“O Pintor de Batalhas”: um romance pessoal e intenso

Marta Teives

Qual o poder de uma imagem? Para além de valer mil palavras, pode uma foto mudar uma vida? No início, quando foi inventada, a fotografia era temida por se suspeitar que roubava a alma de quem era fotografado. Se for verdade, com a moda atual das selfies e das groupies, haverá alguém no Inferno a rejubilar…

Há poucos anos, os Balcãs foram também um verdadeiro inferno. Palco de uma guerra devastadora que, entre outras consequências, alterou e dividiu regiões e fronteiras, criando linhas de separação com base em critérios étnicos ou religiosos, alguns dos quais nem existiam antes do século XIX. Infelizmente, nos últimos tempos têm reaparecido algumas questiúnculas que voltaram a inflamar uma zona da Europa que nesta nossa ponta mais ocidental temos dificuldade em compreender.

Entre 1973 e 1994, o jornalista espanhol Arturo Pérez-Reverte foi correspondente de diversos órgãos de comunicação social, tendo-se especializado na cobertura de conflitos armados, do Chipre à Nicarágua, das Malvinas a Moçambique, passando naturalmente pelos Balcãs (Croácia, em 1991, e Bósnia, de 1992 a 1994). Hoje, é conhecido sobretudo pela sua obra enquanto autor de ficção, em particular a saga do capitão Alatriste, que já passou ao grande ecrã com Viggo Mortensen no papel principal.

Em “O Pintor de Batalhas”, talvez a sua melhor obra de ficção, Pérez-Reverte utiliza a sua experiência jornalística para criar a personagem de Andrés Faulques, um fotógrafo de guerra que, ao longo de 30 anos de profissão, viajou do Vietname ao Líbano, do Camboja à Eritreia, de El Salvador à Nicarágua, de Angola e Moçambique aos Balcãs e ao Iraque.

 

 

Faulques vive sozinho numa torre de vigia no Mediterrâneo, perturbado pela memória de uma mulher que não conseguiu esquecer e pela visita de um homem que o quer matar. Ambos, a mulher jovem que amou e este ex-soldado que agora o persegue, surgem como sombras de um passado que persiste em não se apagar e que revela diferentes faces da guerra.

Deslumbrante e perturbador, esta obra do autor de “O Mestre de Esgrima” ou do mais recente “Homens Bons”, versa sobre as consequências inevitáveis de cada um dos atos que praticamos ao longo da vida; no fundo, sobre a responsabilidade pessoal e coletiva, questão tão mais premente nos dias de hoje que, dos refugiados que tentam entrar na fortaleza europeia à corrupção no mundo político e financeiro, vai deixando um rasto cada vez maior de vidas humanas dilaceradas.

“O Pintor de Batalhas”, um romance pessoal e intenso, é editado pela ASA, uma das editoras do grupo Leya.

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