Natal: Vivência das festas por olhos diferentes

O Natal é uma quadra festiva carregada de simbolismo, que é vivida por todos de forma diferente, mas com um quadro comum da tradição do encontro em família. O Jornal Económico reuniu 15 olhares diversos e conta-os, por palavras, em discurso direto.

Cristina Bernardo

“No Natal procuro estar com toda a família. Durante muitos anos, consegui passar a meia-noite de Natal com toda a família mais próxima. Agora, pela idade de alguns deles e pelas distâncias físicas que os separam, já tenho que recorrer a momentos diferentes para estar com todos”, conta-nos Carlos Zorrinho, eurodeputado, que divide a sua vida entre Bruxelas, Lisboa e Évora. O que nos diz é um traço comum a todos aqueles com quem falámos – o Natal é uma época para viver em família. “Entendo o Natal como uma festa da família e, como tal, não desejo mais do que tempo para os que me são queridos e não trocaria essas horas por prenda alguma”, afirma Rita Garcia Pereira, advogada. “A minha tradição principal no Natal é família, família e família”, diz Marco Silva, financeiro e colunista do Jornal Económico.

“É nesta altura do ano que eu consigo reunir a maioria dos familiares que me são mais próximos. E é com muito prazer que vivo este momento em família, que tem vindo a aumentar, pois os mais jovens vão casando e tendo filhos”, refere Carlos Monjardino, presidente da Fundação Oriente.

Vasco d’Avillez, presidente da CVR de Lisboa, afina pelo mesmo diapasão: “Passo o Natal em família e como sou de uma família muito grande, sou o quinto de dez irmãos, juntamos todos os filhos e netos e somos cerca de setenta pessoas, no jantar e na ceia de 24 para 25 de dezembro”, diz-nos. “O importante é estar com a família”, garante Miguel Velez, CEO da Unlock Boutique Hotels, que conta a sua experiência: “Na qualidade de gestor, estou sempre numa das nossas unidades para cumprimentar toda a equipa. Depois, compro um capão no hotel e vou ter com a minha família”.

Marta Miranda, dos Oquestrada, diz-nos assim: “Durante anos, o Natal era aquele verde do musgo e os sinos de chocolate pendurados no pinheiro. Mais tarde, em adolescente, passou a ser a tensão entre os mais fortes e os mais frágeis da família e o sacrifício de se gastar o que não se tem”.

Só que, em 2012, o Natal veio mesmo do Norte da Europa, do frio. “Chegou, da Noruega, com um convite para os Oquestrada colaborarem na cerimónia oficial da entrega do Prémio Nobel da Paz. E foi assim que o Pai Natal nos descobriu e nos tornámos nos primeiros e, até agora,  únicos artistas portugueses distinguidos pela comissão do Prémio Nobel. E assim me rendi ao velhote das barbas brancas e barrete vermelho que lá do Norte vem, nesta altura, até cá abaixo comtemplar ‘os meninos que se tenham portado bem'”, conta.

Carlos Leiria Pinto, gestor e colunista do Jornal Económico, está na Colômbia, mais concretamente em Bogotá, “num planalto a 2.700 metros de altitude, bordejado pela cordilheira dos Andes”. Aqui, “a tradição e a fé católica, tão enraizadas neste alegre e encantador povo, junta as famílias num serão de comunhão espiritual”, conta. “As famílias ainda são numerosas e cheias de crianças, que em grande bulício começam a acender, em tudo o que é espaço livre, quantidades colossais de pequenas velas coloridas”.

As crianças no centro das festividades

E nas famílias, nesta altura, as crianças surgem em primeiro lugar, porque se trata de uma festa, porque olhamos para o futuro e porque têm uma vivência muito particular da quadra, enquadrada por um velho bonacheirão, de barba branca, que distribui prendas num trenó puxado por renas. “O que me traz mais felicidade é poder reunir toda a família, o que tem sido sempre possível. Agora, com dois netos pequenos, a felicidade é redobrada”, afirma Maria Salomé Rafael, presidente da Nersant.

