Relvas oleou a máquina e conseguiu mobilizá-la como ninguém, criou o candidato, credibilizou-o e catapultou-o a líder. Resta saber o gás que ainda tem para dar nas diretas do PSD.

Pedro Passos Coelho ascendeu à liderança do PSD sobre as ruínas do “menezismo” que ajudou a derribar. Miguel Relvas seria, no entanto, o Geppetto que esculpiria o candidato a primeiro-ministro afastado há anos da política. Relvas começou por convencer Passos a disputar o PSD contra Luís Filipe Menezes, mostrando internamente uma “nova orientação estratégica”. Mas a queda de Menezes, que viria a ocorrer no início de abril de 2008, não daria ainda a Passos a oportunidade para assumir o partido.

Relvas seria o pivot da operação que levaria mais tarde Passos à liderança, trabalhando incansavelmente durante dois anos no sentido de criar um candidato forte e consistente, descolando-o da imagem do pueril líder juvenil. A juventude partidária da qual saíra Passos estava mal vista, enxameada de boys a viverem dos cargos públicos sem formação nem cursos acabados e, por isso, era altura de lhe criar uma nova identidade política e uma nova persona. Mas Relvas não controlava tudo e Passos acabaria por perder nas diretas de maio de 2008 para Manuela Ferreira Leite.

A criação de um think-tank foi a partir daqui essencial para rivalizar com o gabinete oficial do partido. Passos teria que ganhar lastro. Era necessário criar uma nova ideologia com base de sustentação. Mas se a densificação do político era essencial, o marketing que o vendesse tornou-se decisivo. Passos começou a usar fatos à medida e gravatas lisas, o que lhe melhorou a imagem na TV. Relvas influenciou o mood e o sentimento dos jornais, mas conseguiu também efeitos virais nas redes sociais: Facebook, Twitter, vídeos no You Tube e blogues de sucesso como o “Albergue Espanhol”. Daqui à conquista de opinion makers foi um breve passo.

Relvas não daria tréguas e fez milhares de quilómetros pelo país para convencer as estruturas locais. Os militantes seriam depois arrastados pelos caciques construídos por ele e a partir daqui a eleição de Passos estava garantida. A vitória interna como líder em março de 2010 dar-lhe-ia o passaporte para suceder a Sócrates em junho de 2011 como primeiro-ministro de Portugal. Mas, sem Relvas, nada disto teria sido possível e após o escândalo da licenciatura, em junho de 2013, reclamaria para si, no discurso da sua saída, os créditos atribuídos a Passos. Oleou a máquina e conseguiu mobilizá-la como ninguém, criou o candidato, credibilizou-o e catapultou-o a líder. Resta saber agora o gás que ainda tem para dar nas diretas do PSD de janeiro do próximo ano. Santana aguarda-o e Rio teme-o. Embora Relvas já não goze da influência que tinha, ainda pode virar o xadrez político e os dois candidatos sabem disso. Aguardemo-lo nos bastidores!



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