Nick Willing: Paula Rego do outro lado do espelho

Conversámos com Nick Willing, cineasta e filho da pintora Paula Rego, a propósito da estreia do seu documentário “Histórias & Segredos”.

“Ah, que bom que seria se pudéssemos entrar na Casa-Espelho. Oh! Tenho a certeza que há lá coisas lindas! Vamos fazer de conta que há uma maneira de lá entrar… que o vidro se tornou mole como a gaze só para nós podermos atravessá-lo. Olha, está a transformar-se numa espécie de névoa, palavra! […] No passo seguinte, Alice estava do outro lado do espelho […]”

Roubo esta passagem a Lewis Carroll porque é lá que vamos estar daqui a nada: do outro lado do espelho. Nesse universo mágico, repleto de sombras e mistérios, onde Paula Rego se move. E foi para decifrar o enigma que é a sua mãe – ainda hoje – que Nick Willing atravessou a ‘névoa’ e ficou atrás da câmara.

Deixou o trabalho nos Estados Unidos e passou quase dois anos a filmar mãe no seu ateliê, em Londres. Esteve à beira da falência, mas garante que realizar Paula Rego: Histórias & Segredos foi a experiência mais fantástica da sua vida. Redescobriu a sua língua de infância, o português, e confessou-nos que talvez isso os tenha reaproximado. “A maior parte da minha infância foi passada em Portugal, e a minha língua era o português. Mas aos 12, 13 anos levaram-me para Inglaterra e tive de aprender a falar inglês muito bem. Tinha de falar como os ingleses [para não ser considerado estrangeiro] e esqueci a língua materna. Mas quando comecei a filmar a minha mãe falávamos em português e acho que ficámos mais próximos. E também acho que o português tem muito mais piada do que o inglês. É uma língua ‘plástica’. As palavras e os sons… muitas vezes estivemos longas horas na galhofa e, depois, de repente, ela começou a contar histórias.”

Foi assim que tudo começou? “Às vezes, quando estávamos a preparar uma exposição, eu perguntava-lhe sobre a história desta ou daquela obra e ela, quando fala de uma obra inventa uma história. Sempre! Todas as vezes é uma história diferente, inventa coisas, gosta de brincar… Ela também é muito ‘plástica’! [risos] E gosta de guardar segredos, de esconder as verdades, mas nessa altura começou a abrir-se um pouco. E como sabe que eu sei o que se passou na vida dela – e na minha também – os ‘truques’ não resultavam. Comigo não resultavam! Ela tem muitos truques e consegue enganar os outros, mas a mim não.” [sorriso]

Passados muitos anos e inúmeras tentativas sempre coroadas de recusas, Nick – o mais novo dos três filhos do casal Paula Rego e Victor Willing, também ele pintor – começou a entrar lentamente num universo poderoso e incómodo, povoado de fantasmas, onde a inocência se cruza com o mal, o banal com o mágico, o ritual com o inesperado, a sexualidade com a família. Ao longo do documentário, a franqueza de Paula Rego é profundamente desarmante. Não cai o pano, mas caem as máscaras. As que ela quer deixar cair.

Entre a ausência e a admiração
No filme fica, aliás, a sensação de que a Paula quer responder às muitas perguntas do filho. E dá-nos, a todos, vários ‘murros no estômago’. “Houve vezes em que fiquei chocado. Mas foi muito catártico para mim. Saber a verdade também foi muito libertador! Como durante quase toda a minha vida houve sempre muitos segredos e sombras, percebi finalmente como foram as coisas na realidade…”. Percebe-se que foi doloroso. “Sim, houve vezes em que chorei…[silêncio] Mas também chorei lágrimas de alegria ao perceber que o problema não era eu. Às vezes, uma criança pequena pensa que é ela o problema, a razão porque ela [a mãe] se fecha tanto e não fala. Depois, ao descobrir as razões de muitas das depressões que ela teve, percebi melhor as coisas. E mesmo quando já somos adultos – e eu tenho 55 anos –, há muitas vezes em que ainda sou uma criança quando estou com ela [sorriso]. E sempre olhei para a minha mãe com uma grande admiração!”

