Mundipharma quer multiplicar por 10 vendas no mercado português

A multinacional norte-americana Mundipharma está presente em 51 países e tem um volume de vendas que atingiu 4.000 milhões de dólares (cerca de 3.750 milhões de euros), em 2015. Em Portugal, está presente de forma direta desde o final de 2015, ainda que muitos dos seus produtos sejam comercializados no mercado português há mais tempo, através de licenças de comercialização, e pela própria empresa.

Entre 2013 – ano em que iniciou a comercialização de morfinas em Portugal – e 2015, as dificuldades na obtenção de comparticipação de produtos levaram a multinacional a estabelecer parcerias com laboratórios locais: com a Companhia Portuguesa de Higiene, entretanto adquirida pela espanhola Ferrer; e com a OM Pharma, hoje integrada no grupo italiano BeForPharma). No primeiro caso, estava licenciado o DepoCyte, indicado no tratamento intratecal da meningite linfomatosa; o Levact, indicado no tratamento de primeira linha da leucemia linfocítica crónica; e o Targin, aprovado como analgésico e no tratamento da obstipação em doentes medicados com analgésicos opiáceos.

No caso da OM, o licenciamento o Flutiform, indicado para o tratamento da asma, acabaria por não avançar por decisão estratégica da OM, mesmo após a aprovação, pelas autoridades portuguesas, da comparticipação do produto. Esta decisão acabou por apressar a entrada da Mundipharma no mercado nacional. “Foi uma excelente oportunidade de antecipar a vinda, prevista inicialmente para 2018”, afirmou ao Jornal Económico Salvador López, diretor-geral da empresa em Portugal.

Salvador López diz que o perfil da Mundipharma é de crescimento orgânico, suportado no desenvolvimento e investigação dos seus próprios produtos e não o crescimento por via de aquisições ou fusões com outras companhias. Isto, diz, “tem permitido manter a cultura que esteve na sua origem”. A equipa “fundadora” da Mundipharma Portugal reflete, também, o espírito empreendedor que norteia toda a atividade da multinacional e que resulta num caldo cultural invulgar: uma empresa americana, gerida por um advogado espanhol e 24 colaboradores oriundos de diferentes áreas de atividade. “Acreditamos na diversidade; que a multiplicidade de opiniões traz valor acrescentado à decisão final”, explica Salvador López.

A aposta numa subsidiária portuguesa foi também uma decisão em contraciclo com a tendência de iberização do mercado, com muitas empresas a transferirem os centros de decisão de Portugal para Espanha. “Acreditamos que o know how local é muito importante e permite ganhos de eficiência muito mais significativos do que os que eventualmente poderiam resultar da concentração e partilha de serviços da iberização das operações”, explica López.

“Apostamos numa cultura de agilidade e rapidez na tomada de decisões, que só a proximidade e autonomia permite. Uma cultura que é transversal a toda a empresa. Costumo dizer que na Mundipharma Portugal somos 24 diretores-gerais. Cada um é diretor-geral da sua esfera de atuação, dos vendedores aos especialistas em market access”, assegura, acrescentando: “Contratamos talento e deixamos que este flua, incentivando a criatividade. Esta é, na nossa perspetiva, a melhor forma de obtermos bons resultados”.

Os resultados, são as vendas: no ano passado, a empresa faturou cerca de um milhão de euros. “Em 2017, as perspetivas apontam para um valor superior a 2 milhões de euros, mais do dobro do que faturámos no primeiro ano de atividade”, afirma Salvador López. Os resultados alcançados em 2016 e as perspetivas para 2017 referem-se às vendas do Flutiform, o único produto comercializado diretamente pela Mundiphama Portugal.

“Trata-se de um medicamento que, na opinião dos médicos, junta o ‘melhor de dois mundos’: combina o broncodilatador com ação mais rápida e o corticosteroide mais potente (LAMA e LADA); a que se associa um dispositivo inalatório muito eficiente e de fácil utilização, que fraciona as partículas a um diâmetro que permite atingir a árvore brônquica mais distal, e assim um melhor controlo da sintomatologia”, descreve.

Em 2018, com a recuperação dos produtos licenciados à Ferrer, o volume de vendas da filial portuguesa irá crescer substancialmente. “Temos como objetivo atingir, dentro de cinco anos, 10 milhões de euros [em vendas]”, precisa o responsável. Um objetivo cuja concretização está associada à previsão de lançamento, até ao final do ano, do Penthrox, um novo produto na área da dor aguda, com uma forma de administração inovadora: um spray analgésico que atua entre dois a três minutos. López diz que este será o primeiro produto inalado indicado no alívio da dor aguda.

“Acreditamos que vai revelar-se muito útil para os sistemas de emergência médica, como o INEM e mesmo a nível hospitalar, dada a sua forma de administração, que dispensa o recurso a acessos venosos periféricos para administração medicamentosa, como hoje acontece, libertando recursos de enfermagem e médicos”, refere. A substância ativa, o metoxiflurano, não é nova – é já utilizada há mais de 30 anos na Austrália e na Nova Zelândia –, mas tem como mais valia não ser um opióide, com todas as desvantagens associadas a este tipo de medicamento.

Sem receio do mercado
As contingências que marcam o mercado farmacêutico português, como dificuldades na aprovação de comparticipação de novos produtos e uma dívida permanente de atraso de pagamentos à indústria farmacêutica, não intimidam Salvador López. O diretor-geral da Medipharma diz que a empresa apostou em Portugal porque acreditamo que o país vai ultrapassar a crise que marcou os últimos anos.

“Criámos emprego, contribuímos com impostos e as autoridades portuguesas são sensíveis a isso”, diz. “Apostámos em Portugal quando muitos outros decidiram sair do país, porque acreditamos que a economia portuguesa vai crescer e porque é importante que os portugueses tenham acesso à inovação terapêutica da mesma forma que os demais europeus. A inovação não é uma despesa! É um investimento, que permite poupanças e uma gestão mais eficiente do dinheiro público”, defende.

Sobre as dívidas, López explica que, por enquanto, não constitui problema, já que o único produto que comercializa diretamente é de ambulatório e não hospitalar. Já para o ano, quando recuperar os medicamentos de uso hospitalar atualmente licenciados à Ferrer, será diferente, “Aí sim, será um problema”, reconhece, dizendo que os atrasos nos pagamentos acarretam custos, que têm de ser pagos. “Teremos que repercutir no preço dos medicamentos”, alerta.
No entanto, mostra-se otimista. “A Mundipharma quer mudar o paradigma do sector farmacêutico português, trabalhando em conjunto com as autoridades portuguesas no sentido de introduzir inovação, que é necessária, a preços comportáveis para o Estado”, afirma.

Notícia publicada na edição impressa do Jornal Económico de 7 de abril



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