O caso dos ‘e-mails’ do Benfica

Não consigo compreender como Luís Filipe Vieira não afastou de imediato do Benfica alguns dos maiores protagonistas deste triste casos dos e-mails (...) e também não consigo entender o silêncio, espécie de omertà, que os jornais desportivos cultivam à volta do assunto

1 O processo ao Benfica, por enquanto, só me merece uma reflexão: é lamentável, do ponto de vista ético, que um clube desta dimensão social, o maior do País, se tenha deixado cair na tentação de construir uma rede de influência que notoriamente procurava garantir-lhe algumas “boas vontades”, chamemos-lhe assim, no sector da arbitragem. É canhestro que o Benfica tenha procurado emular, na época das redes sociais, dos e-mails, da informação em contínuo, a estratégia do FC Porto encetada no final do século passado e tão bem retratada no processo ‘Apito Dourado’ com aquele episódio da ida do ex-árbitro Augusto Duarte a casa de Pinto da Costa dois dias antes de um jogo em Aveiro, com o Beira Mar. Mas essa imitação (a que, num outro plano, nem o Sporting escapou no triste episódio Cardinalli, protagonizado por um vice-presidente que havia sido inspector da PJ, Pereira Cristóvão) é também um dos motivos para que o Benfica possa estar relativamente tranquilo. Até agora, a Justiça não tem sido bem sucedida em ligar o que parece mal com aquilo que seria mau. E para além das evidências escritas – que, repito, são lamentáveis do ponto de vista ético -, não se percebeu ainda que haja naqueles e-mails algo que configure um crime.

Até ver é assim.

E fico à espera das conclusões das investigações em curso, no MP, apenas com uma outra reflexão: não consigo compreender como Luís Filipe Vieira não afastou de imediato do Benfica alguns dos maiores protagonistas deste triste casos dos e-mails. Que ganha o Benfica em alojar gente que apenas pretende mostrar serviço, e ganhar a vida, à sombra de uma grande instituição e de caminho lhe provoca danos de imagem? Para mim, o maior mistério deste caso está, por enquanto, aqui.

2 O processo dos e-mails, no entanto, remete-me para o jornalismo e para o campeonato que todos os anos se joga em redor da nossa Liga principal de futebol. Também não consigo entender o silêncio, espécie de omertà, que os jornais desportivos cultivam à volta do assunto. Tirando esparsas notícias em ‘O Jogo’, que não podia defraudar a sua clientela portista, ‘Record’ e ‘A Bola’, como todos os pequenos sites desportivos que surgiram para medrar à conta dos ‘banners’ das casas de apostas desportivas, fogem do tema com visível incómodo. Eu explico: uma parte é medo, a outra incapacidade.

O medo tem a ver com as reacções do clubes e das suas guardas pretorianas. As claques organizadas são perigosas. E a multidão de amantes infantis que pelas suas cores são capazes de se prestar ao ridículo nas redes sociais, e até semanalmente nas televisões, não garantem boa publicidade.

Depois há, inclusive, a pressão interna. Entre o tecido accionista dos diversos grupos de comunicação, e à sua volta, gravitam adeptos que pedem meças a um qualquer Pedro Guerra. Esse caldo limita o jornalismo, convoca as opções editoriais como cortina para a cobardia.

Quanto à incapacidade, ela nasce de uma organização editorial completamente ultrapassada.

Os jornais desportivos não publicam as notícias que vão sendo dadas pelo ‘Expresso’, pela ‘Sábado’ e pelo “Correio da Manhã” e por outros títulos, apenas por medo. A verdade é que estão rotinados na divisão por secções que era óptima há 20 anos. Não evoluíram para abordagens novas. Têm equipas para ir ver os treinos e comporem umas peças com base nas estatísticas do último jogo e em efemérides mais ou menos históricas, que vão fazendo render durante toda a semana até ao próximo jogo. Limitam-se ao trivial e à propaganda. As primeiras páginas do papel tornaram-se cartazes, mesmo que às vezes bonitos, desprovidos de conteúdo e de qualquer resquício de afloramento informativo. Essas marcas não especializaram jornalistas nas relações com a Justiça e na investigação. Não possuem capacidade para lerem um relatório e contas, perceber os fluxos do dinheiro, analisar a problemática das comissões, explicar aos leitores, permanentemente, o que significa para os clubes na Europa ter de cumprir o “fair-play” financeiro em vigor na UEFA. Até nas informações de mercado se limitam ao papel de pés de microfone dos empresários.

3 Os e-mails do Benfica são, por este conjunto de razões, um desafio em várias frentes: a desportiva, a da investigação e a dos próprios media. Bom seria que, no final, fosse qual fosse o resultado, toda a gente aprendesse e tivesse a humildade de tirar conclusões.

 

(Nota – Não me refiro à constituição de arguido de Luís Filipe Vieira no âmbito do processo Lex porque, e até ver, parece-me não ter nada que a relacione directamente com o Benfica. Mas compreendo perfeitamente Ricardo Araújo Pereira e o seu desgosto com tudo o que se passa em torno do seu clube.)




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