Nick ficou emocionado. Por instantes olhámos o sol que acariciava a relva. Estamos no terraço da Casa das Histórias. Ouve-se o chilreio das pequenas aves que saltitam nas árvores do jardim. O cenário não podia ser mais contrastante com os sentimentos de Nick. Ele e a mãe raramente estavam juntos. “Durante a maior parte da minha infância, a minha mãe ou estava fechada no ateliê ou desaparecia totalmente, por vezes durante meses, deixando-me com os meus avós”.

Quisemos saber se, nos períodos em que a mãe estava presente, lhe lia histórias ou contava histórias que ela inventava. Os olhos de Nick voltam a brilhar. “Ela não conta histórias de uma maneira ‘clássica’! A primeira história de que me lembro quando era pequeno… ela entra de repente no meu quarto – e eu nem sabia que ela estava em casa ou no país! – e diz: “Ai, a cadelinha, coitada, perdeu a perna”. E depois fugiu. Eu saltei da cama e fui atrás dela e perguntei: “Qual cadela? E porque é que perdeu a perna?” [risos] Em cada quarto da casa ela contava um bocadinho mais da história, mas dizia só umas palavras…”. Como uma espécie de teaser para aguçar a curiosidade. “Sim, isso. E mais tarde, quando já era mais crescido e comecei a escrever guiões, percebi que um guião é ‘literatura’ para pessoas que não gostam de ler. O guião não é literatura, certo? E as pessoas que têm de ler guiões detestam ler, como os executives em Hollywood, por exemplo, querem saber logo a história! [risos] Ter a capacidade de ser breve e de agarrar uma pessoa com uma história é uma coisa que aprendi com a minha mãe!” É uma arte. “Sim, é uma arte. E ela sabia essa arte ‘sem querer’. Era natural.”

Nick, 55 anos, estudou na National Film and Television School, é realizador de cinema e de televisão, e respigador dos filmes caseiros que o seu avô, pai de Paula, fez entre 1920 e 1966, ano da sua morte. Além destas imagens, Nick também usa as que registou desde 1975, que nos mostram os pais, amigos e família em momentos de ternura, alegria e boa disposição – como as de Paula, em criança, a brincar na praia, ou o casal a dançar numa festa na casa da Ericeira. O filme, Paula Rego, Histórias & Segredos, é sobretudo da mulher que trata e, só depois, da artista, porque o realizador também se coloca no papel de filho e Paula quase se esquece da câmara, colocada como um ‘acessório’ naquele lugar de intimidade entre mãe e filho. Contou-lhe que o pai, José Figueiroa Rego, a incentivara a ir para Londres estudar arte – onde frequentou a Slade School of Fine Art entre 1952 e 1956 – porque, dizia ele, “Portugal não é um país para mulheres”.

As mordaças sociais
Vivia-se no regime salazarista. O corpo e a sexualidade da mulher são votados ao segredo, à introversão, à vergonha e ao recalcamento. Paula Rego recorda: “[A minha mãe] não me contou nada sobre ter bebés e todas essas coisas. Nunca! Nunca! Quando tive o meu primeiro período, apenas me disse: ‘Tens de ter cuidado, não deves deixar que nenhum homem se aproxime de ti.’ Era uma enorme surpresa, mas eu não prestei atenção nenhuma, claro, porque eu não sabia a que é que ela se referia.”
Nos seus quadros pinta raparigas em posições ambíguas, com expressões de dor, esmagadas pela mentalidade feudal, retrógrada e machista. Passou por tudo isso, da mesma forma que viveu o seu primeiro convite sexual como uma ordem a que era preciso obedecer: “Eu não lhe disse: ‘Como?’ Eu simplesmente fiz o que me pediu.” Como sublinha Isabel Freire no catálogo da exposição, naquela época e “para muitas mulheres portuguesa, as vivências da sexualidade – mesmo depois do casamento – continuavam a obedecer a um registo de submissão.” Paula Rego vai mais longe e diz perante a câmara: “Fiz vários abortos. […] naqueles tempos não havia muita contraceção e os homens não se importavam”.

