“O uso da inteligência artificial poderá beneficiar a sociedade”

Manuela Veloso, head of The Machine Learning Department @ Carnegie Mellon University e co-fundadora da RoboCup, explicou ao Jornal Económico a importância da interação entre o ser humano e a inteligência artificial e os benefícios práticos que trará, por exemplo, em áreas como a saúde.

As potencialidades e ameaças da Inteligência Artificial são controversas, mas a questão que se coloca atualmente é se compreendemos bem o que é a IA e o quão avançado se encontra o seu desenvolvimento. A professora Manuela Veloso desenvolveu várias gerações de robôs autónomos, ao longo de mais de duas décadas, entre os quais os CoBot – robôs com capacidade de aprender e interagir com os seres humanos e de explicar as suas experiências na nossa linguagem.

No Business Transformation Summit 2017, que, ontem, decorreu no Centro de Congressos Lagoas Park, por iniciativa da CEGOC Portugal, abordou de que forma podemos tirar partido da nossa complementaridade com a inteligência artificial em termos de perceção, cognição e atuação, adquirindo competências para melhor interagir e lidar com ela. Manuela Veloso foi responsável pelo LAB#2 – sob o mote de Machine Learning – e de que forma a IA pode aumentar a sua capacidade de prever e tomar decisões.

 

Onde nos conduzirá a interação entre o homem e a inteligência artificial?

Creio que o uso da inteligência artificial (IA) poderá beneficiar a sociedade de uma forma prática e nas interações que promove. Todas as nossas atividades acumulam e traduzem-se em cada vez mais dados e em dados de toda a espécie – sejam eles vídeos, imagens, dados alusivos ao clima, etc., existindo uma quantidade de dados que estão disponíveis e computadorizados, o que permite que a IA seja bastante viável no tratamento e processamento dessa informação. E isso, essa interação pode ser canalizada para benefício de todos, gerando novas oportunidades.

 

Como vai essa interação impactar o futuro da humanidade?

Tudo o que tenha a ver com o aspeto diário das nossas vidas é ilimitado. Podemos mencionar áreas como a saúde, o clima, a energia – áreas relacionadas com a vida nas cidades, a agricultura, o espaço – a investigação de ambientes que são inacessíveis aos humanos – como o espaço. Todo o espectro de problemáticas que a sociedade enfrenta, permitindo cobrir toda a gama de áreas com que a sociedade tem de lidar. Estamos longe do potencial em que a IA nos pode ajudar.

 

De que forma pode o homem tirar partido da complementaridade com a inteligência artificial?

A IA pode ajudar os humanos no seu dia a dia, criando uma boa interação entre humanos e Inteligência Artificial, permitindo desafios e projetos no mundo da ciência do ponto de vista dos humanos ensinarem os robots e os robots pedirem ajuda aos humanos para o fazer. Quando interagimos com a IA, queremos ter mais aplicações e máquinas mais transparentes, sendo por isso fundamental a relação entre os humanos e a IA. O digital e o físico e a parte da relação com os humanos e a transparência, são quatro campos fundamentais.

 

Em que medida pode a inteligência artificial aumentar a sua capacidade de prever e tomar decisões?

As pessoas deviam tentar perceber mais o que é a Inteligência Artificial. O problema de combinar informação que está escrita em textos, imagens, som, mergulhar num espectro de técnicas que permitam sonhar com coisas que antes, no passado, não era possível. Imagine o que seria um médico ter acesso a informação de uma determinada patologia e ter acesso a casos clínicos do mundo inteiro, cruzar essa informação de uma forma abrangente, permitindo-lhe sonhar que vai descobrir um caso difícil de saúde de uma pessoa pois, por exemplo, na recôndita Austrália há um caso semelhante, que por acaso está digitalizado num computador e ao qual se tem acesso. É como o ditado “descobrir uma agulha num palheiro”, esta oportunidade. Por isso, a IA permite explorar mais oportunidades perante a realidade que temos.

 

Na sua perspetiva, as empresas portuguesas têm competências digitais suficientes para se ajustarem a este novo paradigma?

Não posso responder a essa questão porque não vivo em Portugal há mais de 30 anos. Logo, tudo o que eu disser será um pouco especulativo, porque na realidade, não acompanho com rigor o panorama tecnológico nacional. Esta pergunta merecia uma resposta de sim ou não seguida de uma explicação contextualizada, algo que não me atrevo a fazer porque não tenho esse conhecimento. Por outro lado, acho que esta pergunta acaba por ser um pouco faciosa, porque as grandes companhias – como uma Google, por exemplo, ou uma universidade – nem sempre têm de ter essa tecnologia ‘in house’, na própria empresa, podem ir busca-la à cloud, onde se encontram diversos serviços computacionais que vão ao encontro das suas necessidades. Logo, mesmo que a empresa não disponha de tecnologia suficiente, há muitas maneiras de se conseguir chegar a essa tecnologia através da informação que está na cloud e que será sempre mais atualizada. Para além disso, as grandes empresas também se reservam muito ao seu direito de confidencialidade quando abordadas sobre este temas, logo, são poucas as que assumem que não têm essas competências digitais suficientes.

 




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