Mário Soares: a irreverência do agnóstico que era filho de um sacerdote

Liberdade política do antigo Presidente da República ficou vincada quando defendeu Leonor Beleza no caso dos hemofílicos e José Sócrates no processo Marquês.

A vida de Mário Soares não pode ser pintada num tom monocromático. O Presidente da República que atingiu uma popularidade ímpar na democracia portuguesa, eleito para um segundo mandato com mais de 70% dos votos, deixou também marcas de controvérsia. Defendeu ex-ministros caídos em desgraça e apoiou governantes perseguidos pela Justiça. Irreverência, dirão uns. Coragem política, acrescentarão outros.

Um dos casos mais reveladores da liberdade de pensamento de Soares ocorreu no consulado cavaquista. O Presidente socialista, que tantas forças de bloqueio gerou à governação do PSD, não hesitou em defender uma das figuras mais proeminentes do partido rival, Leonor Beleza, quando a ex-ministra se tornou uma das pessoas mais contestadas do país.

No que ficou conhecido como o caso dos hemofílicos, relacionado com sangue contaminado com HIV, a antiga ministra foi acusada de dolo eventual pelo caso – um jargão jurídico para definir a intenção de agir de má-fé. Soares insurgiu-se. Aceitou ser testemunha abonatória da antiga ministra social-democrata. “Nunca esquecerei a postura de Mário Soares“, diz ao Jornal Económico o antigo ministro do Trabalho José Silva Peneda, que fez parte do Governo onde Leonor Beleza teve a pasta da Saúde.

Mais recentemente, outro caso de justiça fez Soares ir contra a corrente. Em 2014, depois da detenção de José Sócrates por suspeita corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais, o antigo Presidente tornou-se uma das mais regulares visitas ao ex-primeiro-ministro no Estabelecimento Prisional de Évora.

Tornou-se um dos principais defensores públicos, contestando a forma como a Justiça e a comunicação social estava a tratar o processo. “Isto não tem nada a ver com o Partido Socialista, tem a ver com os malandros que estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar”, chegou a afirmar Soares, que acusava: “Têm feito uma campanha contra ele que é uma infâmia”.

Desde cedo que a fraca apetência para seguir os cânones se vislumbrou na vida do Presidente, começando nas questões de fé: o presidente laico e republicano era filho de um sacerdote: “Não sou religioso. Ser ateu também tem o significado de ser contra. Eu não sou contra nem a favor, não acredito em Deus. E o meu pai era padre”, disse, numa entrevista ao jornal i.

Nascido em Lisboa em 1924, a irreverência estaria já nos genes – o pai abandonou o sacerdócio e se juntou a uma mulher já casada, mostrando que o “destino” não se faz com contornos rectilíneos. E o filho do sacerdote transformou-se num laico republicano pouco dado a terços – mas com um nítido respeito pelo papel da igreja, longe dos extremismos jacobinos.

PUB
PUB
PUB