Numa das vezes que engravidou do homem que viria a ser seu marido, decidiu que queria ficar com o bebé. Ligou ao pai – um dos homens da sua vida – e dois dias depois ele estava em Londres para a levar de volta a Portugal. Regressaram de carro e, pelo caminho, vieram o tempo todo a conversar e a ouvir ópera, conta no filme, dizendo que “foi uma viagem muito bonita”. Tinha muito medo da reação da mãe quando chegassem, mas o pai sossegou-a: “Não te preocupes com a tua mãe que ela já gritou muito na praia”. O olhar de Paula fica suspenso frente à câmara e diz: “Era muito meu amigo o meu pai.”

Foi toda esta vivência nascida da ‘mordaça’ das convenções sociais que gerou a série “Aborto”, de 1998, na sequência do referendo à despenalização do aborto realizado nesse ano em Portugal. Apenas um terço dos eleitores vai às urnas pronunciar-se sobre a questão: “Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” O “não” vence por 51 por cento dos votos. Paula Rego, que conhece bem este drama feminino, deixa-nos o seu statement, um grito de alerta para a necessidade de mudar mentalidades. A artista enquanto ser político. A artista enquanto mulher – a mesma que sempre mitificou junto da família e dos amigos o seu primeiro encontro com Victor Willing.

O pai e o marido adorado
Esse encontro foi tudo menos romântico. Mas Victor [Vic] foi o amor da sua vida, o homem a quem obedecia e que a conhecia melhor do que ninguém, porque compreendia a sua arte, como diz no filme, e isso uniu-os definitivamente. E como era ‘Vic’, o homem que arrebatou Paula e com quem o seu filho se parece tanto? “Fisicamente, sim. [silêncio] Adorava o meu pai! É o homem mais esperto que conheci em toda a minha vida! Tinha a capacidade de falar de coisas muito complexas e difíceis de uma maneira que todos podiam perceber. Isso é uma qualidade muito especial. Tinha uma grande admiração por ele! Morreu muito novo. Tinha 60 anos…”. Como lidou com esse período tão difícil? O seu pai estava acamado e muito doente, as relações entre os seus pais eram tensas, havia dificuldades financeiras…? “Nos anos 70, depois do 25 de Abril, quando regressámos a Inglaterra e não tínhamos nem um centavo… [voz embargada] para comprar comida. Não tínhamos nada! O meu pai estava muito, muito doente. Já não conseguia andar… Perdemos a casa na Ericeira, perdemos tudo e a minha mãe estava muito deprimida, mal conseguia pintar e queria fugir… então, puseram-me num colégio interno.” Foi uma decisão dos dois ou foi o seu pai que decidiu? “Foi o meu pai. A minha mãe nunca decidiu nada sobre os filhos… Ela não sabia bem o que fazer com os filhos. Não tinha o mesmo interesse e preocupação que o meu pai sobre o futuro dos filhos. A filosofia dela era: deixar as crianças brincar, fazer o que queriam e depois elas iriam descobrir como as coisas são. Não é a melhor abordagem. Por isso, o meu pai foi mais o ‘adulto’ da família. A pessoa que era iniciamente – o homem que vemos no filme no primeiro encontro com ela – cresceu. E de uma maneira profundamente emocional. Tornou-se um adulto. Acho que sentiu a responsabilidade de ter filhos e família e de ‘tomar conta’ do dinheiro. Isso foi difícil, é verdade, mas se não conseguia gerir o dinheiro, pelo menos podia tomar conta das crianças e ser nosso amigo.”

