Os limites do ‘britaway’

Os britânicos vão ter de compreender que serão cobaias no processo de abandono e os que ficam vão ter de encontrar o máximo denominador comum que tem faltado à integração europeia.

O ato simbólico do acionamento do artigo 50 do Tratado de Lisboa pelo governo britânico constitui uma imagem forte de abandono de um projeto conjuntivo, mais em nome do populismo primário do que do nacionalismo bacoco.

Quando Cameron propôs o referendo para travar os populistas não pensou nas dores que criava não apenas nos parceiros europeus, mas nos próprios britânicos, a ponto de por novamente na agenda a questão do referendo relativo à independência da Escócia.

Dizem alguns que não se trata de divórcio mas de diferente futuro relacionamento, de grande proximidade, mesmo que platónico. O que se dirá dos britânicos europeístas que se obrigaram a realizar o contrário do que pensam porque assim o referendo o determinou? A democracia continuará pujante no Reino Unido e os britânicos mais de costas voltadas para a Europa da qual fazem parte geográfica, histórica e culturalmente.

O processo de negociação que se abriu com a declaração agora emitida fica para a história. E, ao contrário do que alguns pensam, será mais duro e difícil apesar de todos desejarem que as boas relações dos 27 estados membros que se mantenham com o Reino Unido – como país amigo, como parceiro económico e como membro integrante de alianças vitais para a Europa, como a NATO, OCDE, OSCE, entre outras.

Os britânicos vão ter de compreender que serão cobaias no processo de abandono, exemplo para os que querem mais e sofredores das consequências de mudanças estruturais na europa unida. Aqui não vale o conceito de um pé dentro, um pé fora.

Os que ficam vão ter de encontrar o máximo denominador comum que tem faltado à integração europeia. Não foi a burocracia ou os processos de decisão que afastaram o Reino Unido. Foi o excesso da ideia de federalismo e a perda de referências históricas, a par da incapacidade de resolver crises em tempo real. Os populistas apenas aproveitaram – como sempre – as debilidades do sistema para o tentar destruir.

Cabe agora aos europeus mostrar firmeza na reconstrução. Ninguém pode negar que este processo vai deixar marcas profundas para os relacionamentos futuros.

Não vamos acelerar processos de integração, nem vamos criar soluções a duas ou mais velocidades, caso em que termos países a crescer mais e os outros a perder espaço e desenvolvimento numa espiral autodestrutiva.

Os 27 têm tanto ainda a consolidar que não se podem dar ao luxo de prescindir de nenhum dos outros estados. Reclamar o espaço do sul pode ser relevante do ponto de vista nacional, mas potencia a união dos países de leste, contra os do centro ou do norte. A europa não se (re)constrói na criação de clubes internos.



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