O papel da oposição

Nenhum militante da esquerda pode congratular-se pela falta de uma oposição. No atual momento político que atravessamos, as forças parlamentares de esquerda governam sem uma oposição séria, credível e desafiante.

Deparam-se, isso sim, com o maior partido da oposição da direita perdido, alienado, a tentar encontrar o seu lugar na atual conjuntura, sem qualquer disponibilidade para ouvir ou mostrar empatia para com os portugueses, qualidades que, de resto, nunca demonstraram na anterior legislatura. O CDS-PP também não sai muito melhor na figura, mas interessa-me aqui analisar o papel do PSD.

Desde que a vida política portuguesa virou do avesso, com o estabelecimento da “Geringonça”, que o desnorte tem sido total. Demorou meses para saírem da narrativa de que as eleições tinham sido “roubadas”, mais meses ainda até o PSD recuperar do choque da alteração total de dinâmicas, e já nem o poder do Palácio de Belém os respeita como antigamente, com o novo inquilino a virar-lhes costas.

O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, erra pelo país de palavra oca em palavra oca, à espera de um passo em falso, de uma racha, de uma vacilação na estrutura periclitante da “Geringonça”. E espera (em vão) que tombe, não sabendo que é precisamente a sua liderança da oposição que a mantém firme e sólida. E será mesmo que ele não desconfia?

Suspeito que não.

São motivos para a esquerda celebrar? Não. A nossa democracia nem meio século festejou ainda, mas sempre viveu neste constante teste de forças ideológico. A esquerda precisa da direita da mesma forma que a direita precisa da esquerda, mesmo quando as incompatibilidades surgem à tona. A oposição existe para cumprir o papel histórico diário de causar o máximo incómodo possível ao campo adversário, tentando assegurar que os compromissos e promessas do governo eleito são cumpridos. A confrontação ideológica de esquerda-direita é essencial para assegurar que os governantes saiam da sua zona de conforto, mas é uma confrontação que deve ser baseada no rigor, não na distorção, na seriedade e não no oportunismo, na verdade, e não na mentira.

O PSD lembra-me a imagem de um homem no precipício com um pé enfiado no vazio do abismo. As declarações graves e perigosas de Passos Coelho sobre hipotéticos casos de suicídio nos incêndios de Pedrógão Grande provam como se tornou um embaraço nacional, uma figura que há muito age como PM no exílio, mas que tem vindo a perder a dignidade e respeito. E o que é que o PSD irá fazer sobre isso? Uma democracia saudável requer uma oposição que volte a subir o nível da discussão política e que não mostre de forma tão óbvia a sua irresponsabilidade e arrivismo político.



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