Mais uma semana decisiva para o Brexit

As delegações das duas partes estão outra vez reunidas para debaterem a saída do Reino Unido. Mas a pergunta que cada vez mais se coloca é esta: o Reino Unido vai mesmo sair da União Europeia? ‘Não’ é uma resposta (da vez mais) possível.

Jon Nazca/Reuters

A discussão entre a União Europeia e o Reino Unido em torno do Brexit tem esta semana mais uma fase decisiva, com as duas partes a encontrarem-se para aprofundarem aquilo que ficou estabelecido na primeira ronda. Mas o debate afigura-se tenso, segundo a maioria dos analistas.

Em primeiro lugar porque cresce no Reino Unido a perceção de que os britânicos podem estar a fazer uma grande asneira – o que decorre, entre outras razões, do facto de as duas partes parecerem não ter uma agenda definida, mas antes um conjunto de assuntos que consideram merecer debate. Sem terem bem a certeza. É nesse quadro que alguns britânicos – cujas vozes vão chegando insistentemente aos media – recuperam as palavras do presidente francês, Emmanuel Macron, que, no seu primeiro encontro com a primeira-ministra Theresa May, abriu a porta a que os britânicos voltassem atrás. E decidissem que talvez fosse uma boa ideia desistirem de desistir da União Europeia. Na altura, Theresa May preferiu ignorar as palavras de Macron – mas os britânicos parecem ter adquirido a perceção de que talvez pudessem dar um passo atrás.

A primeira ronda de negociações foi, como todos esperavam, penosa para os britânicos: a União Europeia, muito pouco interessada em tornar fácil algo que, se o fosse, poderia transformar-se num perigo sistémico, não facilitou. E as pretensões do Reino Unido foram mais ou menos sistematicamente recusadas pela União Europeia.

O sonho, ou mais propriamente a ilusão de que a saída do Reino Unido podia ser uma espécie de pró-forma em que os britânicos sairiam com todas as vantagens económicas intactas e em contrapartida receberiam de volta toda a soberania que ‘resvalou’ de Londres para Bruxelas, revelou-se impossível. Tanto mais que, entre o referendo do Brexit e o início das negpociações deu-se algo que não estava nas previsões de ninguém: a Europa começou a crescer de uma forma que ganha sustentabilidade todos os meses, enquanto que o Reino Unido se vê em dificuldades para manter o mesmo ritmo.

Entretanto, do outro lado do oceano, os Estados Unidos deram a entender, ou talvez façam de conta que não entendem, que o regresso de uma parceria privilegiada entre Londres e Washington não faz parte das prioridades do governo Trump.

Só para piorar a situação, a recusa do presidente norte-americano em manter o país alinhado com a agenda do Acordo de Paris sobre Alterações Climatéricas serviu – inesperadamente e muito à custa da perspicácia da chanceler alemã Angela Merkel – para aproximar a União Europeia da China.

Com uma palavra razoavelmente despicienda em matérias como o aumento do presidencialismo na Turquia, a evolução da crise entre a Arábia Saudita (e seus aliados) e o Qatar, o conflito israelo-palestiniano (que Macron quer ‘chamar’ para a França), a agenda de Vladimir Putin ou a aproximação entre o Ocidente e o Irão, o Reino Unido vê-se de repente sozinho num mundo que mudou demasiado depressa, enquanto os britânicos se ‘entretinham’ numas eleições antecipadas que ninguém conseguiu entender.

Perante este cenário muito pouco simpático para os súbditos de Sua Majestade Isabel II, o antigo primeiro-ministro trabalhista Tony Blair – que pode ser acusado de muita coisa mas não de não ser pragmático – já reagiu: “Dado o que está em causa e aquilo que diariamente estamos a descobrir sobre os custos do Brexit’ como é que se pode tirar deliberadamente da mesa a opção de um compromisso entre o Reino Unido e a Europa para o Reino Unido ficar?”, escreveu no passado fim-de-semana, para admiração de muitos – mas com certeza para algum alívio da conservadora Theresa May.

O que fica claro de todos estes acontecimentos é que há uma via ‘britânica’ para que o Reino Unido não saia da União Europeia. E se calhar é só isso: era politicamente impossível a Theresa May aceitar uma proposta nesse sentido emanada de Paris, mas se a ‘coisa’ poder ser apresentada aos britânicos como uma boa opção ‘made in RU’, talvez eles acabem por não quererem seguir orgulhosamente sós.

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