“O medo dos refugiados está a substituir a compaixão”

Porta voz do ACNUR e autora do livro que retrata a viagem de Doaa alerta para a necessidade de apoiar os refugiados nos países vizinhos da Síria.

Como conheceu a história da Doaa?

Li a história da Doaa através dos media. Havia esta adolescente que tinha sobrevivido quatro dias e quatro noites na água e salvo o bebé. Pensei que era tão marcante, tão inspirador. Fui até à Grécia e conheci a Doaa. Ela começou a falar e abriu-se comigo.

Porque é tão importante que as pessoas conhecessem esta história?

Por duas razões. Primeiro porque é uma história extraordinária e depois porque toda a história de vida da Doaa representa a crise síria, em geral. Se lerem sobre a história de Doaa vão perceber muito como era a Síria antes da guerra, vão aprender o que aconteceu, como a a guerra mudou tudo. A Doaa estava nas ruas como uma manifestante pacífica e viu como o governo decidiu começar a disparar sobre os manifestantes. Ela esteve entre a primeira onda de refugiados que foram para países vizinhos.

No livro, conta que Doaa disse ao noivo que “antes uma morte rápida no mar do que uma morte lenta no Egipto”.

Acho que muitas pessoas pensam isso porque a vida deles como refugiados em países vizinhos, que receberam tantos refugiados, tem tão pouco apoio da comunidade internacional. O ACNUR tem cronicamente falta de fundos e não é permitido aos refugiados trabalhar. Se eles trabalham é de forma ilegal, então, há sempre o sentimento de medo, a escola é muito difícil para crianças refugiadas. E isto é tão importante para as famílias refugiadas, tal como para todas as famílias. Por vezes as crianças têm que trabalhar, em vez disso. Quando os refugiados começaram a chegar à Europa nós perguntámos-lhe as razões e uma das principais razões foi que eles não conseguiam ter as crianças na escola. Ok, nós arriscamos as nossas vidas, mas na Europa é seguro e há escolas e podemos trabalhar.

Porque é que o trabalho do ACNUR assume tanta importância?

Infelizmente o medo dos refugiados está a substituir a compaixão. O medo em alguns países diz que quer proteger o país, a nacionalidade, a cultura, em alguns países ocidentais a ideia de que não queremos muçulmanos. Estão a construir muralhas. Isto não é em todo o lado, no Canadá por exemplo não. Tal como em Portugal, que é um líder em fazer o que é correto. É extremamente encorajador que Portugal esteja a ser tão recetivo ao programa de recolocação dos refugiados. Tem um programa de bolsas para refugiados e isso é fantástico, transforma as suas vidas. É importante que mais países ofereçam estes programas de estudos para refugiados. Se mais países pudessem ser como Portugal…

Acredita que é possível?

Absolutamente. A maioria dos refugiados vai para os países vizinhos e precisamos de investir mais nestes países. Estive em cidades no Líbano em que existem mais sírios do que libaneses. Primeiro, eles dizem “bem-vindos irmãos e irmãs”, mas quando não vêem o reconhecimento e a necessidade de investimento, ficam cansados de ser os receptores destas pessoas para as quais não têm condições. Começámos com António Guterres, quando ele era alto-comissário para as Nações Unidas, a apelar e a convencer o Banco Mundial a investir no Médio Oriente. A pouco e pouco começamos a ver mudanças. Se o ACNUR tivesse mais fundos poderíamos dar mais condições de vida aos refugiados nos países vizinhos. A maioria gostaria de ficar lá, porque é perto de casa. Nunca falei com um refugiado que não quisesse voltar para casa.

Que alterações políticas podem combater isto?

Primeiro, parar a guerra que leva tantas pessoas a serem obrigadas a fugir. É uma das prioridades de Guterres como secretário-geral, tal como prevenir estes conflitos. Ele viu durante dez anos a tragédia humana que resultam destes conflitos. E agora, está a colocar toda a energia para prevenir estes conflitos. Investir nos países vizinhos destes países e os países em geral partilharem as suas responsabilidades, de acolhe-los. E quando os refugiados chegam através do Mediterrâneo, resgatá-los. Em países como Áustria e Alemanha que recebem tantos refugiados, eu encorajo as pessoas a conhece-los e perceber que somos iguais, mas infelizmente são obrigadas a fugir das suas casas.