A classe jornalística tem sido, a par dos bancários, um dos principais alvos da crise económica, com o decretamento de sucessivos despedimentos coletivos.

Embora não tenha merecido grande atenção por parte dos órgãos de comunicação, ainda presos à tragédia de Pedrógão, os Trabalhadores da Lusa apresentaram um protesto por via das condições de trabalho a que estão sujeitos, ao que acresce a cíclica falta de financiamento daquela, devido à particular circunstância de parte dos seus accionistas ser, também, os seus clientes. Por outro lado, à semelhança do que já sucedeu com a Caixa Geral de Depósitos, a Lusa tem sido o repositório de muitos jornalistas dos grupos empresariais, os quais, por uns motivos ou por outros, importa, apesar de tudo, não despedir. Daí que a mesma entidade que pretende cortes de 10% com custos de pessoal tenha visto reforçado o seu quadro, com directores e sub-directores, bastas vezes com parca equipa para chefiarem, transformando-se numa imensa “prateleira dourada” onde há espaço para todos, excepto para os que lá, efectivamente, trabalham.

É usual anunciar que a Comunicação Social é o quarto poder. Contudo, o que me parece mais correcto é dizer-se que não são propriamente os jornalistas os seus detentores mas, sempre, os grupos económicos, alguns deles com objectivos que são, no mínimo, questionáveis e cuja única explicação é a de manter no seu seio instrumentos de formatação da “opinião pública”. Ora, um leitor minimamente atento consegue perceber de que lado da barricada se encontra cada um dos jornais ou canais de televisão, resultando fácil encontrar as notícias mais convenientes a cada um deles.  Por outro lado, parece-me importante que se diga que a classe jornalística tem sido, a par dos bancários, um dos principais alvos da crise económica, com o decretamento de sucessivos despedimentos colectivos (quando não mesmo confrontados com insolvências duvidosas e salários em atraso…) e, amiúde, com a substituição de jornalistas de craveira e com grande independência por estagiários, atirados para o público como “carne para canhão” e animados por uma vontade extrema de agradar ao “patrão”.

Pior do que ver Judite de Sousa ao lado de um corpo parece-me, por exemplo, ninguém noticiar o número exacto de mortos, antes se limitando ao inicial, no mesmo transe que se avançam explicações mais ou menos esotéricas para o sucedido em Pedrógão, escamoteando-se, entre outros, que durante horas a combater aquele fogo estiveram apenas cinco homens e um carro. Pior do que ter de ler entrevistas em que se justifica a manutenção da ministra com uma qualquer “lição” que precisamos de reter, é perceber a dança de cadeiras nos responsáveis pelo combate a incêndios, com profissionais experientes substituídos por miúdos, por vezes licenciados em lazer (seja lá o que isso for…). Com exclusão da RTP, honra lhe seja feita neste particular, a maior parte dos órgãos de comunicação social tem-se mantido no imediatismo e no folclore, a que se soma também agora a cobertura dada ao assalto em Tancos, episódio que, segundo a mesma lição que nos é dada, apenas responsabiliza chefias intermédias, mas que nos transformou numa imensa anedota. E, de anedota em anedota, o que é certo é que somos inundados de pretensas notícias mas, muito poucas, com trabalho de investigação e, menos ainda, com a profundidade desejável.

A ideia de a Comunicação Social ser o quarto poder assenta na sua pretensa liberdade de investigação e na independência dos corpos de redacção. Alguém acredita que ambas se verifiquem actualmente, quando o espectro do despedimento ameaça tantos dos seus profissionais?

(Em movimento de contra vapor: o meu agradecimento ao Económico, que nunca me condicionou mesmo quando sei que discorda de quase tudo o que escrevo).

A autora escreve segundo a antiga ortografia.

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