José Eduardo Moniz: “Portugal é um país adiado. Vive-se um clima de ilusão”

Foi um dos nomes desejados pelo PSD para concorrer à câmara de Lisboa, mas o namoro não se concretizou.“Tenho prioridades que não se coadunam com o que é hoje a vida política”, diz.

O consultor da TVI e vice-presidente do Benfica faz uma avaliação crítica do Governo. Considera que o país está “mais ou menos na mesma” desde que o PS formou a geringonça e teme que o futuro traga um “trambolhão que há-de pôr toda a gente, de novo, a rezar a Nossa Senhora”. Mas acrescenta que a oposição de Passos Coelho revela “muita falta de jeito”.

Foi sondado ou mesmo convidado para ser candidato às eleições autárquicas em Lisboa?
Se fui convidado ou sondado interessa pouco. O que importa é o que há. E o que há é que eu sou apenas um cidadão como qualquer outro, açoriano de nascimento, mas também lisboeta de coração, jornalista e profissional de televisão.

Por que motivo declinou?
Tenho prioridades na minha vida que não se coadunam com o que é hoje a vida política em Portugal, atividade pouco entusiasmante com o enquadramento e intervenientes atuais. E há muita gente a pensar como eu. Creio, aliás, que a principal reforma estrutural de que Portugal precisa se prende com o mundo da política e dos seus protagonistas, com o amorfismo, a mediocridade e o seguidismo que nele imperam.

Como caracteriza a situação atual da cidade de Lisboa?
Poderia ser bem melhor, se se pensasse mais nas pessoas que nela vivem e menos nos turistas, se se procurasse criar condições para mais pessoas a habitarem, em vez de as atirarem para os subúrbios, se se cuidasse do que é estrutural e não das aparências e da propaganda, se se deixasse de perseguir quem é obrigado a andar de carro, quase como se de um delinquente se tratasse, e se, finalmente, se passasse das promessas aos atos e se montasse um sistema de transportes públicos verdadeiramente eficiente e amigo do utilizador. E, acima de tudo, se não se agisse basicamente a pensar apenas na eleição seguinte.

Que avaliação faz do mandato de Fernando Medina?
Lisboa está bastante melhor do que há uns anos, mas também não admira. Ao tempo que a coligação atual está no poder era o que mais faltava se alguma coisa não tivesse melhorado. Tratar-se-ia de incompetência excessiva.

Como avalia as candidatas do PSD e do CDS-PP à Câmara de Lisboa?
Sem nenhum entusiasmo. Nem perco tempo com uma reflexão desse tipo.

Vai votar em quem?
O voto é secreto.

O que gostaria de ver feito na cidade nos próximos anos?
Para além do que já deixei expresso, deveria ser prioritário rejuvenescer Lisboa, ser solidário, de forma sustentada e eficaz, com quem precisa e ter respeito por quem nela vive, o que significa muitas coisas. Uma delas, rever as taxas e taxinhas que, junto com os impostos nacionais, contribuem paulatinamente para tornar a vida de cada um mais difícil. Não é por acaso que a classe média vai desaparecendo no país todo, num percurso inexorável, perante a indiferença e a inconsciência gerais.

Como caracteriza a situação atual do país?
É um país adiado. Parece-me uma evidência. Vive-se um clima de ilusão. Saiu-se da depressão para uma quase euforia. Ninguém pára para pensar. De um momento para o outro, o dinheiro que não havia apareceu. Parece o milagre da multiplicação. Oxalá tarde muito o trambolhão que há-de pôr toda a gente, de novo, a rezar a Nossa Senhora.

Que avaliação faz do atual governo da geringonça?
Para já, rejeito essa designação. Uma geringonça, à partida, é qualquer coisa desconjuntada e ineficaz. Este Governo, embora sustentado numa aliança colada com muito cuspo, é o mais competente que eu conheci até hoje em matéria de comunicação e propaganda. Nunca nenhum governo conseguiu fazer passar a ideia de que Portugal está no melhor dos mundos como este. É como se se tivesse passado da noite para o dia. António Costa é, sem dúvida, nesse aspeto, o primeiro-ministro mais habilidoso de todos os que já conheci. Isto não é ser pessimista, é uma afirmação de realismo. O país continua mais ou menos na mesma, as reformas estruturais não se fazem, os salários são o que se sabe, os empregos que se criam são de baixa remuneração, os mais jovens continuam a olhar para o estrangeiro como a melhor hipótese para o seu futuro.

Que avaliação faz de Pedro Passos Coelho na oposição?
Honestamente ? Muita falta de jeito. Não se consegue libertar de um espartilho comportamental, conceptual e verbal que não convence.