“Este ano é o primeiro em que serei Pai e Pai Natal para o meu filho, pelo que há muita expetativa a gerir”, diz Miguel Velez. Uma prova de fogo, porque é aqui que se constroem sonhos. “São momentos de construção de recordações. Momentos criados para que os meus filhos possam, um dia, encontrar no fundo da memória o seu espaço mágico pessoal”, diz-nos Manuela Niza Ribeiro, presidente do sindicato dos funcionários do SEF.
São aqueles pequenos pormenores, pequenas tradições que nos indicam que estamos na quadra festiva e que devemos imbuir-nos do espírito certo. “Adoro o Natal! Os ritmos marcados – a decoração; os presentes escolhidos e comprados nas lojas de rua, com o frio lá fora e uma música de fundo tilintando; os preparativos para a ceia; a divisão das tarefas; a logística de acomodar e estar com toda a família dos diversos, e cada vez mais, ramos que se espalham por cidades diferentes”, conta Niza Ribeiro.

“Em criança, o meu Natal era vivido em espírito muito católico, com Missa do Galo e enorme festa em casa do meu avô paterno, com muitas iguarias, muitos netos, e, como se devia numa família musical e multinacional, canções de Natal cantadas por todos em inglês e francês, acompanhadas ao piano pela minha mãe”, recorda Nuno Cintra Torres, professor universitário. Marco Silva aponta, também, o simbolismo de como se faz a mesa: “Bacalhau, doces”, mas diz que “na ceia, seja onde for, o importante é ter o maior número de ‘convivas’ juntos”. De tal forma, que nem interessa, em último caso, o onde. “Isso não é importante, desde que haja bolo-rei na mesa. O João [o marido] não o dispensa”, diz a pintora Graciete Rosa.

Mesmo quando podem ser tempos de excessos, ou não fossem estas tradições herdeiras da Saturnalia. Agora, mais pelo consumo do que pela vivência. “Eu sou das pessoas com mais espírito natalício que conheço, e admito que compatibilizar-me com princípios ecológicos exige grande ginástica mental”, diz Rita Sousa, professora universitária.
Diogo Leónidas Rocha, advogado, afiança que o Natal “tem um efeito intensificador nos nossos sentimentos: reforça alegrias e exagera tristezas”. Por isso, diz esperar “que todos consigam encontrar significado nas suas vidas, e que nunca abandonem os valores da sua consciência”.

Desejos e generosidade

Mas esta é, também, uma época para os outros, em que damos mais de nós. Uma “hora de generosidade”, diz Rita Garcia Pereira.

Para os outros, para nós, Fernando Faria de Oliveira, que preside à Associação Portuguesa de Bancos, elenca desejos: “Uma sociedade onde imperem: a confiança em vez da suspeição; a busca da compreensão da realidade em vez do palpite avulso e não fundamentado; a esperança em vez do desânimo; a ambição em vez da mesquinhez; a generosidade em vez da inveja; a prosperidade e a justiça social em vez de um alinhamento por baixo; a cultura do mérito e do espírito empreendedor em vez da mediocridade e da estagnação; a solidariedade em vez de proteções clientelares; a responsabilidade e a honra em vez do facilitismo e da desconsideração; a realização pessoal e a paz interior para todos os portugueses”.

Também João Duque, professor do ISEG, faz um voto geral: “Que Portugal fosse premiado como o melhor destino de investimento internacional e que como resultado disso novas empresas internacionais se instalassem em Portugal, contribuindo para: o aumento do emprego qualificado, da subida do salário médio nacional, da multiculturalidade da mão de obra a trabalhar em Portugal”.

“Charles Dickens ficou conhecido como ‘o homem que inventou o Natal’, porque redescobriu a tradição de comemoração do nascimento de Jesus no livro A Christmas Carol. Para Dickens, o espírito de Natal era ser-se ativamente útil, perseverante, cumprir os deveres com alegria, gentileza e paciência. Era uma receita comportamental para a vida na Inglaterra da Revolução Industrial, e que continua atual”, conta Cintra Torres.

“O Natal é um momento festivo que nos pode fazer ir ao encontro do melhor que deve existir em nós”, resume Alexandra Mesquita, artista plástica. “Representa uma oportunidade de criação. Simboliza, de certo modo, um renascimento e até uma reapreciação do que me rodeia”, realça. Mas, como refere o gestor João Talone, “esta altura do ano não deveria ser diferente das outras”. Em suma, devia ser sempre Natal.




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