A Europa que tenta regular a economia digital de todas as formas possíveis é a Europa que vai continuar a ver passar o navio da inovação.

Quem procura por “ponto G” no Google quer saber uma coisa: como encontrá-lo. E o Google dá a resposta instantaneamente, nos primeiros lugares da lista de resultados. Se a pesquisa for feita no Google News, o primeiro link é igualmente útil: “6 dicas de como agir”, dadas pelo Manual do Homem Moderno. Já o Google Maps não guia o utilizador ao spot lendário, mas diz-lhe que há um GSpot party hostel em Lisboa, sito na Travessa do Fala-Só, onde as dicas podem ser úteis para não se ser um falo só, perdão, um fala-só.

Quem, por estes dias, procura por “2,4 mil milhões” quer receber toda a informação sobre a badalada coima aplicada pela Comissão Europeia à Google. Disse a Comissão que a Google abusou da sua posição dominante no mercado de motores de busca, ao disponibilizar o serviço Google Shopping no topo da lista de resultados de pesquisas por produtos e, portanto, acima dos serviços concorrentes.

A decisão é, no mínimo, contraintuitiva. Vejamos. Aquilo que o utilizador de um motor de busca quer são respostas rápidas, úteis e completas. Se procurar por “flamingo insuflável” no Google é porque provavelmente quer comprar um para a festa na piscina deste fim-de-semana. E o Google Shopping dá-lhe tudo aquilo de que precisa: preços, fotos e avaliações de flamingos vários. Mas o que a Comissão acha é que o utilizador não está a ver bem a coisa. Dar ao utilizador respostas rápidas, úteis e completas é, na verdade, prejudicial para o utilizador, porque – palavras da comissária responsável pelo caso – priva-o dos “benefícios da concorrência”. Como se quem não gosta das bóias apresentadas no Google Shopping não pudesse facilmente descer na lista de resultados e visitar a Amazon, o eBay ou o AliExpress (que, convenhamos, não se andam a sair mal no mercado das compras online).

O valor da coima, a mais alta alguma vez aplicada por Bruxelas, tem dominado as atenções. Para se ter uma ideia, 2,4 mil milhões de euros é um montante superior ao do Orçamento da Defesa do Estado Português para 2017 (fosse de 2,4, em vez de 2,1, e as vedações talvez não tivessem buracos). Mas o significado da decisão vai muito além do dois vírgula quatro.

Este é apenas o episódio mais recente da cruzada da UE contra a Google. Empresa erógena das instituições europeias, a Google tem proporcionado verdadeiros orgasmos regulatórios e sancionatórios à UE. Da criação do direito ao esquecimento até à proposta, ainda em discussão, de uma espécie de imposto (que não é bem um imposto) sobre o Google News, têm sido várias as medidas feitas à medida da gigante da tecnologia.

O problema é que os efeitos mais profundos destas medidas não se fazem sentir no Silicon Valley, mas sim do lado de cá. A Europa que tenta regular a economia digital de todas as formas possíveis é a Europa que vai continuar a ver passar o navio da inovação. É que a inovação é pouco amiga da regulação apertada e de sanções pornográficas. E o próximo Google, Facebook ou Airbnb, que podia ser europeu, voltará a ser californiano.



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