O regresso do jornalismo

Está na altura de não se perder tempo com o assessório e construir uma agenda jornalística independente da agenda político-partidária, que tudo contamina.

A comunicação social tornou-se uma montra fiel do país que fomos admitindo ser nas últimas décadas, minado pela corrupção e pelo tráfico de influências.

O meu ponto, hoje, é celebrar o que parece ser o regresso do jornalismo, mesmo que ainda tímido, do orgulho pelo exercício da profissão, que chegou a estar em minoria no seu habitat natural.

A certa altura, não muito distante no tempo, pareceu-me que o meio estaria irremediavelmente condenado a ser colonizado por interesses vários, e todos eles lesivos do interesse dos demais cidadãos.

Os diversos títulos, mais uns que outros, viam chegar os ‘jornalistas’ com agenda, os operacionais dos costumes, os tarefeiros avençados, os opinadores com partido, os militantes de causas fraturantes, todos eles soldados que nunca diriam que não ao seu general.

Resultava sobre-humano lutar contra o fenómeno porque o capital social de alguns títulos tinha sido mesmo constituído para servir os partidos, a maçonaria, os lóbis, os negócios, o dinheiro suspeito, os interesses dos bancos, uma chusma de gente, de géneros diferentes e alguns indefinidos, com interesses vários e que tinha como objetivo minar aquela que deveria ser a principal missão da profissão: informar, informar, informar.

O caso de José Sócrates, para além de outras doenças, reflete tudo isso. De um lado, durante alguns anos, às vezes com erros e excessos, estiveram jornalistas. Do outro, sempre a desvalorizar, a contra-informar, acotovelaram-se indivíduos das mais exóticas proveniências, de comentadores políticos com agenda (dou o exemplo gritante do ex-bloquista Daniel Oliveira, mas há mais) a sofridos escritores de banalidades entendidas como interessantes. Jornais, rádios e televisões estão cheios desta gente.

É por isso que, por exemplo, na TSF pode ouvir-se o ‘patrão’ Proença de Carvalho (grande amigo de José Sócrates e seu ex-advogado, como de Ricardo Salgado – uma coincidência…) a debater com Luis Montenegro ou Carlos César, todos apresentados como grandes senadores do regime (o que, bem vistas as coisas, não deixa de ser uma grande verdade). Que na TVI já pudemos ter Sócrates a comentar eleições e Miguel Relvas a discorrer sobre o melhor para o futuro do PSD e de Portugal. Que, nos canais de notícias no cabo, a informação se adapte aos frente-a-frente partidários, absolutamente desinteressantes a não ser quando servem os desígnios de algo bem programado, como foi o recente exorcismo promovido pelo PS, que apanhou António Costa, coitado, desprevenido e surpreso algures no Canadá.

Está na altura, porque também desta crise sobressaíram novos jornalistas com qualidade e novos órgãos de comunicação social, que tornaram ainda mais obsoletos os decrépitos canais do regime, de não se perder tempo com o assessório e construir uma agenda jornalística independente da agenda político-partidária, que tudo contamina.

O verdadeiro jornalismo tem a obrigação de não perder mais tempo com textos cor de rosa. Deve, por exemplo,  colocar na agenda o repto lançado esta semana pelo Presidente da República, porque este faz todo o sentido: discutir uma Justiça adaptada aos novos tempos. Insisto: é normal que Armando Vara passe férias em Angola enquanto goza do excesso de garantias que o regime criou para os seus? Devemos continuar a desprezar mecanismos interessantes de combate à criminalidade organizada, seja esta habitual do pelourinho da aldeia ou dos salões do sistema, como, por exemplo, o estatuto do arrependido? E outras, e outras.

Vamos lá, então, discutir o importante e dar força a um jornalismo que de novo sirva a comunidade.




Mais notícias