Oitante conseguiu gerar lucro e já reduziu 25% da dívida

Sociedade veículo, que concentra os ativos bancários do antigo Banif que ficaram de fora da venda ao Santander, fechou 2016 com lucro de 11,4 milhões de euros. E conta pagar toda a dívida até 2021.

Cristina Bernardo

A Oitante, sociedade que ficou com os ativos bancários do antigo Banif que não passou para o Santander Totta, teve um início atribulado. Nos primeiros meses, não existia dinheiro suficiente para pagar os salários dos funcionários, mas em 2016 a sociedade já gerou liquidez para reduzir significativamente a dívida e gerar um lucro de 11,4 milhões de euros, disse ao Jornal Económico o presidente da Oitante, Miguel Artiaga Barbosa.

“De 2015 até ao final de 2017, conseguimos reduzir 25% da dívida da Oitante. Se conseguirmos cumprir o nosso business plan, que tem um horizonte de cinco anos mas pode ser prolongado, poderemos conseguir pagar a totalidade da dívida em 2021”, disse o gestor que está à frente desta sociedade que pertence ao Fundo de Resolução, estando por isso inserida na esfera pública. Acrescentou: “E talvez até pagar um dividendo extraordinário ao nosso acionista”.

A redução da dívida da Oitante nos últimos dois anos foi possível devido a uma estratégia que tem passado pela venda de ativos – subsidiárias, imobiliário e Non Performing Loans (NPL) -, juntamente com a redução dos custos operacionais,  para gerar liquidez.

No final de 2015, altura em que a Oitante foi criada na sequência da resolução do Banif, a dívida ascendia a 794 milhões de euros, dos quais 746 milhões diziam respeito a obrigações. No final de 2016 a dívida total era de 701 milhões de euros e em 2017 este esforço de redução prosseguiu, disse ainda.

A dívida da Oitante tem uma maturidade média de 10 anos, com um custo de 3%, o que representa 18 milhões de euros por ano. “Vamos procurar refinanciar a dívida, para reduzir o custo”, disse ainda o presidente da Oitante, lembrando que o pagamento da dívida está a ser feito exclusivamente com meios próprios.

A empresa fechou recentemente as contas de 2016, cumprindo as finalidades que se aplicam às instituições públicas. “A situação da empresa está normalizada e as contas de 2017 já serão apresentadas no calendário normal”, disse.

Programas de rescisões abrangeram 355 funcionários

A redução de custos passou em parte pela saída de 355 dos 449 funcionários que a Oitante tinha quando se separou do Banif, em dezembro de 2015.

“A equipa que tínhamos nessa altura era demasiado grande e não estava vocacionada para a atividade da Oitante”, explicou Miguel Artiaga Barbosa. Eram pessoas que trabalhavam na banca e que, de repente, viram o seu mundo desabar com a resolução do Banif. Não fazendo parte das áreas de negócio que foram vendidas ao Santander, essas largas centenas de funcionários do antigo império do comendador Horácio Roque tiveram de passar a trabalhar numa empresa que tem como missão gerir ativos para mais tarde os liquidar, após maximizar o seu valor.

“É completamente diferente de trabalhar num banco comercial e foi uma situação muito difícil do ponto de vista psicológico”, disse Tiago Santos, membro do conselho de administração da Oitante, também presente na conversa com o Jornal Económico.

Para reduzir o número de pessoal, em 2016 e 2017, a Oitante realizou dois processos de rescisão por mútuo acordo, com ajuda de um psicólogo especializado nesta área e mantendo o diálogo com a estrutura representativa dos trabalhadores. No segundo programa de rescisões, de adesão voluntária, a empresa pagou aos funcionários um valor correspondente a dois ordenados por cada ano de trabalho, dando também direito a SAMS, tal como defendera a comissão de trabalhadores.

“Quisemos fazer isto de forma correta e o menos dolorosa possível, de maneira a que as pessoas possam continuar a sua vida profissional no setor financeiro ou noutras áreas que prefiram”, defendeu Miguel Artiaga Barbosa.

A redução de custos deu-se também com a renegociação ou rescisão de contratos com fornecedores e com a centralização da atividade da sociedade em dois espaços, em Lisboa e Porto. “Reduzimos a área ocupada em 79% e baixamos os custos com instalações em 92%”, explicou Miguel Artiaga Barbosa, acrescentando que os edifícios que passaram a estar desocupados foram colocados no mercado, incluindo o prédio na Avenida José Malhoa, em Lisboa, cuja venda está a ser negociada.

Desconto nos imóveis vendidos foi de 8% face ao net book value

A venda de ativos é, de resto, um eixo fundamental da estratégia da administração da Oitante. No início, a empresa foi inundada de propostas de compra de imobiliário com haircuts de 66%, a mesma percentagem que o Banco de Portugal impusera na resolução do Banif. “Tivemos de dizer a esses interessados que não venderíamos ao desbarato”, disse o gestor, acrescentando que até à data o património imobiliário que foi vendido, no valor de 250 milhões de euros, não sofreu descontos significativos, porque a Oitante tem sido criteriosa nessas vendas e o mercado imobiliário tem estado em alta. Em termos médios, o desconto foi de 8% face ao net book value das contas do Banif de 2015. Mas com um prémio de 12% face ao net book value que figura nas contas da Oitante.

Também a venda de subsidiárias está a avançar, como é o caso do Banif Banco de Investimento, que está a aguardar luz verde do supervisor europeu, devido a uma questão processual que tem de ser cumprida pelo comprador, o grupo chinês Bison.

Com a venda de imóveis, carteiras de NPL e subsidiárias, a Oitante logrou reduzir o balanço em 28%, face aos 2,2 mil milhões de euros que contabilizava em 2015.

 

(Entrevista publicada na edição de 23 de março)




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