Vic era casado. Deixou a mulher e escreveu ao pai de Paula a pedir-lhe para se juntar a ela e à filha (Caroline, a mais velha). Viveu com a família na Ericeira de 1957 a 1962, e entre a Ericeira e Londres até ao início da década de 1970. Em 1966 diagnosticaram-lhe esclerose múltipla. No ano anterior tinha assumido a gestão de uma empresa deixada pelo sogro, em Lisboa. Os negócios correram mal e a família acabou por perder tudo, fixando-se em Londres em 1972. Dos tempos na Ericeira, Nick recorda outros episódios importantes, além da inépcia do seu pai para gerir dinheiro. “Quando falava com o meu pai e lhe fazia perguntas, ele respondia sempre ‘com verdades’. Era sincero e sabia explicar coisas muito complicadas de uma maneira que eu percebia. Lembro-me que uma vez fiquei muito zangado com ele, devia ter uns 8 anos. Os meus pais estavam sempre a desaparecer, para Londres, para aqui e para ali, e eu nunca os via… E disse-lhe: ‘tenho amigos na escola que têm pais que são médicos, advogados, arquitectos, e eu percebo a importância que é ter um pai médico, mas o que é um artista?!’” Garante que tem esse episódio gravado na memória, ao ponto de se sentir mais seguro em reproduzir as palavras do pai em inglês, a sua língua comum. “In English he said to me: ‘An artist is a person like an explorer who goes to lands and places that no one has ever been to and brings back a picture of what it looks like and that no one has ever seen but everyone recognizes’. [O meu pai disse-me que um artista é como um explorador, é uma pessoa que vai a mundos onde ninguém esteve e volta com um retrato de coisas que nunca vimos mas que todos reconhecemos] Lembra-se da sua reação? “Fiquei a olhar para ele e disse: “Ah…! Ok, that’s very important!” [risos] E depois passei a olhar para as pinturas deles para ver o que traziam desses mundos”.

O ateliê: território proibido
Na antiga adega transformada em ateliê, os dois artistas pintavam de costas voltadas um para o outro, separados por uma cortina. Era território interdito. As crianças podiam bater à porta, gritar, inventar as histórias mais fantásticas que a porta nunca se abria. Não tinham autorização para entrar no ateliê, mas um dia aconteceu, Nick entrou nesse ‘mundo misterioso’. “A primeira vez ainda estávamos na Ericeira e eu tinha para aí uns 9 anos, ou talvez menos. O estúdio é onde as coisas importantes acontecem. O trabalho, o desenho é a coisa mais importante. Porque é que o desenho é a coisa mais importante, não sei, mas assim que aprendi a agarrar num lápis comecei a desenhar. Um dia fiz um desenho muito expressivo: dois homens a lutar, um muito zangado e o outro cheio de medo e tal… Quando acabei pensei: ‘Isto é uma obra muito importante’. Onde devem estar as obras muito importantes? No estúdio. Por isso, fui até lá, e como sabia muito bem que podia bater que ninguém abria, meti o desenho por baixo da porta. Já ia para casa quando percebi que a minha mãe abriu a porta… Olhei para trás e ela estava a ver o desenho. ‘O que é isto?’, pergunta. E eu disse: “nhamnham…” [risos] ‘Qual é a história?’. Não sabia, não havia história, mas inventei logo uma coisa qualquer. Ela voltou para dentro e fechou a porta. Mais tarde vi que ela recortou o desenho e o pôs num quadro. Foi assim que entrei! Não fui eu, mas foi o meu desenho [risos]. Fiquei muito orgulhoso. Fiz uma obra tão importante que apareceu numa obra dela!”

