“O Estado vai-se ver impossibilitado de pagar reformas”

Pedro Barata, gestor de ativos e autor do livro "Como Fazer Crescer o Seu Dinheiro ao Longo da Vida", que chega esta quinta-feira às livrarias, defende que o envelhecimento da população e a maior esperança de vida da limitará, no futuro, o raio de ação da segurança social. Em entrevista ao Jornal Económico diz ser, por isso, imperativo que cada um inicie uma disciplina de poupança e estabeleça uma estratégia de investimento.

Como surgiu a ideia para o livro “Como Fazer Crescer o Seu Dinheiro ao Longo da Vida”?

Este livro é o resultado de muitos anos de experiência acumulada na área de gestão de ativos. Não terá havido um momento específico e identificável no qual decidi “vou escrever um livro”. Se olhar para trás vejo mais um processo, para o qual contribuíram a perspetiva do profissional e a preocupação da pessoa e do cidadão que sou, hoje com 50 anos.

A primeira perspetiva passa pela certeza de que a poupança tem que ser uma prioridade na vida de todas as pessoas que trabalham e que o investimento racional e de longo prazo é sempre benéfico. A segunda tem a ver com a noção de que as estruturas do Estado estão a esgotar a sua capacidade de sustentar as gerações presentes e futuras e que existe a necessidade absoluta de sermos nós a construir o nosso futuro financeiro desde cedo.

Acho que a vontade de passar aos meus filhos um conjunto de regras básicas, mas essenciais à criação de riqueza, a partir do investimento da poupança, teve um papel muito  importante no desenvolvimento do que se veio a tornar o livro. Percebi, num certo ponto, que o que tinha escrito se aplicava não só aos meus filhos, mas também à esmagadora maioria dos portugueses, que vivem dos seus ordenados e que são já hoje responsáveis pela sua subsistência no final da vida ativa.

O livro apresenta-se como um guia para preparar a reforma. De que forma é que pode ajudar os leitores?

Acredito que possa ajudar de várias formas. A principal é fazer o leitor deparar-se com a realidade actual e futura da Segurança Social e a inevitabilidade de passar a ser um protagonista na construção de uma reforma mais sustentada, que não lhe retire numa fase mais dependente, porque já não pode contribuir activamente para a geração de riqueza, o direito à qualidade de vida conquistada.

Depois, fica muito claro neste livro que a noção de poupança tem que existir sempre na gestão do orçamento familiar ou pessoal e são dadas orientações sobre a forma como o fazer agora, para atingir determinada poupança no longo prazo. A ideia de que a poupança não deve ser uma massa inerte, à qual se vão acrescentando camadas mensalmente, mas antes um ativo dinâmico que se deve investir para ver crescer é outro eixo de força que gostava que as pessoas retivessem.

Por último, realçaria o conceito do investimento de acordo com o ciclo de vida. As pessoas devem traçar uma estratégia de investimento em função da idade que têm,  ou do tempo que as separa do fim da vida ativa e não daquele que pensam ser o seu perfil de risco. Um dos pontos críticos do investimento dos particulares é que assumem pressupostos sobre o tipo de investidor que são, não necessariamente certos. Este livro traz um conceito de investimento que facilita a tomada de decisão no sentido em que identifica o tipo de investimento que deve ser feito, de acordo com a idade, ou momento em que se está no ciclo de vida.

Portugal continua a ter baixas taxas de poupança. Na sua opinião porque é que isto acontece? Qual é a importância de poupar?

É verdade que a taxa de poupança em Portugal ainda é baixa, mas felizmente já há estudos feitos cujas conclusões me levam a acreditar que a necessidade de poupar começa a estar cada vez mais enraizada na mente dos portugueses. Esta mudança de mentalidades, que mostra uma evolução positiva, foi-se sedimentando na última década, estando provavelmente ligada ao facto de as pessoas terem ganho consciência de que não podem continuar a deixar nas mãos do Estado o seu futuro financeiro.

