O adeus do ‘senhor Angola’

Em 2012, numa animada conversa à mesa sobre a campanha eleitoral em Luanda, um amigo angolano decidiu chamar o filho mais novo (deveria ter uns três anos de idade na altura) para mostrar aos convidados uma verdade política através de uma brincadeira de criança. Apontando para uma fotografia num jornal, perguntou ao filho: “Quem é este?” A resposta imediata: “É o senhor Angola”. A foto era, claro, de José Eduardo dos Santos.

Em 38 anos de poder, o presidente fomentou essa ideia, que acreditar em Angola era acreditar nele e no projeto dele.

Após a inesperada chegada ao poder em 1979, Eduardo dos Santos teve de partilhar o protagonismo com Jonas Savimbi, líder da UNITA, num país dividido por uma guerra que era um dos palcos da Guerra Fria e durou 27 anos.

Beneficiando da queda do apartheid que apoiava a UNITA, e do menor interesse dos EUA após o fim da URSS, o MPLA venceu o conflito e o presidente tornou-se no ‘arquiteto da paz’. Apressou-se a reconstruir a infraestrutura, financiada por um boom económico criado pelo aumento da produção de petróleo.

Em 1991, após a queda do bloco de Leste, Eduardo dos Santos tinha deixado o sistema de partido único e economia controlada, abrindo o multi-partidarismo e uma economia de mercado. O legado do ‘senhor Angola’ será, sem dúvida, marcado pelo desempenho nessas duas frentes.

Na economia, o saldo é misto. Fruto do boom petrolífero, a economia cresceu a ritmo rápido, as infraestruturas foram reconstruídas e o país melhorou em alguns indicadores como a taxa de mortalidade infantil. No entanto, os críticos apontam para vários pontos negativos.

A diversificação económica foi uma meta citada centenas de vezes por Eduardo dos Santos, mas a execução foi insuficiente, como foi ficou à vista na crise que o país vive desde a queda do preço do crude em 2014. Nas eleições de 2012, o slogan do MPLA era “Crescer mais, e distribuir melhor”. É esta segunda parte que centra a maior crítica à era económica de Eduardo dos Santos – que não aproveitou uma oportunidade única para distribuir a riqueza, que deixou muitos angolanos na pobreza, que permitiu que uma pequena elite utilizasse a corrupção para se enriquecer.

No capítulo da gestão do poder a análise resulta ainda mais dura. Reservado em público, Eduardo dos Santos foi um mestre nos bastidores, centralizando todo o poder do Estado em si próprio. Permitiu a oposição partidária, mas com poucos meios e alguma perseguição. Opositores internos foram rapidamente ostracizados, e os media dominados pelo Estado. O movimento de jovens revolucionários foi destruído com o uso de força. A própria questão da sucessão tornou-se num tabu nos últimos anos, decidida apenas há meses com a nomeação de João Lourenço.

Chegou a hora do ‘senhor Angola’ deixar a presidência. Mas, como sempre, há mais perguntas que respostas. Continuando à frente do MPLA, qual será o papel de Eduardo dos Santos? O que irá acontecer aos postos ocupados pelos filhos? Qual será o futuro económico de Angola? Conseguirá Lourenço um resultado que permita ao MPLA dominar o poder? Ou conseguirá a oposição obter avanços nas urnas?

A pergunta que tem sido colocada mais vezes nos últimos meses é, no entanto, a seguinte: irá algo mudar? Após quase 38 anos, qualquer transição tem de produzir mudança, pequena ou gradual, voluntária ou resultado de reações. No caso de Angola, ela poderá até ser invisível nos primeiros meses, mas tenho a certeza de que vai acontecer, porque o adeus do ‘senhor Angola’ a torna inevitável.



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