Viu-a como uma crítica de arte a analisar o seu desenho ou como a mãe que quer saber o que o filho anda a desenhar? “Não é bem assim que ela ou eu vemos o desenho [o ato de desenhar]. Quando estava no colégio interno, em Londres, havia bullies e eu sofri com isso. E ela dizia-me: desenha os bullies e manda-lhes os desenhos. Mas havia outra coisa que ela fazia quando estava a desenhar com ela… Nós não falávamos muito, mas desenhávamos juntos. Era uma forma de comunicar sem palavras e às vezes podemos comunicar coisas que as palavras não podem… Acho que é por isso que ela tem confiança em mim. Ficámos bons amigos porque ela sabe que eu percebo que há coisas que não se podem verbalizar. A minha mãe não me ensinou a desenhar, mas às vezes dizia-me: Quero um desenho que mostre ‘zanga’. Como faço isso? ‘Faz uma pessoa zangada’, e eu desenhava uma pessoa zangada. ‘Agora quero um desenho de uma pessoa com ciúmes’. Difícil, mas descobri! Ela gostava muito de cartoons, comic books, e gostava porque se via logo a emoção da pessoa. Depois, ela descobriu maneiras de desenhar emoções mais profundas entre ‘duas coisas’: não é só uma pessoa zangada, mas zangada com amor. Ou uma pessoa que tem muito amor, mas que é cruel… No fundo, o que é ser humano. Foi assim que aprendi a desenhar. Não aprendi a fazer coisas bonitas, mas a desenhar as emoções, o que eu sentia” No fundo, ensinou-lhe o mais difícil e o que também ela tentou e conseguiu pôr nos seus quadros. “Sim, as contradições do ser humano”.

Paulo Rego: Histórias & Segredos, o documentário que estreou ontem não obedece a um ‘guião’ previsível, recheado de depoimentos de outros artistas ou críticos de arte a tecer comentários ou interpretações abstrusas sobre a sua obra. Nada disso. Aborda frontalmente os episódios que marcaram a vida de Paula Rego e que, por isso mesmo, são indissociáveis da sua pintura e visão do mundo. É um tributo a uma mulher resistente, que desmontou dogmas e tabus, e que nos ajuda a compreender a sua verdade, narrada na primeira pessoa. “É muito importante perceber as obras. Não só da minha mãe, mas também a arte em geral. Passo o tempo a ler coisas sobre arte e sobre a minha mãe, artigos académicos, intelectuais, e muitas vezes fico a pensar: estão a falar de quem?! [risos] Às vezes pergunto à minha mãe: ‘Já viste o que dizem aqui sobre as tuas obras?’. E ela diz: ‘Não sei, mas não faz mal. Cada um tem a sua interpretação. Essa pessoa está a falar sobre ela própria e não sobre mim, mas se encontram lá uma história que eu não conheço, é bom’. Ela sempre disse que quando uma obra está terminada já não pertence ao artista; pertence a outros. E cada um descobre nela o que quer e precisa. Mas eu sabia uma coisa: se ia fazer um filme, não queria ser eu a contar a história ou a explicar as obras dela. Queria que fosse ela a explicar. E eu sei que a única maneira de a minha mãe contar a mesma história, a verdadeira, é fazendo perguntas sobre a sua vida e não sobre a arte, caso contrário ia inventar mais umas histórias esquisitas!”

A ‘Depressão’ fechada numa gaveta
Em 2007, Paula teve uma depressão que, diz o filho, “quase a matou”. A mulher submissa ou subversiva, obediente ou rebelde – como cidadã, esposa, filha, amante, artista – constrói o seu mundo de fantasia e encantamento, colocando nas suas pinturas aquilo que não é capaz de dizer. “Numa série de obras, que ficaram dez anos escondidas na gaveta de um armário do seu estúdio, Paula Rego criou poderosas imagens que exploram a dimensão paradoxal da depressão psicológica”, lê-se no catálogo da exposição. Mais um segredo, mais uma história amordaçada, como tantas outras na sua vida. Paula tinha vergonha do que sentia e fechou-se numa solidão feroz, plasmando na tela esse sofrimento – o de uma mulher só que se desdobra, assumindo várias posições de abandono. A dada altura, no filme, diz: “Depois deveriam ser postas numa gaveta para nunca mais serem vistas, porque eu sentia vergonha de estar tão deprimida”. Mais à frente explica: “É preciso confiar na pintura porque ela é que nos diz o que está dentro de nós e isso nem sempre é agradável. É descobrir quem somos.”