O risco é o de se chegar à altura da reforma e passar a ter dificuldades financeiras. Porém, todos sabemos que nem sempre é fácil prioritizar um esforço que apenas terá benefícios daqui a algumas décadas. A dificuldade em resistir à tentação do consumo no presente e pensar no longo prazo em detrimento do curto prazo, é grande.

É imperativo que as pessoas iniciem uma disciplina de poupança regular e que estabeleçam uma estratégia de investimento para essas mesmas poupanças. O envelhecimento da população portuguesa somado à maior esperança de vida da população limitará, no futuro, o raio de ação da segurança social. O Estado, por mais que queira, vai ver-se impossibilitado, por dificuldades financeiras da segurança social, em pagar as reformas que cada um gostaria de receber. Cabe, assim, a cada um de nós zelar pelo seu futuro financeiro, tão cedo quanto possível, não ficando unicamente dependente do Estado para cumprir esse papel.

Como é que se pode prever (dependendo da idade) quais serão as necessidades durante a idade da reforma?

Esta é uma questão para a qual a maioria das pessoas gostaria de ter uma resposta com o maior grau de certeza possível, mas essas necessidades estão muito ligadas ao nível de vida atual de cada um e às expetativas que têm em relação à forma como quer viver a sua reforma.

Tentei neste livro sistematizar uma forma de o fazer em função das despesas e poupança atuais de cada um e depois extrapolar para o que serão essas mesmas necessidades no final da vida ativa. O raciocínio é simples, mas bastante esclarecedor. Encontrado o valor dos nossos compromissos financeiros atuais  e transpondo o mesmo para a idade da reforma, subtraímos a parte que será garantida pela segurança social e sabemos que o restante terá que vir do rendimento da nossa poupança.

Partindo do principio que se conseguem taxas de rentabilidade na ordem dos 4%, a partir dessa altura – valor universalmente aceite – consegue-se chegar ao valor que terá que ter acumulado no final da vida ativa. Depois, os rendimentos gerados por esse montante somados ao valor que recebe da Segurança Social deverão, no mínimo, igualar o montante das despesas. Desta forma, consegue-se fazer face às obrigações financeiras sem delapidar o património.

Qual é o passo seguinte depois de fazer esta estimativa?

Definir o montante que pretende atingir até à reforma é muito importante, mas é apenas o primeiro passo. Este valor passa a ser o objetivo. Ao quantificá-lo e ao definir o número de anos que  faltam para o atingir, torna muito mais fácil a definição posterior de uma estratégia de investimento que permita alcançar o objetivo definido. Esta quantificação, possibilita ainda uma maior monitorização dos resultados da estratégia e um ajustamento sempre que for necessário.

Assim, o passo seguinte é, exactamente esse: definir uma estratégia de investimento que lhe garanta o cumprimento do seu objectivo.

Refere que o investimento da poupança não depende do perfil de risco, mas sim da idade do aforrador. Em que consiste esta estratégia?

Num investimento de longo prazo (que é aquilo de que se trata quando falamos do investimento da poupança para a reforma) defendo que o asset mix da carteira não deve ser escolhido de acordo com um hipotético perfil de risco, mas sim com o ciclo de vida do investidor, ou seja, o critério do investimento deverá ter em conta a idade da pessoa, ou o número de anos que a separa do objetivo final. Com isto pretendo dizer que, quanto mais longe estiver do final da vida ativa, maior deve ser o peso dos ativos com maior risco na carteira de investimento. Depois, à medida que os anos forem passando, a exposição a ativos de risco deve ir diminuindo, de forma a que a volatilidade da carteira e o risco dos investimentos assumidos também diminua em conformidade.

Tendo em conta que os portugueses têm tradicionalmente um perfil de risco reduzido, como é que podem conseguir retornos que permitam garantir uma reforma equivalente ao rendimento durante a vida activa?

