“O retorno de capitais em Portugal está muito aquém”

Ao analisar o setor segurador, a PwC não tem dúvidas de que o futuro dos atuais players passa apenas por dois caminhos: o da consolidação ou o de abandono do mercado nacional.

Como descreve a evolução do setor em Portugal nos últimos anos e particularmente neste último, tendo em conta a nova realidade regulatória?
Ao analisarmos o setor, e porque são negócios distintos, é fundamental separar os ramos Não Vida e o ramo Vida. O ramo Vida está muito ligado à banca, o seu canal de distribuição, já os ramos Não Vida estão ligados a mediadores, agentes e corretores. O negócio Não Vida está muito correlacionado com o crescimento da economia, nomeadamente o PIB.

Ora, se tivemos contrações em período de recessão e recentemente crescimentos anémicos é natural que o negócio Não Vida tenha crescido de forma muito contraída, com um crescimento reduzido. Esta realidade foi contrariada em 2016, altura em que o regulador interveio, como resultado de um dos ramos – o seguro obrigatório para Acidentes de Trabalho – estar deficitário. Basicamente, os seguradores estavam a perder dinheiro. Contudo, muitas vezes prevalece o interesse comercial no sentido em que perder dinheiro num seguro pode permitir reter o cliente e, eventualmente, estar a ganhar dinheiro num outro tipo de coberturas. Em 2016, estes ramos cresceram 12%, a par de um crescimento económico de 1,6%, mas porque houve intervenção do regulador relativamente ao pricing, nomeadamente nos seguros de Acidentes de Trabalho. Nos últimos anos, acresce um outro problema: o número muito significativo de seguradores, para o mercado que temos, a operar nos ramos reais. Isto é empírico mas também é fruto daquilo que tenho lido. José Galamba de Oliveira (presidente da APS – Associação Portuguesa de Seguradores) refere, numa entrevista recente, com base em estudos que fez, que o retorno dos capitais em Portugal está muito aquém do que conseguem os seguradores em Espanha, Itália ou em França. Portanto, isto só tem dois caminhos: o da consolidação para quem decidir ficar, e o da saída, para quem acuse o peso deste contexto de retorno de capitais muito baixo. É por isso natural que haja esta consolidação e provavelmente existem grupos com apetência para comprar. Eu diria mesmo que há uma tendência em função deste crescimento económico anémico e destes retornos dos capitais reduzidos para haver concentração no setor, nomeadamente nos ramos reais. O crescimento estará muito alinhado com o crescimento económico, a não ser que os seguradores procurem outros mercados, mas tendo em conta que temos poucos de capitais portugueses e a maioria são internacionais, não deverão apostar noutros mercados, deixando essa aposta para as casas-mãe. Eventualmente, podem partir de Portugal para mercados como Angola (que neste momento não está com um outlook favorável) ou Moçambique (Cabo Verde é um mercado muito pequeno).

E do Ramo Vida, que leitura é então possível fazer?
No ramo Vida o negócio é completamente diferente. Temos dois tipos de produtos: capitalização, que competem com os produtos bancários e que têm muito potencial porque a população portuguesa está a ficar envelhecida e as pessoas, com o pouco rendimento disponível que têm, tendem a incrementar o nível de poupança face às reformas da Segurança Social que tendem a decrescer; os seguros de capitalização decresceram bastante em 2016, espelhando o regime de Solvência II e a ausência de aposta em produtos com taxas garantidas, dado que exigem algum capital, mais do que exigem os produtos que não têm taxas garantidas. Julgo que, a médio prazo, os seguradores vão comercializar produtos com taxas garantidas de zero e vão investir em instrumentos financeiros de mercado para poder depois gerar retorno e entregar participações nos resultados atrativas. Num cenário de taxas de juro baixas, como o que vivemos, não é possível prometer taxas altas a médio e longo prazo. Mas há aqui, de facto, uma oportunidade por causa das dificuldades da Segurança Social. Esta será uma área importante para o país porque os seguradores, nomeadamente do ramo Vida, são um grande instrumento de aplicação de investimento e financiamento das empresas. Agora, com um mercado mais aberto, os seguradores já investem a uma escala europeia e a dívida que têm não é só dívida do Governo português, nem dívida de entidades nacionais, mas também dívidas de entidades internacionais. Por outro lado, com os seguros de risco, puros, aqueles que pagam capital em caso de morte, a evolução poderá ser mais difícil já que estarão intrinsecamente ligados ao maior ou menor dinamismo do crédito de habitação e consumo e ao reavivar da economia. Se a economia e o rendimento disponível das pessoas melhorarem é natural que volte a haver um crescimento no crédito da habitação e nos seguros de capitais por morte mas, per se, é muito difícil que um português, com o rendimento disponível que tem, venha a fazer um seguro de vida para deixar algum benefício para a família. Só uma minoria é que o faz. Mas estes são os seguros mais rentáveis para as companhias do ramo Vida, são muito mais rentáveis que os produtos financeiros.

