A Europa perde todos os dias protagonismo na Ordem Mundial. Se continuar a subjugar a política à economia, ou pior, à finança, acabará por perecer.

Milhões de franceses, e muitos milhões de europeus, respiraram ontem de alívio com a vitória de Emmanuel Macron. Eu fui um desses milhões. Houve uma sensação de alívio geral, mas terá havido uma sensação de vitória? Foi mais importante eleger Macron ou derrotar Le Pen?

Ontem em França livrámo-nos de um problema sem ter a mínima certeza do que fazer sobre as suas causas. Macron teve o bom senso de se dirigir aos eleitores de Le Pen com respeito, prometendo mais abertura e amplitude de políticas, que possam incluir quem se sente à margem. Se conseguirá fazê-lo é ainda uma incógnita.

Os mais de 34% que votaram Le Pen ontem não são um bando de extremistas, xenófobos, islamofóbicos, racistas, ignorantes e isolacionistas. Pensar isso é o primeiro dos grandes erros de interpretação deste fenómeno. A França foi vítima do nazismo, a França é um Estado democrático com sistemas sofisticados de protecção do regime, a França é um estado social desenvolvido, a França é um país tolerante e acolhedor. Muitos dos votos que Le Pen angariou ontem serão de gente que não a aprecia, que repudia as suas ideias, que não se revê nas suas exigências. Mas, ao mesmo tempo, é gente que foi perdendo voz dentro do sistema, que se vê esquecida pelo quadro político e partidário hermético que se foi erigindo, que vê os seus direitos adquiridos ameaçados, essencialmente, que iniciou um diálogo de surdos com os partidos tradicionais a que pertencia.

Os filósofos, sociólogos, analistas e demais guardiões do politicamente correcto suspiraram também de alívio. Um alívio fajuto que não se eriçou quando Varoufakis ameaçou a estrutura europeia, que não se incomoda com os radicais gémeos de Le Pen a influenciar as decisões do governo português, que acha natural e saudável a progressão do radicalismo e da fractura desde que seja prepertada pelos seus compagnons de route.

No final do dia de ontem, a Europa e os actores políticos ficaram numa encruzilhada. Podem suspirar, porque apesar de mal preparados, o exame nem correu mal, continuando a cabular até ao inexorável chumbo que acabará por acontecer algures. Em alternativa, podem suspirar, tendo consciência dos problemas e das raízes de tais resultados, expressão profunda de mal-estar dos cidadãos, começando desde já a trabalhar para combater as causas, não virando a cara à exigência das árduas tarefas.

Dizia há dias um reputado economista que todo este quadro é produto da economia. É verdade que se encontra sempre uma relação entre as movimentações sociais e a economia, daí ser esta precisamente uma ciência social. Já imputar os resultados das movimentações sociais à economia, é  manifestamente um equívoco. A política é o centro de interpretação dos fenómenos sociais, analisando a realidade e actuando sobre esta, deverá estudar o passado, ler o presente de forma actuante e condicionar positivamente o futuro, só assim se cumpre a sua razão de ser. O poder sem utilidade é sempre vácuo.

A Europa nesta encruzilhada, em que perde todos os dias protagonismo na Ordem Mundial, se continuar a subjugar a política à economia, ou pior, à finança, acabará por perecer. A resposta aos fenómenos radicais de maior ou menor dimensão, a Le Pen, a Mélenchon, a Varoufakis, ao Podemos, ao Bloco, a Wilders, terá de ser sempre uma resposta eminentemente política de afirmação civilizacional. O engodo central destes inimigos da democracia é sempre o ódio, a revolta; poderão variar os objectos, mas no final é sempre o ódio e o ressentimento que move os extremos.

A Europa, que já foi grande, ou se engrandece de novo, ou desaparece. Terá de ter a sabedoria de acolher quem a procura sem excluir quem a sustenta. Terá de ter a capacidade de ouvir e abrir a política às pessoas, reforçando a cidadania e a participação. Terá de assumir uma verdadeira política de defesa comum bem explicada aos cidadãos. Terá de assumir, como factor identitário e de reforço, a sua matriz cultural e espiritual. Terá de assumir com todos se quer, ou não, ser potência e parte da liderança dos destinos do mundo.

Com os partidos envelhecidos, ou com os líderes emergentes, chamados independentes, as questões europeias serão sempre as mesmas; quem as irá protagonizar será resultado das mutações do sistema político-partidário, pelo que interessa saber se estará, ou não, a defender a Europa e os europeus.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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