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Mais trabalho para os (robôs) americanos

A fórmula de exigir aos empresários mais investimento em troca de menor regulação não deverá garantir a recuperação dos postos de trabalho que deixaram de existir.

Embora seja possível que ainda não tenha consciência disso, as políticas protecionistas do novo presidente americano poderão ajudá-lo a passar à história como um verdadeiro revolucionário digital.

Trump foi escolhido pelos obreiros brancos relegados pela globalização para lutar contra o livre comércio e, assim, conseguir reabrir algumas das 60.000 fábricas fechadas durante a última década e recuperar parte dos cinco milhões de empregos industriais destruídos durante a crise. Mas a fórmula de exigir aos empresários mais investimento em troca de menor regulação não deverá garantir a recuperação dos postos de trabalho que deixaram de existir.

A sobreposição temporal da revolução antissistema com a revolução digital, em forte aceleração, deverá concentrar esse investimento na automatização dos processos e na robotização das plantas industriais, em vez de na absorção de mão de obra de baixa qualificação. A escassez de trabalhadores especializados em alguns setores, como consequência das políticas anti-imigratórias, junto com a maior procura de produtos como consequência dos incentivos fiscais, provocará um aumento dos ordenados dos perfis mais escassos mas poderá não garantir os aumentos procurados transversalmente para os trabalhadores arrolhados pela onda neoliberal, cujo refluxo levou Trump ao poder.

Os robôs estão a consolidar-se como a melhor opção para substituir os lugares de trabalho cujo principal requisito seja a rotina, a experiência ou o bom senso. Por exemplo, a Foxconn, a empresa taiwanesa que fabrica os iPhone, “recrutou” recentemente 10.000 robots, com um custo de 20.000 dólares por unidade, para substituir duas ou três vezes esse número de empregados no fabrico dos novos modelos. Desta forma, muitos dos cidadãos anteriormente desconcertados pela globalização vão continuar desamparados pela transformação digital das empresas e serão progressivamente substituídos por este “digital labour”, acabando por transformar-se em verdadeiros refugiados digitais.

As revoluções política e tecnológica nos EUA parecem estar em rota de colisão. Durante as últimas décadas, habituámo-nos à influência da política na tecnologia por via das políticas públicas e da regulação dos mercados. Neste momento, o recíproco também está a acontecer, como aconteceu nas anteriores revoluções tecnológicas.

O choque frontal entre tecnologia e política está garantido nos EUA e o resultado condicionará o resto do mundo. É condição humana pensar que os tempos em que vivemos são sempre excecionais. Mas, neste caso, acho que há razões objetivas para albergar esse sentimento.

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