‘Maafa’: o grande desastre

A desmemorização é um processo muito mais subtil do que o revisionismo histórico. Não adultera os factos, mas o quadro em que os interpretamos.

A cultura portuguesa ostenta, ainda hoje, escassíssima consciência de um facto histórico indisputável: Portugal escravizou ao longo de três séculos um número de pessoas bem superior ao da sua população à data da abolição da escravatura e foi responsável por quase metade de toda a escravização africana ao longo do período colonial.  Milhões, pelo menos três — talvez cinco ou mesmo seis —, são a nossa conta no multissecular facto a que a antropóloga africanista Marimba Ani chamou em Swuali ‘Maafa’: o grande desastre.

Depois, há este outro facto: a desmemorização que o nosso antigo regime fomentou e que vai passando incólume por revoluções, descolonizações, pelas décadas de democracia para além das décadas de autoritarismo. A culpa não é dos historiadores. Logo em 1963, em “Relações Raciais no Império Colonial Português”, Charles Boxer desmistificou essa ideia de cordialidade multirracial alimentada por Salazar. Mas história e memória não se cosem com as mesmas linhas. E o facto é que fomos educados por uma representação identitária de povo de brandos costumes, sob a qual ganha sentido esta imagem de império colonial pouco colonialista, mais propenso à miscigenação e a comércios do que à conquista de terras ou à dominação de gentes. Que parte significativa desse comércio fosse de pessoas, milhões de pessoas, sujeitas à mais extrema dominação, empilhadas até não caberem em navios negreiros, é uma incongruência que não faz sentido no quadro mais amplo desta suposta e inquestionada bonomia do carácter nacional.

A desmemorização é um processo muito mais subtil do que o revisionismo histórico. Não adultera os factos, mas o quadro em que os interpretamos. Aqui, é como se a escravização massiva e multissecular fosse apenas um detalhe da história económica portuguesa: os escravos metidos no mesmo saco das especiarias e do ouro — nada que tivesse, portanto, a menor relevância para a memória colectiva dos portugueses e para a compreensão do que possa significar a lusofonia que tanto apregoamos e tentamos hoje em dia pôr a render como um capital simbólico que nos deixe bem nuns tantos cantos do mundo.

No tempo do outro senhor, esta desmemorização visava justificar a existência anacrónica de um Portugal de províncias ultramarinas numa era já pós-colonial. Nos dias que correm, o anacronismo não é o do Portugal ultramarino que (não) era um país pequeno, mas o de uma representação que continua a servir, sem verdade e sem inocência.

Paradoxalmente, esta é uma representação que nos nega culturalmente. Porque isto não se confina a Portugal e à assunção da sua história, mas ao conjunto de países que entre si partilham a língua portuguesa e que também partilham uma história de escravização. Se a língua portuguesa é globalmente tão falada é também em razão desta história, e certamente muito mais falantes do português participam dela pelo lado das vítimas do que pela dos escravizadores. Esta foi a base em que se construíram os alicerces da sociedade brasileira, como bem notou o politólogo e membro da Academia Brasileira de Ciências, José Murilo de Carvalho, quando se celebraram os 500 anos do achamento do Brasil.

As representações identitárias explicam muita da inércia cúmplice do colonialismo. Mas nem tudo se deve a inércia. Também faltou em Portugal, mais do que noutras metrópoles imperiais, uma representação social da escravização que pressionasse no sentido do seu reconhecimento histórico. Até o abolirem, os ingleses fizeram passar o seu comércio escravo por portos de Inglaterra, ao passo que os portugueses, entre 1761 (data do decreto do Marquês de Pombal) e 1869, comerciaram milhões de pessoas longe da vista da ocidental praia, o que lhes garantiu todas as vantagens: as de um dos negócios mais miseráveis na história da humanidade e as de uma consciência tão tranquila ao ponto de fazer boa figura comparada com os racismos ásperos que singraram por essa Europa oitocentista de nações cheias de identidade na guelra.

Verdade dita, os Ingleses pararam de traficar escravos por pressão do seu parlamento. Os portugueses pararam por pressão dos ingleses. Verdade dita, não fomos o último império colonial por sermos pouco colonialistas, mas pelas mesmas razões por que já fôramos os últimos a largar o negócio dos escravos.

Que fazer com esta desmemorização tão incrustada? Primeiro, identificá-la. Segundo, muito mais importante que fazermo-nos herdeiros de uma culpa colectiva é responsabilizarmo-nos colectivamente por um trabalho de memória da escravização até agora inexistente. Nos currícula escolares de História, e das áreas relacionadas com a cultura e a língua portuguesa, as menções à problemática e aos factos da escravização são desproporcionadamente escassas. Não há um museu da escravização e do comércio escravo em Portugal. Não há uma data — que devia ser comum a toda a CPLP — que recorde oficialmente o holocausto africano, o tráfico escravo e a base escravista da sociedade brasileira. Não há uma percepção pública de números, histórias, sofrimentos relevantes.

Mas por mais que a verdade importe ao passado, é ao futuro que ela faz falta. Encorajar a rememorização das origens desta lusofonia real, que ligou Portugal e duas costas do Atlântico Sul a uma história de escravos, é um trabalho da cultura, nas suas expressões literárias, artísticas, musicais, académicas, passadas, presentes ou futuras. Mas não pode servir para resgatar uma lusofonia bacoca de imenso Portugal, agora escondido atrás da sua língua, da sua literatura, da sua diáspora. Serve para nos reconhecermos numa comunidade larga em que, mais do que falarmos a mesma língua, temos uma história comum demasiado vivida para que a possamos ignorar sem nos ignorarmos.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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