Negócio da água: Nestlé criticada por lucrar milhões ao aproveitar-se de cidades mais pobres

A presença da empresa em Michigan, nos Estados Unidos, revela informações sobre como dominou a indústria, indo para áreas economicamente atrofiadas, sem regulações com a água.

No condado de Mecosta County, em Michigan, EUA, existe uma fábrica do tamanho do Buckingham Palace. Essa fábrica pertence à Nestlé, e é apenas uma das 100 que a empresa tem espalhadas por 34 países.

A história é contada pela Bloomberg, que visitou a cidade e falou com vários responsáveis da empresa, assim como habitantes locais, para denunciar o monopólio e a pressão da Nestlé no mercado da água.

Nas fábricas, a maioria das linhas de produção funcionam 24 horas por dia, todos os dias, cada uma enchendo 500 a 1.200 garrafas por minuto. Cerca de 60% da água vem das nascentes de Mecosta e chega à fábrica através de um gasoduto de quase 20 quilómetros. “Olhamos diariamente para cerca de 3,5 milhões de garrafas”, diz Dave Sommer, o gerente da 41 anos.

Silos com 125 toneladas de grânulos de plástico fornecem a matéria-prima para as garrafas. São moldados a temperaturas que chegam aos 2oo graus celsius, antes de serem inspecionados, rotulados e impressos a laser com a localização, o dia e o minuto em que foram produzidos – um processo que leva menos de 25 segundos. Em seguida, as garrafas são empacotadas em paletes. Cerca de 175 caminhões chegam todos os dias para transportar a água para locais de retalho no centro-oeste da região.

A forma de operação em Michigan é apenas uma parte pequena da Nestlé mas espelha como é que esta empresa domina uma indústria controversa, todos os anos, frequentemente estando em municípios economicamente deprimidos, com a promessa de empregos e novas infra-estruturas, em troca de isenções fiscais e acesso a um recurso que é escasso para milhões.

Onde a Nestlé encontra resistência contra a sua presença nas cidades, recorre a advogados. Há custos normais para fazer este tipo de negócios nos municípios, mas a Nestlé paga pouco pelo produto que engarrafa e consegue que as taxas municipais sejam poucas. Em Michigan, a Nestle paga 200 dólares (cerca de 167 euros).

A empresa (que começou a engarrafar água em 1843) aproveita-se do facto de 77 milhões de americanos estarem abrangidos a sistemas de água que violam os requisitos das entidades ou regras sobre contaminação.

A Nestlé adquiriu a Ice Mountain da Pepsi em 2000 e transferiu as instalações de produção da costa leste para a Mecosta. Os políticos locais apreciaram o negócio e ofereceram uma redução de impostos de 13 milhões de dólares. Quando os habitantes locais descobriram que a Nestlé estava a bombear água dos seus quintais formaram um grupo de oposição, o “Michigan Citizens for Water Conservation”. Liderado por bibliotecários e professores aposentados, o grupo adicionou mais de 2 mil membros em todo o estado, e apresentaram uma ação judicial para parar a Nestlé.

O caso foi arrastado por oito anos e custou ao grupo mais de um milhão de dólares. Em 2003, um juiz decidiu contra a Nestlé, dizendo que os dados que documentam três anos de extração pela empresa mostraram um esgotamento significativo dos fluxos e zonas húmidas da área. A Nestlé recorreu e o caso prolongou-se durante mais seis anos, antes de as duas partes fazerem um acordo, em 2009. A Nestlé reduziria o bombeamento de 1.514 litros por minuto para 825 litros, com restrições adicionais na primavera e no verão.

Mesmo antes do acordo, a Nestlé expandiu a sua operação além do condado de Mecosta, para o vizinho Osceola. Para ter acesso a poços municipais na cidade de Evart, a empresa prometeu financiar 14 hectares de novos campos de softbol, assim como equipamentos.  Mais de 44% dos 1.500 habitantes de Evart vivem abaixo do limiar da pobreza, de acordo com dados dos EUA. Os officials ficaram desapontados com o facto de a Nestlé ter construído a fábrica da Ice Mountain em Mecosta, que criou 280 empregos da cidade, mas agradeceram os cerca de 250 mil dólares que a Nestlé paga Evart anualmente pela sua água.

Em outubro passado, Garret Ellison, jornalista ambiental, descobriu que a Nestlé tinha solicitado uma licença para duplicar a sua taxa de bombeamento no poço perto de Evart, a 1.514 litros por minuto – a mesma taxa que foi considerada prejudicial em Mecosta. Antecipando a aprovação, a Nestlé tinha investido 36 milhões de dólares para aumentar a fábrica da Ice Moutain em 80 mil metros quadrados. O Departamento de Qualidade Ambiental de Michigan (DEQ) aprovou o pedido sem permitir que essa informação ficasse pública.

Quando a história de Ellison ficou viral, e o Departamento recebeu mais de 1.100 emails em três dias. A Nestlé aguarda agora uma decisão sobre se será permitido aumentar o bombeamento no poço perto de Evart.




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