É verdade que é frequente dizer-se que os portugueses têm um perfil de risco reduzido. No entanto, esse facto não deve ser impeditivo de levar as pessoas a procurarem investir a poupança da melhor forma que conseguirem. No livro, eu defendo a ideia que, mais importante do que investir a poupança de acordo com um hipotético perfil de risco, esse investimento deve ser feito tendo em conta dois pilares base: adequar o risco do investimento à idade que se tem e fazer uma capitalização permanente dos rendimentos obtidos.

É a conjugação destes dois factores que, no meu entender, poderão fazer com que  a data da reforma não signifique empobrecimento nem perca de qualidade de vida.

Já deveria ser claro para todas as pessoas que a probabilidade de conseguirem obter um valor de reforma, pago pela segurança social, equivalente ao rendimento que se habituou a receber durante a vida ativa é cada vez menor. Assim, para que o nível de vida não sofra uma quebra repentina, é importante que se implementem hábitos de poupança durante a vida ativa e esta seja investida de uma forma inteligente.

De que forma se devem ir alterando as opções de investimento ao longo da vida?

Quando se fala no investimento numa óptica de longo prazo, defendo que as opções devem ir variando à medida que nos vamos aproximando do objetivo. Neste caso, um jovem no início da atividade profissional, longe de atingir a idade da reforma, deve privilegiar ativos mais voláteis e com maior risco, mas também com maiores perspetivas de retorno no longo prazo.

Esta é a altura certa para arriscar. Nesta altura, o investidor ainda tem bastante tempo para recuperar dum investimento que corra menos bem e tem também a possibilidade de começar, desde logo, a capitalizar o sucesso do investimento, se ele for no sentido desejado. Os rendimentos conseguidos nesta altura, capitalizados a uma taxa superior, têm um impacto muito grande no resultado final.

À medida que os anos vão passando, o investidor deve ir ajustando a carteira de investimento de modo a torná-la menos volátil, mas sempre com o objetivo de obter retornos acima da taxa de inflação.

Cita no seu livro Warren Buffett (“Investir não é um jogo em que a pessoa com um QI de 160 vença outra com um QI de 130”). Quais são então os segredos para ter sucesso nos investimentos?

O sucesso nos investimentos decorrem da compreensão dos princípios básicos, aplicados numa estratégia definida, manifestando sempre a vontade e, sobretudo, a disciplina para os implementar e executar ao longo do tempo. O investidor deve ter muita atenção a quatro pontos essenciais:

  1. Tem que ter um objetivo. É por aqui que tudo começa. O investidor tem que saber o que o move e o que pretende atingir. Esse objetivo deve ter um prazo e tem que ser sempre quantificado.
  2. Depois do objetivo, deve ser definida a estratégia. Esta deve ser clara e ajustada ao horizonte temporal do propósito que se pretende atingir. Se tem um objetivo mais imediato, deve privilegiar produtos menos voláteis e de mais curto prazo, se tiver um objetivo de mais longo prazo deverá reforçar o investimento em produtos mais voláteis, mas que tenham possibilidades de oferecer no longo prazo rentabilidades superiores.
  3. Tem que haver disciplina. O investidor deve ser disciplinado na execução da estratégia que definiu. É muitas vezes neste ponto que tudo se perde. Nem sempre é fácil manter a disciplina necessária para levar adiante a estratégia definida. A volatilidade do mercado, por vezes acentuada, espoleta sentimentos como o medo ou a euforia. Nestas alturas, deve racionalizar a situação e não se deixar levar pelas emoções. Se há alturas na vida em que a emoção deve dar lugar à razão, é quando falamos de investimentos. O investidor deve procurar sempre ter a disciplina necessária para seguir a estratégia que definiu e não cair em tentações que o levem a desviar do caminho traçado.
  4. Tem que haver uma perspetiva do longo prazo. O investidor deve dar tempo ao investimento. A importância do tempo nos investimentos é enorme. Se tiver tempo suficiente para capitalizar os rendimentos das aplicações, estes poderão multiplicar-se de tal forma que o resultado final é muitas vezes surpreendente.


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