Manuel Champalimaud vai controlar plano de reestruturação dos CTT

Os acionistas vão integrar o comité de monitorização da implementação do Plano de Transformação Operacional. Gestão dos CTT sob pressão.

Para implementar o Plano de Transformação Operacional, nos próximos dois anos (2018-2019), os CTT vão criar um Comité de Monitorização da Implementação que vai fiscalizar e garantir que as medidas definidas no plano vão mesmo ser implementadas.

Esse Comité será liderado pelo Presidente do Conselho de Administração – Francisco Lacerda e integrará mais quatro administradores não executivos: Três independentes e João Bento que representa a Gestmin de Manuel Champalimaud, que é o maior acionista da empresa com 10,46%.

Isto é, o acionista vai ter um envolvimento contínuo na execução do plano de reestruturação que pretende ser a reinvenção da atividade dos CTT – Correios de Portugal.

“Envolvimento contínuo da Comissão Executiva e followup ao nível do Conselho de Administração – Comité de Monitorização da Implementação – liderado pelo Presidente do Conselho de Administração e integrando Administradores Não-Executivos (incluindo o Administrador Não-Executivo representante dos acionistas)”, lê-se na apresentação aos investidores.

Na apresentação é dito ainda que haverá um envolvimento contínuo da Comissão Executiva na implementação do plano e que “haverá um reforço da Comissão Executiva de forma a aumentar o enfoque na execução do plano de tranformação operacional”. Mas, segundo os CTT, isto não significa que entrarão mais administradores executivos, mas refere-se sim à substituição do administrador financeiro já anunciada.

Guy Pacheco, vai ser o novo CFO dos CTT, substituindo no cargo André Gorjão Costa que estava na função desde 2012.

Francisco Lacerda tem estado sob pressão de dois lados, por um lado do Estado, com o fantasma do resgate do contrato de concessão do serviço público postal, e por outro dos acionistas privados com Manuel Champalimaud à cabeça, com 10,46% através da Gestmin. O empresário, num depoimento enviado ao Público, defende que a empresa tem de “acompanhar a evolução do mercado, ser mais competitiva e ganhar eficiência, reduzindo os custos nas áreas que estão em queda e investindo nas áreas de maior desenvolvimento”.

A apresentação deste plano poderá ter acalmado as hostes no que se refere aos acionistas. Nas últimas semanas circularam rumores de descontentamento dos acionistas, que poderiam culminar com a substituição da administração executiva. José Félix Morgado, que está de saída do Montepio, foi dado como possível nos CTT, mas não há confirmação dessa mudança.

Fontes ligadas ao processo dizem que a mudança da administração liderada por Francisco Lacerda não está nesta altura em cima da mesa. O mandato dos atuais administradores dos CTT acaba em 2019.

A apresentação do Plano de Transformação Operacional, fez renascer a gestão dos CTT, revelam as nossas fontes.

A empresa apresentou um plano que os analistas vêem com algum cepticismo. O Caixa BI diz que é um plano “difícil de executar e vai enfrentar pressões políticas severas e ainda contestação significativa dos sindicatos”. Isto porque o plano tem o objetivo de redução, este ano, de cerca de 200 colaboradores equivalentes a tempo inteiro (ETIs), dos quais cerca de 140 ETIs já aceitaram nas últimas semanas, diz a empresa. E inclui um programa de redução de pessoal de 800 colaboradores ETI [equivalentes a tempo inteiro] nas operações ao longo de três anos.

Já o Carregosa diz que apesar da queda do dividendo de 0,48 para 0,38 euros por ação, é ainda muito alto pois traduz um pay-out ratio de 160% “é uma autêntica delapidação das reservas”, dizem.

Os CTT apresentaram um plano de transformação operacional que consiste num corte de 25% da remuneração fixa do Presidente do Conselho de Administração e do CEO (presidente executivo) e 15% de redução para os restantes membros executivos e não executivos do Conselho de Administração em 2018 (versus os níveis atuais).

Esse plano é justificado pelo facto de globalmente, os resultados dos CTT estarem sob pressão desde meados de 2016 e de ter havido uma aceleração da queda do correio endereçado nos últimos trimestres (uma queda de 6% nos primeiros nove meses, o que compara com quedas médias de 4% entre 2014 e 2016).

Trata-se da “reinvenção da atividade dos CTT, que como todas as empresas do mesmo setor noutras partes do mundo, estão numa transformação profunda que é provocada pela alteração das preferências dos consumidores”, disse Francisco Lacerda em entrevista à TVI 24. A empresa diz que o volume do correio endereçado tem estado numa diminuição continua desde 2001, sendo hoje cerca de 50% inferior a esse ano. Hoje é de 0,7 mil milhões o correio endereçado.

Quanto poupa os CTT com o corte nos salários da administração?

Conhece-se os números de 2016 e é possível estimar o corte de custos com esta medida. Francisco de Lacerda passa a ganhar anualmente menos 128,4 mil euros, face a um total de 925 mil euros (remuneração fixa e variável) recebido em 2016. Os restantes administradores executivos recebem menos 235.641 euros em remuneração fixa e perdem toda a remuneração variável que em 2016 era de 1.373.128 euros. Isto é, com esta medida os CTT poupam 1,74 milhões de euros por ano. Isto porque segundo o relatório e contas, Francisco Lacerda ganhou em 2016 em remuneração fixa: 513.734,40 euros e em remuneração variável 411.670,00 euros somando no total 925.404,40 euros.

O total da comissão executiva recebeu no ano passado em remuneração fixa 2.084.672,38 euros; em remuneração variável 1.373.128,00 euros e ao todo 3.457.800,38 euros.

No que respeita à Remuneração Variável Anual atribuível aos administradores executivos, por referência ao seu desempenho em 2016, os CTT registaram a 31 de dezembro de 2016 um gasto com pessoal de 896.362 euros. “Não haverá lugar a remuneração variável para a Comissão Executiva referente a 2018 (nem em 2017)”, diz a apresentação dos CTT.

O total dos Administradores Não Executivos que não integram a Comissão de Auditoria receberam 160.678,78 euros.

No total os CTT tem hoje 13 administradores, dos quais cinco executivos.

Nesse plano é imposta ainda a “limitação dos aumentos salariais não obrigatórios para os colaboradores em 2018”, diz o documento. Outra das medidas é a forte redução da remuneração variável dos colaboradores referente a 2017.
Para além deste reforço do programa de otimização de Recursos Humanos e da racionalização da rede está previsto racionalizar ativos não estratégicos, através da venda de ativos não estratégicos.

O objetivo deste plano é gerar poupanças de 45 milhões de euros por ano a partir de 2020.

A grande aposta para o futuro é no Expresso & Encomendas e no Banco CTT para fazer face à quebra do correio tradicional.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.





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