Não te deixarei morrer, Dijsselbloem

O partido trabalhista (PvdA) foi humilhado com uma votação de 5,7%, que lhe reduz os deputados a um quarto e lhe dá um pontapé para fora da aliança com o partido de centro direita, que continuará a governar.

O PvdA é o partido de Jeroen Dijsselbloem, o ministro das finanças mais à direita que um partido de esquerda já produziu. Ao entrar num processo de definhamento semelhante ao que o PASOK grego já havia sentido, abre agora um vazio no Eurogrupo. Haverá agora um outro socialista europeu disponível para ser o porta-voz de medidas contrárias ao espírito da social-democracia europeia? E quem fará agora os habituais comentários paternalistas sobre as economias mais frágeis da Zona Euro, depois das reuniões do Eurogrupo? Quem irá agora avaliar se um país está no bom ou no mau caminho, como se de um toxicodependente em recuperação se tratasse?

Talvez prevendo a perda do seu porta-voz de estimação, o ministro das Finanças alemão deixou claro esta semana que quer manter vivo o espírito intrusivo do ainda líder do Eurogrupo. Wolfgang Schäuble parece já não olhar a meios para manter a rédea curta da união monetária. Alerta dia sim dia não para o risco de resgate de Portugal, mesmo quando o país tem os juros da dívida sob pressão. Uma simpatia.

O peso político da Alemanha torna provável que Schäuble consiga pôr na liderança do Eurogrupo um porta-voz que continue a cumprir o papel de cão de fila. Mas pode ser que ao menos não seja desempenhado por um socialista que deveria estar a defender as conquistas da social democracia europeia, e não a apressar o seu fim.
Os cientistas políticos ainda terão de estudar melhor o papel que o esvaziamento da esquerda europeia teve na ascensão dos movimentos populistas mais radicais. O afunilamento das alternativas políticas, com a hegemonia dos centrões partidários, só dá espaço aos loucos.
A queda do PvdA terá certamente fatores específicos da Holanda, mas não podem ignorar-se as opções contranatura que o partido tomou – à semelhança de muitos outros partidos da terceira via na Europa. Há consequências eleitorais quando um jovial ministro socialista preside ao organismo europeu cuja principal função se tornou a de repartir a dor da austeridade pelos estados membros. Há consequências eleitorais quando um partido trabalhista aceita formar um bloco central e se torna a muleta das políticas da direita mais liberal.
A queda do partido de Dijsselbloem mostra que o enamoramento com as teses de direita entrou numa fase de rejeição. E mesmo que Schäuble arranje um substituto para o holandês, é mais um passo para que o debate político se polarize de novo entre partidos realmente de esquerda e outros realmente de direita. Como nunca deveria ter deixado de ser. l



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