Está disponível para desafios políticos no futuro?
Que resposta dar a isso? Sei lá! A vida traz-nos muitas surpresas. Já tenho idade para me dar ao luxo de considerar a possibilidade de encarar desafios interessantes. Mas a verdade é que, atualmente, não vejo qualquer projecto verdadeiramente mobilizador na sociedade portuguesa. Nem protagonistas que olhem para além do dia de hoje.

Os media vivem uma crise sem precedentes. Como pode ser ultrapassada?
Com imaginação, coragem e muita dor. Uma profunda reestruturação é necessária, a acompanhar uma nova visão do negócio. Sem uma perspetiva de futuro de médio e longo prazo que derrube as estratégias de curto prazo dominantes – que não passam de meros remendos em grandes males – nada mudará.

Há mercado para três estações generalistas em Portugal, que ainda se desmultiplicam em projetos no cabo?
Para haver mercado que aguente três televisões generalistas, como as que conhecemos atualmente, o Estado tem de olhar em profundidade para o papel concorrencial que o serviço público hoje assume. Esta afirmação não significa que seja contra o serviço público. Quer apenas dizer que não faz sentido a RTP ir alimentar-se ao mercado publicitário quando, sozinha e sem esforço, tem receitas vindas de todos nós que igualam as receitas dos operadores privados. Isso é distorcer totalmente o mercado. É condenar, a prazo, as televisões à indigência. Admito que possa fazer sentido para o Poder. Quem é frágil é mais facilmente controlável, porque dependente. Mas é péssimo para a democracia, para a liberdade enquanto conceito amplo. Aliás, acho que já é tempo de as pessoas pararem um pouco para pensar para que serve o serviço público hoje em dia, e qual deve ser o seu verdadeiro papel. Já não estamos nos anos 1950/60 e, além disso, a tecnologia rebentou com todos os conceitos que sustentavam as lógicas da procura e da oferta, bem como a da necessidade.

Como será a televisão do futuro?
Muito mais dispersa. Essa é uma certeza.

Há mercado para os jornais e revistas que existem atualmente no mercado?
A resposta parece-me óbvia: não.

Como é possível inverter o constante declínio da imprensa?
Com uma visão diferente e com a perceção de que precisamos todos de aprender a viver na inquietude da mudança constante. O mundo digital é isso mesmo, o que implica lógicas diferentes de organização e de relacionamento com o consumidor – e eu gosto pouco desta expressão, enquanto jornalista.

É possível a comunicação social ter lucro ou sobreviver ao fardo da dívida? Como?
Se eu não acreditasse que era possível, nem me daria ao trabalho de estar aqui a responder a estas questões. Como? Com muita criatividade, coragem para fazer explodir as ideias feitas e determinação para correr riscos. Com crença em ideias novas, com confiança nas novas gerações, mas, acima de tudo, com a aceitação do princípio de que quem pensa pequeno ficará toda a vida ‘pequeno’.

O Benfica ganhou o tetracampeonato esta época. Tem confiança na conquista do penta?
Acredito no Benfica. Respondo como o nosso treinador: deixem-nos gozar este momento. O resto logo se vê. Uma coisa de cada vez.

Estamos numa “era Benfica”?
Estamos numa era em que o Benfica assume com grande orgulho uma posição de liderança no desporto em Portugal. A estabilidade dos últimos anos tem sido determinante. Tenho muito orgulho em contribuir para esse clima.

A que se deve o sucesso que o clube tem tido?
Os bons resultados são indissociáveis do excelente trabalho que vem a ser feito de há vários anos a esta parte. Começou com Manuel Vilarinho e atingiu o seu expoente máximo com Luís Filipe Vieira.

Como é possível uma equipa portuguesa competir com equipas de outros campeonatos, que têm acesso a maiores receitas?
O dinheiro é importante, mas a organização, o mérito, o talento e a determinação também. O Benfica está entre os grandes clubes europeus por mérito próprio há muitas gerações. Tem uma identidade própria que o torna muito forte e assim continuará.

Atualmente, é possível uma equipa portuguesa conquistar uma prova europeia?
Claro que é. O Benfica esteve à beirinha de o conseguir há pouco tempo atrás. Em Portugal, creio que o Benfica é o clube que tem mais capacidade para tal proeza.

Encara a possibilidade de suceder a Luís Filipe Vieira?
Para quê especular? Quem ganha com isso?

Alguma vez imaginou que Portugal pudesse vencer a Eurovisão?
Nunca pensei que fosse fácil, mas foi a prova de que a qualidade e o talento acabam sempre por dar cartas. E a língua portuguesa é cada vez mais relevante.

Esta onda de reconhecimento de Portugal pode estender-se aos conteúdos? Os produtores portugueses podem ser ainda mais exportadores?
Essa é uma ambição que deve ser cultivada – a todos os níveis. Como digo repetidamente, ninguém nasce condenado a ser pequeno. E num mercado tão exíguo quanto o nosso a busca de novos horizontes é fundamental.

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