“Os médicos não são super-homens”. Bastonário critica contraproposta “ofensiva” do Governo

Miguel Guimarães defende que "não há nenhuma profissão que tenha uma atividade tão complexa como esta" e que "uma das ideias mais erradas que se pode ter" é a de que os médicos são uns privilegiados.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, critica a contraproposta apresentada pelo Governo às reivindicações dos sindicatos, dizendo-se “ofendido” com o documento e acreditando que “o ministro da Saúde não está a ser sério”. Em entrevista ao jornal ‘Público’, Miguel Guimarães sublinha que os “médicos não são super-homens” e que a Ordem vai apoiar uma nova greve dos sindicatos para reclamar melhores condições de trabalho para a profissão.

“É natural que a Ordem venha a apoiar os médicos que façam greve”, admite o bastonário, depois de o Executivo de António Costa ter proposto que os profissionais com mais de 55 anos passem a fazer urgências e não ter aceite ceder à redução da carga horária dos médicos nos serviços de urgência.

“O ministro da Saúde não está a ser sério. Em março, ele disse na Assembleia da República que estava a pensar aumentar em alguns meses a idade de dispensa dos médicos nas urgências”, lembra o bastonário. “Numa altura em que estes são brutalmente explorados e pressionados pelas administrações dos hospitais ou pelas direções dos ACES [agrupamentos de centros de saúde], em que a responsabilidade não pára de aumentar, dizer que podem trabalhar na urgência em idades mais avançadas é uma proposta inaceitável.

Miguel Guimarães defende que “não há nenhuma profissão que tenha uma atividade tão complexa como esta” e que “uma das ideias mais erradas que se pode ter” é a de que os médicos são uns privilegiados. O bastonário considera que a profissão “deveria ser considerada de alto risco e desgaste rápido, como já acontece noutros países da Europa” e deveria ser dada aos médicos “uma reforma precoce, ou incentivos especiais, ou, a partir de certa idade, trabalhar menos horas”.

“As pessoas têm a ideia de que os médicos são super-homens e não são”, reitera.

O Governo indica que o salário dos médicos aumentou entre 15 e 20% nos dois anos desta legislatura, mais do que em qualquer outro grupo profissional da Administração Pública. “Isso não é verdade”, assegura o bastonário. “Os médicos, tal como a maioria dos portugueses, foram ‘roubados’. Estes supostos aumentos correspondem apenas a uma reposição parcial do valor do trabalho”.

A próxima reunião entre as duas partes está marcada para esta sexta-feira, no Ministério das Finanças. O Governo garante estar disponível para reduzir a carga horária de 200 horas para 150 horas por ano de trabalho suplementar mas, a acontecer, será de forma faseada até 2021.





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