertam no imaginário dos crentes apostólicos romanos, mas ainda pela troca de cortesias num quadro geopolítico em constante mutação.

REUTERS/Rafael Marchante

Paulo VI

A primeira visita de um papa a Fátima – Paulo VI em 1967, há meio século, nos 50 anos das aparições – esteve muito longe de ser a mais pacífica das viagens do sumo pontífice. Paulo VI teve sempre grandes reservas face às ditaduras instaladas na Península Ibérica, como os anos seguintes haveriam de confirmar, revelando-o como um progressista inesperadamente eleito para liderar o Vaticano, que queria impor o diálogo com todos (mesmo com o inimigo, o mundo comunista) como dialética de Estado numa envolvente geopolítica particularmente difícil. É preciso recordar que foi este papa que abriu o Vaticano ao diálogo com os países comunistas – numa estratégia que na altura muito desagradou às hierarquias católicas romanas instalas nos países da cortina de ferro – que se consubstanciou na abertura de relações diplomáticas entre o Vaticano e a Jugoslávia de Tito (já na altura um desalinhado com as teses de Moscovo, mas ainda assim um comunista convicto).

Não é por isso despiciendo que a vinda de Paulo VI a Fátima tenha sido enquadrada numa visita pastoral e não numa viagem de Estado: o papa não parecia estar interessado em resvalar para a órbita da propaganda do regime, preferindo assumir a figura mais ‘inocente’ de peregrino. Salazar respondia-lhe com a mesma falta de amor fraterno: o Papa tinha visitado recentemente Bombaim (na Índia), já depois de Portugal perder a soberania das três praças-fortes que mantinha naquele país – e que não serviam para mais nada senão para manter a chama do folclore do ‘Portugal do Minho a Timor’. O regime não gostou e também não se deu ao trabalho de perceber que as visitas de Paulo VI serviam apenas para traçar uma espécie de rota da pobreza desesperançada (depois da Índia seguir-se-iam Bogotá, Medellin, Kampala, Ásia Oriental, Filipinas e Austrália).

No meio de tanta objeção de consciência, a presença de Paulo VI em Fátima decorreu como seria de esperar: um banho de multidão, muita exaltação mística e o regresso a casa sem que nada de proveitoso fosse estabelecido entre os dois Estados. Isso mesmo ficaria provado quando, três anos depois, Paulo VI recebeu em audiência os líderes dos grupos rebeldes que, em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, lutavam contra a presença colonialista de Portugal nos seus territórios – ficando assim do lado da ONU, que por aqueles anos tecia fortes críticas à permanência do país fora das suas fronteiras europeias.

Assumindo o seu lado de chefe de Estado, Paulo VI haveria também de se imiscuir na passagem do regime ditatorial espanhol para a democracia, tudo tendo feito para convencer a hierarquia da poderosa igreja espanhola a alinhar com a tentação democratizante do rei Juan Carlos. O que de algum modo conseguiu, mas não muito.

João Paulo II

No âmago do difícil tema das aparições marianas – há um registo oficioso de várias centenas de aparições, mas o Vaticano considera que apenas cerca de 30 têm fundamento suficiente para serem consideradas –, Fátima, em 1917, parece ser um dos muito poucos exemplos em que a mãe de Cristo cedeu à tentação de abordar temas de geopolítica: o chamado terceiro segredo de Fátima, o mais mal guardado de todos os segredos, seria a predição do regresso da Rússia comunista ao seio dos crentes. Ora, verdadeiro ou não, esse pequeno pormenor inscrevia a Cova da Iria num quadro mais geral de uma das mais óbvias opções políticas do papa polaco: a luta contra o mundo comunista e o apoio pró-ativo ao derrube da nomenclatura moscovita. Profundamente católico – apesar das ‘ameaças’ protestantes a sul e ortodoxas a leste – o povo polaco descobriu em Portugal uma fraternidade transfronteiriça que, dizem alguns observadores, ajudou ao desanuviamento iniciado num canto obscuro de uns estaleiros da cidade de Gdansk.

À margem destes acontecimentos, a presença de João Paulo II em Fátima acabaria por repetir-se duas vezes – esteve ali em maio de 1982, de 1991 e de 2000 – transformando o pontífice numa espécie de peregrino habitual como possivelmente não haverá outro (no que tem a ver com chefes do Estado do Vaticano). Uma presença muito pouco ortodoxa – muito mais virada para o contacto fraterno e pessoal com os outros homens e mulheres que, como ele, eram peregrinos, e muito menos como alguém sentado em cima de um palanque. Não é por acaso que, pelo menos em Portugal, João Paulo II é conhecido como o ‘Papa de Fátima’, onde veio pela primeira vez para agradecer o benefício de ter escapado a um atentado – há quem afirme que o tal terceiro segredo seria a predição do atentado –, a segunda como ponto de passagem para uma presença que alargou a Lisboa, Madeira e Açores, e a terceira para tornar beatos dois dos videntes.

Bento XVI

Bem menos galvanizador de multidões, bem menos convencido que a interação com os crentes precisa de ser uma coisa quase física, bem menos predisposto a aceitar a religião popular (por vezes, mesmo ao cabo de quase 2.000 anos, tão próxima do paganismo) como um suporte da erudição do pensamento, o Papa Bento XVI esteve em Portugal num registo que não tinha nada a ver com o do seu antecessor.

Nem podia ser de outro modo: o olhar de Bento XVI sobre o fenómeno das aparições é o resultado da centrifugação do registo tradicional do que ali se terá passado em sucessivos dias 13 de vários meses do ano de 1917 no crivo muito mais estreito do pensamento abstrato. O comentário teológico que Bento XVI escreveu sobre Fátima quando ainda era apenas cardeal estará por certo, para os crentes fervorosos na versão milagreira, muito próximo da heresia. E, contudo, esse comentário consegue inesperadamente a quadratura do círculo: subtrai o fenómeno ao campo da crendice e legitima-o num quadro de experiência transcendente, íntima e intelectual, ao mesmo tempo fecunda e indesmentível.

Definitivamente, não é esse o registo que está na mente da esmagadora maioria dos peregrinos que por esta hora estão em Fátima ou a caminho dela, mas isso será também a mais pequena das suas preocupações: a presença de um papa na Cova da Iria é sempre um acontecimento.

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