Não é fácil decifrar o universo de Paula e Victor. Não é fácil ‘entrar’ nas suas pinturas… O Nick fazia perguntas, ao pai e à mãe, sobre as suas pinturas? “Fazia perguntas e o meu pai dizia: ‘o que é que isto te faz sentir?’ Eu respondia que me fazia sentir isto ou aquilo, e ele dizia: ‘então é isso’. Uma obra de arte não é uma coisa intelectual, é uma coisa que se sente, como o cheiro de uma rosa ou o sexo… é uma luxúria. Percebi isso desde muito pequeno e foi isso que também consegui, sem querer, transmitir no filme. A arte não é uma coisa artificial, divorciada das pessoas comuns. É uma coisa que nós todos devíamos perceber e sentir. [silêncio] Quando a minha mãe fala da vida e da arte dela, ela conta histórias que todos podemos perceber e sentir o que ela sentiu… E isso é arte.” É indissociável? Não podemos ‘separar’ a mulher, a mãe, a artista? “Bem, o que é irónico é que ela sempre separou. Ela sempre disse: Bebé ou pincel. E escolheu sempre o pincel. Mas, para fazer essa escolha, tem que separar o trabalho e a família. E ela sempre criou duas ‘categorias’ – uma não tem nada a ver com a outra. Isto para sobreviver. Uma mulher que quer ser artista tem que fazer esta escolha! O mais irónico é que a persona da minha mãe é uma mistura de artista, mãe e mulher. Penso que há uma mãe ali dentro e uma mulher também, mas a maior parte dela é artista. É a escolha dela, é o que ela quer e eu aprecio isso.”

A carta de despedida
Quando poderíamos pensar que Nick nos ia dar tréguas – a nós espetadores e a ele, na pele de filho –, voltamos a ver Paula em carne viva, revelando mais um segredo, um momento profundamente íntimo, quando lê para a câmara a carta de despedida do marido, que Nick não tinha lido e que ela não lia há muito tempo. “O meu pai morreu no apartamento onde vivíamos, em Londres. Na noite em que ele morreu estávamos todos lá. A minha mãe estava de mão dada com ele, mas adormeceu. E depois ficou zangada porque não viu o momento em que ele morreu! E também ficou zangada porque ele não disse adeus nem disse nada que pudesse ajudá-la… ele sempre a ajudava, de uma maneira ou de outra. Depois, o amigo dele apareceu [lá em casa] – como se vê no filme – e disse que o pai tinha deixado uma carta. Quando ela leu… Foi uma coisa muito estranha. Ficou triste, mas também ficou mais forte, teve mais coragem.” [silêncio]

O inglês irrompeu por diversas vezes nesta conversa.  Há palavras que se colam à pele e à memória, e Nick quer ter a certeza de são exatamente aquelas que o pai escreveu. “Ele diz na carta: ‘Trust yourself and you will be your own best friend’. [’Confia em ti e serás a tua melhor amiga’]The phrase should be: ‘Trust yourself; you are your own best friend’. He didn’t say that. [A frase correta seria: ‘confia em ti; és a tua melhor amiga’]. Mas ele escreveu – ‘Trust yourself and you will be”, because he knew that she didn’t trust herself’ and she knew what he meant! Ele sabia que ela não confiava em si mesma e ela percebeu, decifrou a mensagem [sorriso]. E depois de ler a carta, dobrou-a e guardou-a aqui no peito [Nick põe a mão junto ao coração] e ficou ali uns 30 anos. Eu sabia onde ela guardava a carta e às vezes dizia-me: ‘Eu lembro-me do que o teu pai disse’. E dizia em voz alta algumas coisas que ele tinha escrito. Há muitas coisas breves que têm muita força: ‘The kids are great!’ É uma frase muito importante. No fundo, o que ele queria dizer é isto: ‘podes largar os filhos, não te preocupes com eles, estão ótimos, são fantásticos. Agora tens de pensar em ti e no teu trabalho’. Mas ele não disse isso, só disse “The kids are great!” e ela percebeu logo!” [risos]



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