“As ações do BCP vão subir ou descer?” Esta é, de longe, a pergunta que me é colocada mais vezes.

O senhor do café, o primo num casamento, o médico, o vizinho executivo, pessoas de faixas variadas da sociedade querem obter esse insight de um jornalista de mercados. A resposta é, e tem de ser por motivos de isenção, evasiva e humorística (“uns dias vão descer, outros vão subir” ou “não sei, o que interessa mais é quem vai ganhar o campeonato”).

Mas a frequência da pergunta leva a outra pergunta – porque é que os investidores, pelos menos os de retalho, têm este interesse intenso, quase um fetiche, pelas ações do BCP, algo que não é refletido em qualquer dos outros títulos da Bolsa de Lisboa, mesmo quando os gigantes BES e PT ainda tinham vida no índice PSI 20? Há várias razões.

Primeiro porque o banco tem um número anormalmente elevado de acionistas individuais, o que significa que mais portugueses têm ações do BCP do que qualquer outra empresa. No final de 2016, quase 185 mil pessoas detinham ações, representando 39% do capital, uma proporção também superior à média na Bolsa de Lisboa e no setor da banca na Europa.

Estas estatísticas resultaram de grandes esforços do banco em vender as ações aos seus clientes logo na Oferta Pública Inicial de 1992. A bolsa portuguesa vivia uma época de ouro, com as ações vistas como nova fonte de rendimento ou lucro rápido. A banca era o setor na moda, visto como um negócio em crescimento, mas também institucional e, portanto, seguro. Era quase uma questão de estatuto.

Neste contexto, o BCP surgiu como uma estrela. Criado em 1985, era jovem, moderno, sem a bagagem histórica do BES ou do Totta. Liderado pelo carismático Jardim Gonçalves, o banco era inovador, com as cores arrojadas da rede de retalho NovaRede a contrastarem com o cinzento das agências concorrentes (à excepção do BPI).

Seguiram-se anos de expansão rápida a nível nacional, mas também lá fora. A primeira década do novo século trouxe, no entanto, uma história mais complicada. Guerras internas e entre acionistas, a controversa queda de Jardim Gonçalves e a falhada OPA ao BPI levaram a descidas na cotação. No final do século XX, cada ação do BCP valia 19 euros, mas passados 10 anos esse valor tinha tombado para menos de 4 euros. Essa tendência levou ao downside do fetiche. Ao entusiasmo seguiu-se o nervosismo. Os acionistas individuais vendiam, por terem medo de perder ainda mais, ou seguravam o título, acreditando que já tinham perdido portanto valia a pena esperar por uma recuperação. Daí a pergunta constante.

O pior estava, no entanto, ainda para vir. Com a crise, veio a falta de liquidez, o pedido de ajuda ao fundo de resgate, a venda (com perdas) de participações em Portugal e no exterior. O fetiche tornou-se um trauma.

Mas este ano está a ser marcado por uma reviravolta. Após terem afundado 70% em 2016, as ações valorizaram 26,5% até esta quinta-feira. O aumento de capital, no qual a chinesa Fosun aumentou a participação no banco para 24% , foi o principal fator, mas os esforços para criar uma solução nacional para o crédito malparado também têm ajudado.

No entanto, uma série de quedas na semana passada, fruto de contágio de descidas da Fosun e do setor da banca europeia, fizeram regressar receios e mais perguntas.

Sem abdicar da isenção, há uma nuance na resposta possível – olhar friamente para as ações como um simples ativo, não como um fetiche nem como um trauma.



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