Concorda com o supervisor quando este define o setor como “mais resiliente que outros, nomeadamente a banca”?
Sim. Se não me falha a memória, não tivemos seguradores intervencionados. Tivemos o caso do Novo Banco, que foi intervencionado, e o Banif. Não quer dizer que não tenhamos tido seguradores com dificuldades. O regulador tem tido um papel ativo e poderá ter intervindo nos casos em que os grupos financeiros tiveram problemas de solvência, nos grupos financeiros em que os bancos tinham grande preponderância. Estou a falar do Grupo Espírito Santo, Banif e BPN. Grupos que também tinham seguradoras: a Tranquilidade e a BES Vida; o Banif e a Açoreana, e no caso do BPN, a Real Seguros, depois adquirida pela Lusitânia. O regulador poderá ter tido alguma intervenção na monotorização destes casos.
Sobre o Solvência II, quais são os pontos mais complicados? De que forma podem os seguradores proteger-se e adaptar-se?
É um modelo muito similar ao modelo de cálculo de capital de banca. É um modelo que entra com a quantificação de riscos, neste caso temos uma fórmula standard, mas que permite que os seguradores possam enveredar por modelos internos. Envolve cálculos algo complexos, porque é difícil mensurar, quantificar riscos quando falamos em risco operacional (risco de o sistema interno falhar) ou em risco de mercados, que tem depois várias componentes (risco de taxa de juro, spread, cambial). Quando entramos em modelos para calcular capital, os modelos são falíveis e envolvem uma série de pressupostos e de variáveis, e não é fácil estimar, com algum grau de precisão, o capital ótimo exigido à atividade. E é um modelo mais complexo do que o modelo de Solvência I que era mais objetivo.

Este é um processo de aprendizagem para todos e, no âmbito dos fóruns adequados, os seguradores devem, dentro do possível, discutir as dificuldades que têm para que se possa ir evoluindo na aprendizagem. Mas devem também dotar-se de quadros adequados, com capacidade em matemáticas financeiras e gestão do risco que possam dar resposta a esta complexidade. Desde 1 de janeiro de 2016, com as novas regras, as companhias têm que ter, nas suas políticas de gestão de risco e gestão de capital, e em todo o novo negócio que fizerem, uma grande sensibilidade ao risco. E tentar que os requisitos de capital sejam o menos voláteis possível. Há uma equação de Solvência II que é fundamental: a rentabilidade dos produtos tem de ser superior aos custos de capital dos acionistas.

Quando o segurador planeia a comercialização de um novo produto tem de ter um processo interno que seja capaz de transmitir aos gestores qual o valor do capital que está afeto, ou seja, quanto é que esse produto vai custar e qual o seu retorno, para que seja possível comparar o retorno com o capital e ver se em termos percentuais se justifica investir. Este é um processo que tem que ser feito e, nesta perspetiva, é um modelo mais sustentável. Se os gestores não estiverem focados apenas no curto prazo e também se focarem na sustentabilidade do negócio, o objetivo do Solvência II concretiza-se: estará assegurada a proteção do tomador de seguro e dos stakeholders das companhias de seguro.

Os seguradores continuarão a comercializar em função das necessidades percebidas no mercado, de forma a minimizar a necessidade de capital. O capital será determinado em função dos riscos também percebidos.

PUB
PUB
PUB