O debate sobre a Europa

Até onde chega o meu conhecimento, a geração Erasmus não é uma maioria radical, nem os milhares de emigrantes portugueses são radicais por desejarem viver numa Europa sem fronteiras.

Quando decidi candidatar-me às primárias para as Europeias de 2014 pelo LIVRE, e sem qualquer experiência política prévia, aprendi rapidamente que era mais fácil para alguém que detém uma segunda nacionalidade — em especial uma segunda nacionalidade de um país considerado do terceiro mundo — compreender os privilégios, e não descortinar apenas os deveres de pertencer à Europa. Então escolhi o lado europeísta e nunca deixei de frisar o valor desses privilégios.

Com a crise das dívidas soberanas a atingir um pico em 2015, as vozes que clamavam por uma maior soberania ergueram-se e apontaram, não sem razão, como a liderança da UE falhara na resolução da crise ao impor o caminho da austeridade. Todos fomos unânimes em declarar que algo profundamente errado sucedera então nos centros de decisão europeus.

No entanto, e apesar de Portugal ter virado a página da austeridade e iniciado um novo percurso – até agora bem-sucedido – de retoma económica, a desconfiança de tudo o que vem de Bruxelas acabou por contagiar (ainda mais) os discursos de largas fações da esquerda portuguesa.

Mantive o meu europeísmo, mesmo quando denunciava os erros cometidos contra a Grécia. Todavia, não posso deixar de questionar os discursos obsessivos que colocam atualmente a hipótese da saída de Portugal da Zona Euro sob a pretensão de “é nosso dever preparar planos de saída”. Qualquer plano de preparação deve ser saudado como uma prática democrática e legítima, mesmo que, muitas vezes não passe, a meu ver, de oportunismo eleitoralista. O que coloco em causa não é a intenção do plano, mas os argumentos frágeis, enganadores e pouco rigorosos que sustentam esses planos e a forma como passou a ser prática corrente (e quase cliché) insultar os europeístas como idílicos ou figuras que pretendem lançar um discurso catastrofista sobre a saída do Euro. Vejo-me, de súbito, na posição estupefacta (e irónica q.b.) de ser pintada, em virtude do meu europeísmo, como radical que pretende lançar o pânico entre a população.

Até onde chega o meu conhecimento, a geração Erasmus não é uma maioria radical, nem os milhares de emigrantes portugueses são radicais por desejarem viver numa Europa sem fronteiras, que lhes permite continuar os seus estudos e desenvolver competências profissionais e linguísticas. E muito menos radicais serão os cidadãos nacionais que contribuem para a dinâmica comercial entre a economia portuguesa e europeia.

Posto isto, resta dizer que europeístas como eu vão continuar a contribuir para o debate da refundação da UE de forma informada e sem recurso a caminhos fáceis. Quanto a idílios, gosto de estudá-los na Literatura, mas, na política, o caminho a seguir na conjetura atual deveria ser de cautela.



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